Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

sexta-feira, 6 de março de 2026

O investigador Carlos Torres lança The Ministry of Horological Affairs (MoHA)

Membro de uma família há cinco gerações no ramo da Relojoaria, Ourivesaria e Joalharia, Carlos Torres tem dedicado os últimos 20 anos à produção de conteúdos para títulos nacionais e internacionais sobre aspetos da cultura e do património relacionados com estes segmentos do Luxo.

Discreto, mas sabedor, é membro do júri do Grande Prémio de Relojoaria, iniciativa única no país, da iniciativa do Anuário Relógios & Canetas, que dirigimos.

Carlos Torres lança agora The Ministry of Horological Affairs (MoHA), uma nova plataforma independente em língua inglesa, com foco na investigação histórica em horologia. "Num mundo editorial que privilegia cor, design e novidades comerciais, MoHA centra-se nos mecanismos do tempo, na evolução técnica, e nas histórias substantivas que exigem uma pesquisa mais aprofundada", diz ele a Estação Cronográfica.

O artigo inaugural, "The Other Side of the Channel", estabelece o posicionamento editorial da publicação, ao examinar as contribuições de Pierre Le Roy para a resolução do problema da longitude, "uma história frequentemente ofuscada pela narrativa dominante centrada em John Harrison", sublinha. "Baseado em fontes primárias do século XVIII (diários de expedições, relatos de navegadores, documentos de arquivo), o ensaio reflete o compromisso do MoHA: temas interessantes mas negligenciados, tratados com rigor histórico".

No MoHA, promete, "explora-se a mecânica, a história técnica, e os desenvolvimentos científicos que moldaram a medição do tempo".

Saiba mais aqui.



Rede Boutique dos Relógios abre espaço no Outlet de Vila do Conde


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Janela para o passado - Escola de Noivas e Donas de Casa, 1951

Campanha "diamonds are forever", 1992


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Os relógios Piaget no Relógios & Canetas online


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Meditações - não temos o tempo todo

Uma pessoa, com os anos, aprende a gerir melhor o tempo, dizia eu, um dia destes, como se a experiência me tivesse conferido esse poder. Ou aprende a aceitá-lo; tal e qual como ele é?… (Houve quem, com delicadeza, mo perguntasse.) E eu parei. Respirei fundo, espantado para aquilo que tinham acabado de me dizer. Recompus-me. Olhei melhor para a minha surpresa. (Às vezes, perdemos mais tempo a decidir se pensamos ou não do que a pensar…) E, depois, perguntei: uma pessoa começa a morrer quando reconhece que não tem o tempo todo? Ou, ao contrário, é aí que se começa a mandar na vida e a viver?

Eduardo Sá

quinta-feira, 5 de março de 2026

Semana relojoeira de Genebra - relógios Delma convidam...

Semana relojoeira de Genebra - relógios Breva convidam...

Canetas ST Dupont abre espaço no El Corte Inglés de Lisboa


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Janela para o passado - Bebé Nestlé, 1951

Relógios, canetas e jóias Tiffany & Co., 1990


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Os relógios Patek Philippe no Relógios & Canetas online


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Meditações - Midnight shakes the memory

Rhapsody on a Windy Night


Twelve o'clock.

Along the reaches of the street

Held in a lunar synthesis,

Whispering lunar incantations

Dissolve the floors of memory

And all its clear relations,

Its divisions and precisions,

Every street lamp that I pass

Beats like a fatalistic drum,

And through the spaces of the dark

Midnight shakes the memory

As a madman shakes a dead geranium.

Half-past one,

The street lamp sputtered,

The street lamp muttered,

The street lamp said, 'Regard that woman

Who hesitates towards you in the light of the door

Which opens on her like a grin.

You see the border of her dress

Is torn and stained with sand,

And you see the corner of her eye

Twists like a crooked pin.'

The memory throws up high and dry

A crowd of twisted things;

A twisted branch upon the beach

Eaten smooth, and polished

As if the world gave up

 

The secret of its skeleton,

Stiff and white.

A broken spring in a factory yard,

Rust that clings to the form that the strength has left

Hard and curled and ready to snap.

Half-past two,

The street lamp said,

'Remark the cat which flattens itself in the gutter,

Slips out its tongue

And devours a morsel of rancid butter.'

So the hand of a child, automatic,

Slipped out and pocketed a toy that was running along the quay.

I could see nothing behind that child's eye.

I have seen eyes in the street

Trying to peer through lighted shutters,

And a crab one afternoon in a pool,

An old crab with barnacles on his back,

Gripped the end of a stick which I held him.

Half-past three,

The lamp sputtered,

The lamp muttered in the dark.

