Data de 9 de Dezembro de 1745 o Requerimento do mestre relojoeiro António de Freitas Borges ao rei [D. João V] solicitando a ocupação de relojoeiro e sineiro da Sé.
(Arquivo Histórico Ultramarino)
Data de 9 de Dezembro de 1745 o Requerimento do mestre relojoeiro António de Freitas Borges ao rei [D. João V] solicitando a ocupação de relojoeiro e sineiro da Sé.
(Arquivo Histórico Ultramarino)
Com o tempo, o nosso corpo parece revoltar-se a ponto de nos parecer fugir e, rebelde, de se tornar ingerível. À medida que eles crescem, os filhos deixam de ser tão nossos e com aquilo com que nos desiludem, nós e eles parecemos ingeríveis. O amor não é tantas vezes como tanto queríamos e ele próprio parece ir-se gerindo, sem chama e sem paixão, e, nesse vai-se andando, torna-se ingerível. Às vezes, cresce em nós a sensação de que não somos donos de quase nada. Muito menos do tempo. O que nos traz a sensação de estarmos vivos. Sem grande governo. Que é uma forma de irmos morrendo devagar.
Acho que foi por isso que, como toda a gente, evitei, de todas as maneiras, tocar nas formas como perdia tempo. O tempo corria. Eu, apesar de tudo, corria atrás do tempo. De tempos a tempos, o tempo e eu travávamos algum conhecimento. E, ao contrário de tudo o que ia imaginando, debaixo dessa forma desconjuntada de viver o tempo, foi preciso perder-me nele para reparar que “começamos” a viver quando descobrimos que, afinal, não temos o tempo todo. Às vezes, fugimos de olhar para o tempo que perdemos porque temos medo que isso faça com que morramos mais depressa.
Nenhum homem existe que não tenha sentido, pelo menos uma vez, o irreprimível apelo da partida, aquele “místico estremecimento”, como lhe chama Melville, de “nem o navio nem nós podermos já ser vistos de terra”.
Abençoados pelo tempo – essa ínfima parte da eternidade – consome-nos a urgência de tudo. E o lume da ânsia em que ardemos, iluminando-nos o caminho, queima-nos, calcina-nos. Saudamos as vastidões porque horizontes largos permitem a respiração da chama e a redenção de tão curtas vidas.
Apolónio de Rodes sabia: “a viagem que leva os homens a zarpar acaba sempre por, irremediavelmente, chegar”.
Jasão não pensava ser chamado, ainda rapaz, a ser o primeiro
a sulcar o mar.
No seu porto distante, Medeia, uma menina apenas, não esperava nenhum estrangeiro por quem se apaixonar. Um partia para voltar para casa e salvar o pai; a outra rejeitava o pai e partia para nunca mais voltar. Escolheram ambos o mar e chegaram ao fim bem diferentes de como haviam começado: já não eram jovens, tinham-se tornado homem e mulher – heróis.
Para os gregos, herói era o que sabia escutar-se, escolher-se no mundo e aceitar a mais dura prova exigida a todo o homem: a de nunca se trair. Vitórias e derrotas não são definitivamente a medida do heroísmo: na Antiguidade, herói é aquele que decide a sua vida, a sua medida será sempre grande porque será a da sua ousadia. E se Platão, no Teeteto, disse que “pensar é o acto da alma que fala consigo mesma”, a revolução plenamente grega consiste em uma e outra vez dirigir a palavra àquilo a que tantas vezes impomos o silêncio: dizermo-nos por dentro para poder escolher, amando-nos como somos na mais íntima pureza de um livro sussurrado ao ouvido na velhice.
É frequente hoje colocarmos a nossa bitola quase ao nível do solo, convencidos de merecermos muito pouco, quase certos de que os nossos horizontes não podem nunca estar encobertos, e acabamos por temer desejar, em nome da falsa tranquilidade que nos dá o facto de nada mudar.
Esmaecida e degradada, a palavra herói serve hoje para definir apenas vencedores, marechais de verbo oco – excelência! inovação! – que, ao ritmo das botas cardadas da sua vacuidade, transitam de TedTalks para livros de auto-ajuda com a resoluta diligência de uma lesma. E quase nos acontece esquecermos aquele colóquio interior que apenas o gesto de nos fazermos ao mar nos pode fazer descobrir novamente. Juntamente com o amor, centelha de heroísmo em cada vida particular, que sabe elevar aos astros a nossa medida interior. Medeia e Jasão foram os primeiros, mas não os últimos. Eles são a viagem de ida e volta de toda a jornada humana.
O mar é uma língua antiquíssima e as suas palavras são um mapa a decifrar. Não tem fim, mas multiplica inícios sob a forma de horizontes. Ele conhece a arte do encantamento, do assombro, do medo, da impaciência e da espera. Engole naus, oferece presentes e ténues linhas de pele tisnada em mãos sobre o peito (para cima, para baixo), surpreende-nos em portos não assinalados em mapas traçados por outros que não nós. É doce nas suas ondas e cruel nas suas tempestades; a sua água é salgada como o suor do cansaço, como o pranto da dor, como as lágrimas de uma alegria há muito abafada pela promessa de uma voz cuja “beleza salvará o mundo”. A barca é bela e no casco, pintado de fresco, está o nosso nome. Na viagem dos heróis, essa barca somos nós.
