Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Meditações - a morte liberta-nos do relógio

Entre as muitas vantagens que a morte concede a quem teve a paciência de a alcançar, uma das mais apreciáveis consiste na libertação do relógio, engenho que os vivos fabricaram para medir o tempo e que, com o costume, acabaram por deixar converter-se em pequeno tirano de pulso, de parede ou de telemóvel. Diante dele consomem a existência a chegar atrasados, a sair cedo, a contar minutos, a lamentar horas e a prometer para terça-feira aquilo que, chegado o sábado, continua piedosamente por fazer.

Talvez os vivos tenham sido inventados para compensar a indolência dos mortos. Passam metade da existência a correr para arribar a algum lugar e, uma vez chegados, consultam o relógio para saber a que horas poderão sair; compram agendas para anotar aquilo de que se esquecerão; estabelecem prazos para coisas que desconhecem; prometem inaugurações de obras ainda por começar; e acabam, quando desaguam no fim, metidos debaixo da terra, ou lançados em poeira pelos ares, onde descobrem tarde de mais que os séculos não usam sequer calendário.

Em vida, convenhamos, perder o comboio exige um destino; chegar atrasado requer um compromisso; cumprir aquele prazo pressupõe uma esperança, algo presunçosa, de ainda cá estar no dia seguinte. Já a morte, benévola, dissolve tais convenções com uma eficácia administrativa que nenhum programa de simplificação do Estado jamais imitou. Um homem vivo pode passar três anos à espera de uma licença, enquanto um morto resolve para sempre a questão do atendimento. ↓

Daqui talvez venha o divertimento que me causa a ânsia com que os vivos tratam o tempo como propriedade privada, repartindo-o em contratos, agendas de execução, calendários eleitorais, prazos judiciais, mapas de trabalhos e inaugurações, como se Saturno, depois de devorar os próprios filhos, tivesse aceitado um lugar de assessor numa câmara municipal.

Cá por baixo, nessa medida, a relação com a tesouraria beneficia de alterações apreciáveis. Por aqui não circulam euros nem dólares nem libras, e até aquele óbolo que os gregos colocavam junto dos defuntos para pagar a Caronte perdeu utilidade com o abandono das boas tradições funerárias. Caronte, aliás, merece uma nota financeira, porque talvez tenha inaugurado a concessão privada de um serviço público essencial: detinha o monopólio da travessia, não admitia passageiros sem título válido, cobrava por percurso e não consta que alguma autoridade administrativa tenha aberto concurso para explorar a linha entre este mundo e o Hades. [...]

CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS, aqui 

Moedas, arruinado entre ruínas

Brás Cubas|22/09/2026

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