Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

A apresentar mensagens correspondentes à consulta núcleo de gastronomia ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Longa vida ao Ephemera!

O Jornal de Letras, Artes e Ideias nº 1391, de 24 de Janeiro, inclui um extenso trabalho sobre a figura de José Pacheco Pereira, recentemente distinguido com o Prémio Vasco Graça Moura, Cidadania Cultural, e fundador do Arquivo Ephemera.


Além das seis páginas no interior, o tema é a manchete deste número do JL. Estação Cronográfica é voluntária do Ephemera desde há cinco anos e responsável pelos Núcleos do Tempo e da Gastronomia do maior arquivo privado do país.

Para esta edição do JL, demos o seguinte depoimento:

Olhar o mundo com outros olhos

Há uma pergunta recorrente que nos fazem quando sabem o que fazemos – “interessa-vos…”, e a nossa resposta é sempre, sem deixar terminar a frase – “interessa-nos tudo”. O diálogo prossegue invariavelmente: “Mas, tudo!?”. Sim, tudo.

É difícil explicar o que é, na prática, o Ephemera. É preciso visitar as casas da Marmeleira, onde tudo começou, e ou os dois armazéns do Barreiro e o de Santa Iria para ver do que estamos a falar, para se compreender o âmbito da actividade do arquivo.

Costumamos dar o exemplo dos panfletos dos supermercados. “Mas isso interessa para alguma coisa?”. Claro que sim. No Núcleo de Gastronomia temos centenas desses panfletos, desde finais da década de 1970. São óptimas fontes para se saber os preços desde há meio século, os hábitos de consumo da altura, as novidades em produtos alimentares e outros que foram desaparecendo, as técnicas de marketing…

Numa exposição que realizámos em 2020 na Junta de Freguesia da cidade de Viseu, apresentámos discos, livros de gastronomia ou embalagens de doces e salgados típicos da região (outro artigo que o Ephemera guarda, testemunho de pequenas produções locais, com embalagens e logótipos muitos deles desenhados há 100 anos ou mais).

Mas o que terá tido maior êxito foi a mostra, sob o tampo de vidro de uma enorme mesa, de cerca de 200 cartões de restaurantes de Viseu e arredores. “Olha, o meu como de água foi aqui”, “Será que ainda existe?”, “Já lá não vou há uns anos, tinha um belo cabrito no forno…”, “nunca fui a este, já me disseram que é bom, tenho de experimentar”.

O Ephemera é isto – a preservação da memória analógica, em papel, do que cada vez mais está a passar ao mundo do digital. São já poucos os restaurantes que fornecem cartão de visita, está tudo na Internet. Até os menus se vão desmaterializando, com as soluções QR Code.

No Núcleo de Gastronomia possuímos mais de 6 mil cartões, centenas de facturas do tempo em que elas ainda eram personalizadas no topo com letterings belíssimos, cerca de 500 menus gerais ou personalizados para ocasiões especiais, alguns deles do início do século XX, nacionais e estrangeiros.

Nas exposições que o Ephemera faz notamos que os objectos tridimensionais são muitas vezes mais apelativos que os simples documentos em papel. Eles ajudam a contextualizar com uma linguagem mais forte, mais directa e fácil de “ler” o tema que se esteja a expor. O objecto ganha cada vez mais importância no acervo do Arquivo.

No Núcleo de Gastronomia possuímos quase uma centena de garrafas de vinho com uma característica – têm rótulos cujo tema inclui aves. Não fazia ideia de que existissem tantos…

O Ephemera é também isso – numa exposição, consegue dar perspectivas únicas não apenas pela qualidade do material exposto, mas tambem pela quantidade específica, num portfólio tão variado como massivo, único no país.

O Arquivo possui uma biblioteca gastronómica com mais de 2 mil volumes, com obras desde o século XIX. Raro é o espólio ou acervo que nos chega que não traga livros de cozinha. Mas ao que damos mais valor, como nos restantes núcleos, é ao item único. Neste caso, às receitas de família, manuscritas, raras vezes assinadas, mas algumas delas com a garantia de terem passado por 3 ou 4 gerações. Planeamos editar em livro alguns desses conjuntos.