Em breve chegaremos ao porto, para isso atravessámos a imensidão da água. Uma nova vida nos aguarda, a que sempre desejámos antes de aceitarmos o desafio de partir. É a vida que tanto temíamos pedir a que vem ao nosso encontro.
Por essa razão partimos: deixarmos de viver como importunos – etimologicamente, alguém sem um porto para sermos quem realmente somos – e não importunarmos, não confundirmos, não desorientarmos quem realmente amamos, aquilo em que realmente acreditamos. Para não continuarmos a vaguear distraidamente, mas reencontrarmos um fio, uma terra, um chão para os nossos pensamentos.
Inefáveis são as cores da água – impossíveis de arrumar em armários ou em gavetas – pois não pode chamar-se pelo nome a luz que a acende durante o dia – transparente, cobalto, cristal, turquesa – e a apaga à noite: negro, vinho, lua. O mar conhece a lei do equilíbrio entre a presença e a ausência que tantas vezes nos escapa e nos abate na espera daquilo que, apenas por enquanto, não conhecemos ainda. E o que não somos ainda. Ainda…
O seu nome tanto pode ser masculino (italiano, português), como feminino (francês), como neutro (línguas eslavas). É todas as mulheres, todos os homens, todos os pensamentos que habitam os nossos portos, dos mais distantes aos mais próximos. O mar chama, e é nossa obrigação, do inventário daquilo que somos, escolhermo-nos todos os dias: homens impacientes, filhos amados, mães apreensivas, amigos leais, amantes arrebatados, rapazes rebeldes, mulheres prudentes, crianças inquietas – a simultaneidade de todos os nossos eus desfraldados como uma vela.
Não há, em viagens, tempo perdido. Todo ele é, pelo contrário, tempo reencontrado, pois, nas idas e vindas das marés, o herói quotidianamente descobre o que é, não o que foi, nem o que será.
Todos os dias, enfunadas as velas do Argo, fazemo-nos ao mar e enfrentamos ventos e tempestades para chegar à costa ou para sermos diferentes daquilo que éramos quando partimos, passamos a linha de sombra e cruzamos o nosso umbral. O mar exige que escolhamos para onde vamos e porquê.
Podemos ignorá-lo; invocar falta de tempo, e pode até dar-se o caso de não o ouvirmos – esse mar, que nos fala nas remotas palavras de uma língua desconhecida, pode ser assustador ou gentil. Mas, sem avisar, sem qualquer vento que o anuncie, haverá sempre um mar que, pacientemente, nos conduzirá àquele gesto arcaico, humano: cruzar o umbral e mergulhar. Em nós.
“Chamem-me Ismael.”
Vamos?
A todo o instante
É manhã nas coisas
Basta que a nuvem se afaste
Rui Motta
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, tem uma abordagem distinta em relação ao tempo e explicou por que opta por não usar relógio. Falando num evento tecnológico, Huang, cuja empresa Nvidia viu a sua avaliação disparar nos últimos anos, enfatizou o valor de viver no momento presente.
“Poucas pessoas sabem disso, mas eu não uso relógio. A razão pela qual não uso é que agora é o momento mais importante. Você pode se surpreender, mas não sou particularmente ambicioso. Não aspiro a fazer mais; quero fazer melhor no que estou fazendo atualmente, não estou me esforçando para mais – espero que o mundo venha até mim. estratégia. Não temos um grande plano. A nossa definição de um plano a longo prazo é simplesmente: o que estamos a fazer hoje?
Uma conta do Instagram, @entrepreneursonig, compartilhou um vídeo de Huang discutindo sua filosofia no evento, com a legenda: “Fazer mais é fácil; fazer menos é difícil. Jensen Huang, CEO e cofundador da NVIDIA, conta como ele e seu a empresa se concentra no presente e, em última análise, molda o seu futuro.”
do Facebook
Podemos mirar el estado presente del universo como el efecto del pasado y la causa de su futuro. Se podría concebir un intelecto que en cualquier momento dado conociera todas las fuerzas que animan la naturaleza y las posiciones de los seres que la componen; si este intelecto fuera lo suficientemente vasto como para someter los datos a análisis, podría condensar en una simple fórmula el movimiento de los grandes cuerpos del universo y del átomo más ligero; para tal intelecto nada podría ser incierto y el futuro, así como el pasado, estarían frente a sus ojos.
Pierre-Simon Laplace
Give me the positions and velocities of all the particles in the universe, and I will predict the future.
Marquis Pierre Simon de Laplace
O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
Sá de Miranda, in 'Antologia Poética'
ECO DEL RELOJ
Me senté
en un claro del
tiempo.
Era un remanso de
silencio,
de un blanco
silencio.
Anillo
formidable,
donde los luceros
chocaban con los
doce flotantes
números negros.
Federico García
Lorca