O agora e o infinito
Há, no cemitério do Père-Lachaise, um busto de Breguet, o
grande relojoeiro suíço. É uma homenagem merecida ao físico, ao inventor do
turbilhão e do calendário perpétuo. Ele permitiu que trouxessemos no pulso o
acerto instantâneo, o agora e o infinito de que fala uma canção de Lenine. A
canção não é sobre relógios, embora reclame do relógio um atraso feliz e de
indefinido interlocutor uma palavra sussurrada que acalme a pressa e favoreça a
lentidão. Breguet não cuidou desse desejo extravagante que reclama o essencial,
tratou apenas de criar um mecanismo que pudesse medir e, ao mesmo tempo,
impelir o compasso da vida de nós todos, os que procrastinamos e os que
aceleramos a batida do coração correndo para parte incerta. Ele conjugou a
maior ousadia artesanal e a precisão absoluta dos mecanismos de medição do
tempo: o relógio que congeminou contempla o acerto dos anos bissextos e a
diferente duração dos meses sem necessidade de intervenção até ao ano de 2100.
Breguet morreu há mais de 200 anos e deu-nos este avanço, esta garantia de
ainda quase mais um século no acerto das horas e dos dias até ao mais ínfimo
suspiro do mundo. Deixámos de o trazer no pulso, guardámos tudo, turbilhão e
calendário perpétuo, num ecrã de bolso. É a vida.
Há muitos outros magos da relojoaria glorificados pelos
coleccionadores e estudados pelos especialistas. E isto poderia ser apenas um
pretexto para regressarmos à obra de Fernando Correia de Oliveira, um grande
estudioso da história do tempo e da arte da relojoaria em Portugal.
Muito poderia ele contar-nos, assim fosse mais vezes chamado à montra onde o tempo se dissolve. Nos três minutos mal contados desta crónica, muitas vezes feita em contra-relógio, trato de explicar ao que venho: cuido de chamar a vossa atenção para a exposição "Ser Relojoeiro", que abriu portas esta semana no Núcleo Museológico de Etnografia de Arganil. Os organizadores explicam que se trata de homenagem a uma profissão em vias de desaparecimento. O relojoeiro era uma figura central da comunidade, o mágico que acertava o nosso passo com o tempo, o que nos afinava os dias.
Basta-me saber que a exposição evoca o relojoeiro Manuel Cousinha, o notável impulsionador do relógio da Torre da Paz da Benfeita. Bastaria isso para encontrar utilidade numa deslocação a Arganil. Mas a exposição mergulha fundo num tempo em que os relojoeiros iam de terra em terra a medir o pulso aos nossos mais velhos. Não será coisa, como se diz agora, a propósito de tudo e de nada, imersiva. Mas, tal como ao relojoeiro de canções e multi-instrumentista Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, "é o que me interessa". Em podendo, mergulhemos em desafios como este de Arganil, trauteando a canção que reclama o essencial: o agora e o infinito.
Fernando Alves, hoje, em Sinais, na TSF



























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