The lamp hummed:

'Regard the moon,

La lune ne garde aucune rancune,

She winks a feeble eye,

She smiles into corners.

She smoothes the hair of the grass.

The moon has lost her memory.

A washed-out smallpox cracks her face,

 

Her hand twists a paper rose,

That smells of dust and old Cologne,

She is alone

With all the old nocturnal smells

That cross and cross across her brain.'

The reminiscence comes

Of sunless dry geraniums

And dust in crevices,

Smells of chestnuts in the streets,

And female smells in shuttered rooms,

And cigarettes in corridors

And cocktail smells in bars.

The lamp said,

'Four o'clock,

Here is the number on the door.

Memory!

You have the key,

The little lamp spreads a ring on the stair,

Mount.

The bed is open; the tooth-brush hangs on the wall,

Put your shoes at the door, sleep, prepare for life.'

The last twist of the knife.


T. S. ELIOT

quarta-feira, 4 de março de 2026

Semana relojoeira de Genebra - relógios March LA.B convidam...

Semana relojoeira de Genebra - relógios Minase convidam...

Janela para o passado - Instituto Pasteur de Lisboa, 1951

Relógios Omega, 1990


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Os relógios Omega no Relógios & Canetas online


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Meditações - não haverá dia como hoje

This day will never come again and anyone who fails to eat and drink and taste and smell it will never have it offered to him again in all eternity. The sun will never shine as it does today...You must play your part and sing a song, one of your best.

Hermann Hesse 

terça-feira, 3 de março de 2026

Semana relojoeira de Genebra - relógios Eberhard convidam...

Semana relojoeira de Genebra - relógios Nivada convidam...


Semana relojoeira de Genebra - relógios Delbana convidam...


Janela para o passado - Herpetol, 1951

Canetas Montblanc, 1990


 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Os relógios Panerai no Relógios & Canetas online


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Cronómetros certificados - COSC aperta mais as regras


Cronómetros certificados

Assinalando o meio século de existência da norma ISO 3159 sobre cronómetros certificados, o Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres (COSC) acaba de anunciar novas regras, mais apertadas.

Assim, e num período de controlo de 16 dias, passa a exigir que oos calibres tenham uma tolerância diária de 6 segundos, em vez dos atuais 10, uma resistência magnética até 200 Gauss, e verificação da reserva de corda anunciada pelo fabricante.

Passado o teste, os relógios que usarem esses calibres poderão ostentar no mostrador a frase Certified Chronometer. Trata-se do primeiro nível de certificação.

A certificação COSC sempre foi criticada por apenas estar em causa o comportamento do calibre, antes de estar montado na caixa. O organismo responde agora a essas criticas.

Num segundo e novo nível, e para poder reclamar-se de “Excellence Chronometer”, os calibres voltam para as manufaturas, para serem montados nas caixas. Ai, os relógios completos são submetidos a 5 dias suplementares de testes, usando robots capazes de simular o uso diário no pulso, com tolerância de variação entre –2 e +4 segundos por dia, mesmo sob campos magnéticos de 200 Gauss. A autonomia reclamada pelo fabricante volta a ser verificada.

Os testes não serão feitos por amostragem – cada relógio é testado individualmente, aliás, prática de sempre do COSC.

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Semana relojoeira de Genebra - relógios Sartoy Billard convidam...

Meditações - tudo muda

Time only moves in one direction. Remember that. Things always change.

Mohsin Hamid

segunda-feira, 2 de março de 2026

João Pires, mestre relojoeiro, denunciante da Inquisição, 1756

Data de 6 de Agosto de 1756 o Requerimento de João Pires, mestre relojoeiro, para lhe ser passada nova carta de Familiar com ressalva, informação e despacho.

(Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

A familiatura tinha uma dupla função na sociedade portuguesa de Antigo Regime: além do controle social e religioso exercido por este corpo de oficiais inquisitoriais, a obtenção da carta de familiar também nobilitava os indivíduos que a obtinham.

Da Wikipedia:

As principais funções dos Familiares eram ligadas à máquina policial do Santo Ofício, cabendo-lhes executar as prisões de suspeitos de heresia, sequestrar os bens dos condenados, nos crimes em que coubesse confisco, e efetuar diligências a mando dos inquisidores. Havia ainda Familiares médicos, que examinavam os presos e avaliavam sua resistência à tortura. Exerciam, também, função precípua nos célebres Autos-de-fé, trajados com pompa, ladeando os penitentes em procissão e os condenados até o cadafalso.