A língua portuguesa, sintomaticamente, tem apenas uma palavra para o tempo cronológico e para o tempo meteorológico. O inglês tem “time” e “weather”, o alemão “zeit” e “wetter”.

Quando comecei o meu voluntariado no Ephemera, há cinco anos, fui convidado a coordenar o Núcleo do Tempo, dada a minha carreira, paralela ao jornalismo, de investigação nessa área. Quando me apresento como investigador e voluntário do Ephemera na área do tempo, perguntam-me se amanhã vai chover…

No Núcleo do Tempo do Ephemera há obras sobre o tempo cronológico, calendários, agendas, almanaques. Algum desse material, só através do meu voluntariado tomei contacto com ele, o que tem ajudado nas minhas investigações.

Como voluntário e responsável pelos núcleos de Gastronomia e Tempo, quase sempre consigo ter limpas, ao fim do dia, as mesas onde trabalho, no Barreiro ou em Santa Iria, arrumando o material que vai chegando. Para, na semana seguinte, encontrar de novo as mesas cheias. No Ephemera, não podemos ter angústias de Sísifo…

Uma das coisas que deixa triste um voluntário do Ephemera é, quando explicamos o que fazemos nas várias áreas (há outros núcleos, como Acervos, Fotografia, Cartofilia, Cinema, Desporto, Turismo, História, etc.) as pessoas, invariavelmente, dizem: “Se soubesse, olhe, ainda há pouco tempo deitei fora…”. Ficamos tristes, mas não frustrados, que ainda há um mundo infinito de potenciais acervos e espólios a resgatar.

O trabalho, no arquivo, é frequentemente muito físico – recolher material na casa de quem os doou, carregar esse material para zonas específicas dos armazéns. O ambiente é de grande azáfama, com os voluntários, especialistas nas suas áreas, a trocarem impressões sobre o que vai chegando, sobre o que vai para onde.

Poderia dizer que as minhas terças (Barreiro) e quintas (Santa Iria) são de prazer, descontracção e camaradagem, mas também de aprendizagem e desafio à criatividade. O Ephemera é um imenso espaço de liberdade, sob a batuta do José Pacheco Pereira.

Poderia dizer isto e acabar assim o meu testemunho. Mas não é apenas isso. O trabalho no Ephemera fez-me encarar o mundo de outro modo – no meu dia-a-dia, faço acção directa na recolha de papeis, cartazes e outra parafernália para a qual não ligaria antes (com algum nervosismo da minha mulher, confesso). Olho para as paredes, cá e lá fora, à procura de pichagens para fotografar (outro acervo único do Ephemera e dos seus voluntários espalhados pelo mundo).

Hoje, procuro encarar o mundo com olhos de daqui a 50 anos e interrogar-me: isto vai ou não ser valioso para os de 2074? Quase tudo será, arrisco. O que é analógico, claro. Que o que é já hoje digitalizado terá há muito desaparecido, perdido para sempre.

Longa vida ao Ephemera!

Fernando Correia de Oliveira, jornalista, investigador na área do Tempo, mais gourmand que gourmet, voluntário do Ephemera


Nas imagens que se seguem, aspectos do armazém que o Ephemera usa em Santa Iria, nomeadamente o espaço dedicado aos Núcleo de Gastronomia e do Tempo.







segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Dias do Ephemera em Viseu - exposições até 4 de Dezembro

Tem até sexta-feira, 4 de Dezembro, para ver exposições organizadas pelo Ephemera em Viseu. Uma, "Coisas do Ephemera", está patente na Junta de Viseu. A outra, do fotógrafo Rui Serrano, "Ephemera Eterna", está no Instituto Politécnico daquela cidade.





Os dias do Ephemera em Viseu começaram com a assinatura de um protocolo de cooperação entre o Arquivo Ephemera e o Instituto Politécnico local, que está a comemorar 40 anos. Foi ainda fundado o Núcleo de Voluntários de Viseu, com pontos de recolha de material para o arquivo no Politécnico e num café da cidade, o Faces.



