Quem é que nunca sentiu que o tempo custa a passar quando se
está à espera de alguma coisa? Os minutos têm sempre a mesma duração — tal como
as horas, os dias e as semanas —, mas a nossa perceção da passagem do tempo, ao
contrário do relógio e do calendário, está longe de ser objetiva. Por norma,
sentimos que o tempo passa mais depressa quando estamos a fazer algo que nos
agrada e mais devagar quando a atividade é desagradável.
Essa diferença entre o tempo do relógio e o tempo que
sentimos também muda ao longo da vida — uma criança, um adulto e um idoso têm,
em geral, perceções do tempo muito diferentes. Com a idade, acumulam-se
experiências e rotinas. Os dias tendem a repetir-se mais e as novidades
tornam-se menos frequentes. Isso pode influenciar a forma como sentimos o tempo
e a forma como o recordamos..
Do ponto de vista neuropsicológico, não há uma explicação
única nem definitiva, mas há algumas teorias. Uma das chaves para compreender
esta sensação está no facto de não termos um “sentido do tempo” propriamente
dito. “Não termos recetores sensoriais específicos [para medir o tempo], pelo
que o cérebro depende de outros mecanismos para construir esta perceção”, diz
Maria Vânia Nunes, especialista em Psicogerontologia e em Neuropsicologia e
professora do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica
Portuguesa, onde faz investigação e leciona na área das Neurociências
Cognitivas.
Em vez disso, o cérebro constrói a perceção do tempo a
partir de vários mecanismos, como a atenção, a memória e o registo dos
acontecimentos, usando “sistemas diferentes para diferentes escalas de tempo”,
o que explica que haja sensações contraditórias. No envelhecimento, a noção de aceleração
“parece dizer respeito a escalas de tempo maiores, como meses ou anos, mas,
muitas vezes, a perceção é de que os dias ou as horas demoram mais tempo a
passar”, exemplifica a investigadora.
“As pessoas têm a clara noção de que o tempo que lhes resta
é mais limitado”, diz Maria Vânia Nunes, professora do Instituto de Ciências da
Saúde da Universidade Católica Portuguesa. “O mais relevante parece ser
garantir que o presente é rico em eventos, novidades e aprendizagens”. As
novidades e a diversificação de experiências, ajudam a evitar a monotonia e
traduzem-se num verdadeiro “ganho de tempo” quando o passado é revisto.
Isso acontece porque, quando falamos de horas ou dias, “a
noção de tempo depende da atenção que, por sua vez, depende do registo dos
eventos que estão a decorrer. Quando estes eventos são poucos — o que muitas
vezes acontece no envelhecimento, em que há a diminuição de compromissos e
outras atividades — há a noção de que o tempo demora mais a passar”. Já considerando intervalos temporais maiores,
como meses ou anos, as referências estão mais associadas à memória, “pelo que
os períodos com poucos acontecimentos parecem ser compactados”, dando a
sensação de que o tempo passou muito rapidamente.
A rotina versus novidade tem um papel central nesta sensação
da passagem do tempo, que é familiar para quase toda a gente: “Quando entramos
na rotina, corremos durante o dia e, mais tarde, não sabemos para onde foram os
anos. Pelo contrário, quando temos dias cheios de eventos e novidades, quando
olhamos retrospetivamente a perceção do tempo vai parecer maior.”
Além das mudanças no cérebro e na forma como a memória
funciona com a idade, há também fatores psicológicos que ajudam a explicar
porque é que o tempo é vivido de maneira diferente. Uma das ideias mais
conhecidas é a dos rácios: “Por exemplo, um ano em dez é um décimo da vida. Mas
um ano em cinquenta é apenas dois por cento da vida.” Daqui decorre que um ano
tende a parecer mais curto quando somos mais velhos, por representar uma fração
muito menor de tudo o que já vivemos.
Ainda assim, a investigadora refere que aquilo que parece
ser mais relevante na perceção de tempo acelerado na velhice é sentir que a
vida se está a aproximar do fim. “As
pessoas têm a clara noção de que o tempo que lhes resta é mais limitado”.
Apesar de o tempo em si ser irreversível, é possível
influenciar a forma como o sentimos. “O mais relevante parece ser garantir que
o presente é rico em eventos, novidades e aprendizagens”. As novidades e a
diversificação de experiências, ajudam a evitar a monotonia e traduzem-se, como
diz Maria Vânia Nunes, num verdadeiro “ganho de tempo” quando o passado é
revisto.
Sofia Teixeira, Observador