Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

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sábado, 31 de outubro de 2009

Pista da semana - Cromeleques

Cromeleque do Xerês

Quando e como começaram os homens e mulheres que habitaram o território a que hoje chamamos Portugal a “pensar” o Tempo, a ter dele consciência, a medi-lo?

Terá sido no Neolítico final e começos da Idade do Cobre (3000-2500 a.C.) que surge a magnífica, exuberante, misteriosa cultura megalítica – esse grande arco que terá por cenário praticamente a totalidade dos territórios a que hoje designamos por Portugal, Espanha, França, Irlanda, Dinamarca, Grã-Bretanha e Alemanha.
Aos nossos dias, além de milhares de placas de xisto gravadas (e de que não se sabe exactamente a finalidade, podendo ser amuletos votivos à fertilidade, a história de clãs através das suas linhagens, ou outra coisa qualquer) chegaram conjuntos monumentais, pedras enormes, também elas por vezes gravadas, colocadas umas sobre as outras, umas ao lado das outras, mas especialmente orientadas – antas ou dólmenes, menires, cromeleques, que os especialistas associam a espaços sagrados, a monumentos funerários, mas também à surpreendente função de marcadores do tempo.
Portugal é especialmente rico nesses conjuntos, nomeadamente no Alto Alentejo, na Beira Baixa, no Minho. Os cromeleques (conjuntos de menires) de Vale de El-Rei ou Fontaínhas Velhas (Móra), dos Cuncos (Montemor-o-Novo), Couto da Espanhola (Idanha-a-Nova), Portela de Mogos ou Almendres (Évora), de Xarez (Reguengos de Monsaraz) são disso esplêndidos exemplos, estudados na sua orientação e função.

O cromeleque de Xarez foi agora sacrificado à barragem do Alqueva. Mas, antes que as águas o tapassem, mereceu uma monografia – Das Pedras do Xarez às Novas Terras da Luz, coordenação de António Carlos Silva. É dela que passamos a citar: “A necessidade de registar a regularidade do tempo conduziu à construção de calendários, pelo que monumentos semelhantes aos do Xarez têm vindo a ser interpretados, não sem numerosas dúvidas, como santuários-observatórios, com propósitos astronómicos”.

“Em abono desta tese há muito que se verificou a orientação de diversas construções. A direcção para o quadrante de sudeste da entrada dos corredores da maioria dos dólmenes do Alto Alentejo, repetida durante séculos, confirma, pelo menos, alguns preceitos rituais fortemente radicados e conotados com conhecimentos de uma antiga, e talvez incipiente, astronomia”, diz-se.

Mas o que mais surpreende os especialistas é que essa orientação se repete, durante aproximadamente dois milénios, em todo esse arco de cultura megalítica, das planícies hoje alentejanas às montanhas hoje britânicas. Os monumentos megalíticos estão todos dirigidos para o quadrante situado entre nordeste e sudeste, ou seja, para os pontos de amplitude máxima e mínima do nascer do Sol ao longo do ano.

As localizações dos cromeleques sugerem desde logo o conhecimento da orientação solar, ou seja, das direcções equinociais e solsticiais, cujos azimutes podiam ser medidos através de linhas virtuais que ligavam determinados pontos do cromeleque, como o seu centro, a relevos evidentes da paisagem envolvente.

É que, para além dos monumentos megalíticos, alguns afloramentos rochosos, certos acidentes naturais, localizados no horizonte visual ou próximos dos recintos preparados pela acção humana, podem ter estado com eles relacionados, sendo capazes de definirem azimutes, indicadores dos movimentos astrais e da sucessão do tempo. São mais comuns aqueles que ajudam a prever os pontos onde nasce e se põe o Sol durante os equinócios (21 de Março e 21 de Setembro) e os solstícios, de Verão (21 de Junho) ou de Inverno (21 de Dezembro).

Segundo a monografia citada, no solstício de Verão, à latitude em que se encontra o cromeleque do Xarez, o Sol nasceria a, aproximadamente, 59 graus, por detrás de um outeiro com 139 metros de cota, e desapareceria no horizonte aos 301 graus, atrás de um relevo com 202 metros de altura. No solstício de Inverno, aquele movimento situava-se entre as amplitudes máximas de 121 graus e 239 graus, ambas também assinaladas por relevos bem evidentes nas linhas do horizonte. Durante os equinócios o Sol nasceria por detrás de um pequeno outeiro, com 160 metros de cota, situado 1250 metros a nascente do monumento.

Não é difícil imaginar toda uma linguagem, teatralizada, desempenhada por alguns “eleitos”, uma casta de sacerdotes, com direito a penetrar o espaço sagrado delimitado pelo conjunto de pedras. Casta essa que sabia a data exacta, a hora exacta, ano após ano, do espectáculo solar, num calendário que marcaria os ritmos, muito para além dos agrícolas. Calendários, sempre foram instrumentos de poder, de quem tem o poder.

“A construção de monumentos megalíticos é resultante de programas complexos e específicos, integrados nas manifestações de carácter sócio-religioso das comunidades neolíticas”, diz-se na monografia. “Eles terão sido planeados, tal como as sementeiras, o pastoreio ou a gestão dos recursos em geral”.

Temos pois que, os primeiros calendários “portugueses”, ainda e sempre prontos a funcionar, a indicar equinócios e solstícios, datam de há cinco mil anos.

A chamada “cultura castreja” que se seguiu (700 a.C.), a dos povos celtas que entretanto foram invadindo o território, apenas terá continuado a utilização sócio-religiosa e de instrumento astronómico-astrológico-calendário destes conjuntos megalíticos.
Cromeleque dos Almendres
Como pista para um passeio, recomenda-se desta vez o cromeleque dos Almendres, monumento megalítico que está situado numa encosta voltada a nascente, na freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, nos arredores de Évora.

Trata-se do monumento megalítico mais importante de toda a Península Ibérica, não só devido à sua dimensão, mas também, devido ao seu estado de conservação. É também considerado um dos mais importantes da Europa.

Para saber mais: História do Tempo em Portugal - Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades em Portugal (2003)

1 comentário:

Vicktor disse...

Caro Fernando

Sou leitor atento mas pouco comentador...

Desta feita, aqui fica o meu testemunho do encantamento desta leitura e da beleza do Cromeleque de Almendres e também de um magnífico menire que se encontra nas proximidades.

Um abraço.