A Medida do Instante
O tempo não caminha: escorre como areia
entre os dedos fechados de um deus distraidamente antigo.
Deixa um rasto de cinza nos relógios de sol
e uma vaga promessa que a tarde desfaz.
Medimos a vida em anos, horas, estalos de ferro,
na geometria fria dos ponteiros que se cruzam.
Mas o tempo verdadeiro - esse habita outro lado:
na curva súbita de um sorriso guardado na memória,
no eco de uma voz que o silêncio já não alcança,
no relâmpago de um instante que quis ser eterno.
Somos feitos desta matéria frágil e breve,
um sopro de vento que passa pela folha da árvore.
E, contudo, no centro do peito, onde o relógio se cala,
sabemos que o tempo não nos consome por completo:
ele apenas nos atravessa, deixando-nos a luz.
Vítor Rodrigues
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