A Jorge Luís Borges
A biblioteca das horas
Certa noite encontrei, entre livros esquecidos,
uma porta que não deveria estar ali.
Não tinha fechadura, apenas uma sombra
com a forma exacta da minha mão.
Abri-a.
Do outro lado havia uma biblioteca
onde cada livro contava a mesma vida,
mas mudava o nome do homem
que a tinha vivido.
Num deles eu era velho.
Noutro, nunca tinha nascido.
Noutro ainda, caminhava por uma cidade
que desaparecera antes de os seus mapas existirem.
Continuei a ler.
As páginas falavam de um espelho
que reflectia não o rosto,
mas todas as possibilidades
que o rosto abandonara.
Então compreendi, talvez demasiado tarde,
que o labirinto não tinha paredes:
era feito de escolhas,
de memórias que se corrigem,
de futuros que imaginamos ter perdido.
Fechei o último livro.
A biblioteca permaneceu em silêncio,
como se já soubesse o que eu faria.
Quando voltei à rua,
a madrugada parecia exactamente a mesma.
Mas levei comigo uma dúvida antiga:
se somos feitos de tempo,
quem somos nós
quando o tempo se lembra de nós?
Vítor Rodrigues
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