No Arquivo Nacional da Torre do Tombo encontram-se os processos de habilitação dos Familiares do Santo Ofício português, incluindo os do Brasil. Esses processos incluíam diligências exaustivas sobre o sangue e a conduta do postulante, de sua esposa (caso a tivesse) e dos seus parentes até os avós. Um simples rumor apurado nessas diligências poderia prejudicar a habilitação, havendo casos de indeferimento por "sintoma de mulatice" em algum parente, ou por "nódoa de sangue judaico" na família. Os que passavam pela prova obtinham, além da familiatura, privilégios consideráveis, como a isenção de certos impostos, além do prestígio social - expresso na ostentação da medalha de Familiar - de ser alguém de confiança da Inquisição.

Janela para o passado - C. P., 1951

Semana relojoeira de Genebra - relógios Squale convidam...


 

Relógios & Canetas online Março


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Os relógios Nomos no Relógios & Canetas online


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Meditações - dia e noite

The night has a thousand eyes,

And the day but one;

Yet the light of the bright world dies

With the dying sun.

 

The mind has a thousand eyes,

And the heart but one:

Yet the light of a whole life dies

When love is done.


Francis William Bourdillon

domingo, 1 de março de 2026

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Segunda, 2 de Março, a falar sobre o Tempo na RTP2


Na próxima segunda-feira, 2 de Março, vamos estar em direto no programa Sociedade Civil, da RTP2, entre as 15h30 e as 17h00, para falar sobre o Tempo com o jornalista Luís Castro.

Os relógios MB&F no Relógios & Canetas online


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Janela para o passado - farinha Nestlé, 1950

Relógios Blancpain, 1990


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Meditações - Não somos donos de quase nada. Muito menos do tempo

Com o tempo, o nosso corpo parece revoltar-se a ponto de nos parecer fugir e, rebelde, de se tornar ingerível. À medida que eles crescem, os filhos deixam de ser tão nossos e com aquilo com que nos desiludem, nós e eles parecemos ingeríveis. O amor não é tantas vezes como tanto queríamos e ele próprio parece ir-se gerindo, sem chama e sem paixão, e, nesse vai-se andando, torna-se ingerível. Às vezes, cresce em nós a sensação de que não somos donos de quase nada. Muito menos do tempo. O que nos traz a sensação de estarmos vivos. Sem grande governo. Que é uma forma de irmos morrendo devagar.

Acho que foi por isso que, como toda a gente, evitei, de todas as maneiras, tocar nas formas como perdia tempo. O tempo corria. Eu, apesar de tudo, corria atrás do tempo. De tempos a tempos, o tempo e eu travávamos algum conhecimento. E, ao contrário de tudo o que ia imaginando, debaixo dessa forma desconjuntada de viver o tempo, foi preciso perder-me nele para reparar que “começamos” a viver quando descobrimos que, afinal, não temos o tempo todo. Às vezes, fugimos de olhar para o tempo que perdemos porque temos medo que isso faça com que morramos mais depressa.


Eduardo Sá

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Os relógios Maurice Lacroix no Relógios & Canetas online


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Janela para o passado - óleo de fígado de bacalhau

Meditações - Não há, em viagens, tempo perdido

Nenhum homem existe que não tenha sentido, pelo menos uma vez, o irreprimível apelo da partida, aquele “místico estremecimento”, como lhe chama Melville, de “nem o navio nem nós podermos já ser vistos de terra”.

Abençoados pelo tempo – essa ínfima parte da eternidade – consome-nos a urgência de tudo. E o lume da ânsia em que ardemos, iluminando-nos o caminho, queima-nos, calcina-nos. Saudamos as vastidões porque horizontes largos permitem a respiração da chama e a redenção de tão curtas vidas.

Apolónio de Rodes sabia: “a viagem que leva os homens a zarpar acaba sempre por, irremediavelmente, chegar”.

Jasão não pensava ser chamado, ainda rapaz, a ser o primeiro a sulcar o mar.

No seu porto distante, Medeia, uma menina apenas, não esperava nenhum estrangeiro por quem se apaixonar. Um partia para voltar para casa e salvar o pai; a outra rejeitava o pai e partia para nunca mais voltar. Escolheram ambos o mar e chegaram ao fim bem diferentes de como haviam começado: já não eram jovens, tinham-se tornado homem e mulher – heróis.

Para os gregos, herói era o que sabia escutar-se, escolher-se no mundo e aceitar a mais dura prova exigida a todo o homem: a de nunca se trair. Vitórias e derrotas não são definitivamente a medida do heroísmo: na Antiguidade, herói é aquele que decide a sua vida, a sua medida será sempre grande porque será a da sua ousadia. E se Platão, no Teeteto, disse que “pensar é o acto da alma que fala consigo mesma”, a revolução plenamente grega consiste em uma e outra vez dirigir a palavra àquilo a que tantas vezes impomos o silêncio: dizermo-nos por dentro para poder escolher, amando-nos como somos na mais íntima pureza de um livro sussurrado ao ouvido na velhice.

