O futuro do presente
O futuro é aquela utopia por nós sonhada que gostaríamos de
ver concretizada. Para nós o presente está no meio de nuvens tão espessas que
não nos deixam ver para além. Eu penso na escola, porque educação é mais
extensa que escola, e penso qual o papel do professor que necessitaremos para
lá deste nevoeiro. O magíster dixit, isto é, o professor disse e está dito, há
muito que acabou; com toda a verdade nunca foi extinto. Teve até hoje a
regência do saber porque não existia quem lho contestasse. O uso da tecnologia
foi-lhe tirando o papel de ator principal e, a pouco e pouco, ele foi-se
retirando da ribalta, sem se dar conta que estava a ser arredado: já não
precisa de ensinar a operar porque a calculadora fá-lo com prontidão e certeza;
já não precisa de ensinar ortografia porque o computador não deixa dar erros;
não precisa da tabela periódica porque o relógio dá-lhe a resposta que
necessita, e assim por diante, sub-repticiamente foi perdendo muitas das sua
valências como mestre indiscutível. Que mais se seguirá? A resposta está para
lá do nevoeiro mas, pelo que se pode perspetivar, o professor terá que ser um
programador de computador. O saber específico ficará a cargo da inteligência
artificial e aí se encontrará todo o saber sobre qualquer assunto. Então há que
fazer um programa, género súmula, desse vasto saber para o apresentar aos
alunos. Apresentar para discutir e até confrontar com as várias visões
plasmadas nos textos da IA. Este “professor”, entre aspas porque já não ensina,
perderá o seu título académico e ganhará o de programador. Na sua seleção de
textos estará a sua subjetividade colocando o aluno novamente na
subalternidade. Este saberá fugir à grilheta comentando na sua peculiaridade os
textos que ficaram de fora da seleção do programador escolar. Será assim?
Pergunto ao eco e ele não responde porque também não sabe, mas há uma certeza
já visível, nunca mais o professor de hoje será o mesmo de amanhã, porque a
tecnologia não o deixará e, no entanto, a sociedade será cada vez mais
tecnológica. Dizia-me há tempos um amigo:” já não vou ao banco há muito tempo;
faço pagamentos, transferências, abertura de contas, consultas de depósitos
apenas com o computador pessoal; já não preciso de nada para encontrar o lugar
para onde quero ir porque o GPS indica-me o caminho e avisa-me quando chego. No
meu relógio recebo mails… Pena é, continuou ele, navegando na espessura do
nevoeiro de hoje, que não tenha vida para ver a futura sociedade porque, pelo
que vejo, não lhe vai faltar tempo de lazer; meu caro, a tecnologia vai
trabalhar por ela”. E quem trabalha nos campos? “A tecnologia produzirá
alimentos, tecidos, sapatos, nos laboratórios, como faz com os medicamentos e
fará de previdência em todos os aspetos da vida humana? E julgo que saberá
produzir água nas suas provetas. Os automóveis terão condução automática, e por
aí adiante.” Sonho, utopia, realidade cabem todos no mesmo cesto. Será capaz de
fazer nascer “meninos proveta”, por conta e medida certa, das necessidades da
vida? Que responda o nevoeiro que nos estorva a vista.
Paulo Fafe, 28 de setembro de 2026, in Diário do Minho
Sem comentários:
Enviar um comentário