É frequente hoje colocarmos a nossa bitola quase ao nível do solo, convencidos de merecermos muito pouco, quase certos de que os nossos horizontes não podem nunca estar encobertos, e acabamos por temer desejar, em nome da falsa tranquilidade que nos dá o facto de nada mudar.

Esmaecida e degradada, a palavra herói serve hoje para definir apenas vencedores, marechais de verbo oco – excelência! inovação! – que, ao ritmo das botas cardadas da sua vacuidade, transitam de TedTalks para livros de auto-ajuda com a resoluta diligência de uma lesma. E quase nos acontece esquecermos aquele colóquio interior que apenas o gesto de nos fazermos ao mar nos pode fazer descobrir novamente. Juntamente com o amor, centelha de heroísmo em cada vida particular, que sabe elevar aos astros a nossa medida interior. Medeia e Jasão foram os primeiros, mas não os últimos. Eles são a viagem de ida e volta de toda a jornada humana.

O mar é uma língua antiquíssima e as suas palavras são um mapa a decifrar. Não tem fim, mas multiplica inícios sob a forma de horizontes. Ele conhece a arte do encantamento, do assombro, do medo, da impaciência e da espera. Engole naus, oferece presentes e ténues linhas de pele tisnada em mãos sobre o peito (para cima, para baixo), surpreende-nos em portos não assinalados em mapas traçados por outros que não nós. É doce nas suas ondas e cruel nas suas tempestades; a sua água é salgada como o suor do cansaço, como o pranto da dor, como as lágrimas de uma alegria há muito abafada pela promessa de uma voz cuja “beleza salvará o mundo”. A barca é bela e no casco, pintado de fresco, está o nosso nome. Na viagem dos heróis, essa barca somos nós.

Em breve chegaremos ao porto, para isso atravessámos a imensidão da água. Uma nova vida nos aguarda, a que sempre desejámos antes de aceitarmos o desafio de partir. É a vida que tanto temíamos pedir a que vem ao nosso encontro.

Por essa razão partimos: deixarmos de viver como importunos – etimologicamente, alguém sem um porto para sermos quem realmente somos – e não importunarmos, não confundirmos, não desorientarmos quem realmente amamos, aquilo em que realmente acreditamos. Para não continuarmos a vaguear distraidamente, mas reencontrarmos um fio, uma terra, um chão para os nossos pensamentos.

Inefáveis ​​são as cores da água impossíveis de arrumar em armários ou em gavetas – pois não pode chamar-se pelo nome a luz que a acende durante o dia – transparente, cobalto, cristal, turquesa – e a apaga à noite: negro, vinho, lua. O mar conhece a lei do equilíbrio entre a presença e a ausência que tantas vezes nos escapa e nos abate na espera daquilo que, apenas por enquanto, não conhecemos ainda. E o que não somos ainda. Ainda…

O seu nome tanto pode ser masculino (italiano, português), como feminino (francês), como neutro (línguas eslavas). É todas as mulheres, todos os homens, todos os pensamentos que habitam os nossos portos, dos mais distantes aos mais próximos. O mar chama, e é nossa obrigação, do inventário daquilo que somos, escolhermo-nos todos os dias: homens impacientes, filhos amados, mães apreensivas, amigos leais, amantes arrebatados, rapazes rebeldes, mulheres prudentes, crianças inquietas – a simultaneidade de todos os nossos eus desfraldados como uma vela.

Não há, em viagens, tempo perdido. Todo ele é, pelo contrário, tempo reencontrado, pois, nas idas e vindas das marés, o herói quotidianamente descobre o que é, não o que foi, nem o que será.

Todos os dias, enfunadas as velas do Argo, fazemo-nos ao mar e enfrentamos ventos e tempestades para chegar à costa ou para sermos diferentes daquilo que éramos quando partimos, passamos a linha de sombra e cruzamos o nosso umbral. O mar exige que escolhamos para onde vamos e porquê.

Podemos ignorá-lo; invocar falta de tempo, e pode até dar-se o caso de não o ouvirmos – esse mar, que nos fala nas remotas palavras de uma língua desconhecida, pode ser assustador ou gentil. Mas, sem avisar, sem qualquer vento que o anuncie, haverá sempre um mar que, pacientemente, nos conduzirá àquele gesto arcaico, humano: cruzar o umbral e mergulhar. Em nós.

“Chamem-me Ismael.”

Vamos?


Paulo Ramos