José Pacheco Pereira, mentor do projeto Ephemera, referiu, na cerimónia que serviu para selar o protocolo entre IPV e Ephemera, não ter um "único momento de aborrecimento", quando recebem os mais variados materiais, que vão desde simples papéis, a cartazes políticos, livros, fotografias panfletos publicitários e até pacotes de rebuçados. A ideia presente é de que tudo importa, porque, dizem, tudo é história. Para isso contam com o trabalho de voluntários um pouco por todo o país. "Em Viseu são pelo menos vinte", assegurou o historiador e investigador ao Jornal do Centro.

 Viseu é a partir de agora um ponto recolha. "Muitas vezes as pessoas falam de outros objetivos como a capacidade para inventariar, investigar e tratar os arquivos. Mas se os artigos não forem salvos, desaparecem. E sabemos que, todos os dias, em Portuga, milhares e milhares de documentos desaparecem. A nossa prioridade é salvar. E o arquivo Ephemera tem uma vantagem que é ter postos de recolha em todo o país. Isso dá-nos uma rede fina a que o acrescento de Viseu é relevante. Viseu é uma cidade antiga, com um importante papel social, cultural e económico. Necessariamente tem muitos fundos que nos podem interessar", assinalou Pacheco Pereira.

 O Ephemera, diz o mentor do projeto, não quer ser concorrência a outros arquivos. "Nós temos características próprias, temos vantagens que outros não têm, mas não somos competitivos, sejamos bem claros. O que dizemos é que, entre ter uma correspondência familiar, documentos de uma empresa, fotografias que são relevantes, do ponto de vista da memória e da história, em casa ou darem-nos, eles estão muito mais seguros dentro do Ephemera", defendeu Pacheco Pereira. O historiador refere-se ao Ephemera como um "arquivo de natureza diferente, completamente independente e autónomo que não tem um tostão que o comprometa".Além destas características, diz Pacheco Pereira, este é um arquivo "que recolhe coisas que ninguém recolhe". "As pessoas perguntam-nos: isso interessa? Respondemos sempre que sim. Depois vemos. A nossa experiência diz-nos que as coisas que as pessoas não dão valor, a uma dada altura são muito relevantes". E deu um exemplo. "Uma altura tivemos uma oferta de panfletos de publicidade de supermercados com dez ou vinte anos. E um nosso amigo que trabalha na história do design disse-nos que aquilo era relevante para a história económica, com os preços, para o estudo da iconografia e é relevante para percebermos como evoluiu o comércio de massas", descreveu. 

Na cerimónia de apresentação do núcleo de Viseu da Ephemera, o presidente do IPV, João Monney Paiva referiu-se à importância de um arquivo histórico estar ligado a uma instituição de ensino superior. O presidente do IPV aproveitou para lamentar, ainda, que em Portugal ainda não se arquivem mais documentos. João Monney Paiva referiu que, no seu entender, há, no nosso país, "pouco apreço à memória". A inauguração do Núcleo de Viseu da Ephemera integra-se no Programa de Comemorações dos 40 Anos do Politécnico de Viseu.




Na preparação da exposição "Coisas do Ephemera"







Um gabinete de curiosidades – Viseu e o mundo – Coisas do Ephemera

Coincidindo com a inauguração, sexta-feira, 6 de Novembro, do núcleo do Arquivo Ephemera em Viseu, decorre na Junta de Freguesia da cidade uma exposição temática, intitulada "COISAS DO EPHEMERA".

Comissariada por José Pacheco Pereira, Luís Pinheiro de Almeida e Fernando Correia de Oliveira, a mostra centra-se em 3 núcleos: música, gastronomia e material avulso demonstrativo do “universo Ephemera”.

Na música, destaque para o primeiro disco gravado pelo Rancho Regional de Manhouce, com Isabel Silvestre (1961). Mas também um dos EP’s do grupo pop-rock Tubarões (1968). Ou um CD dos Fingertips (2000).

Na gastronomia, cartões e ementas de restaurantes da região, alguns já desaparecidos. Livros sobre a cozinha típica do distrito de Viseu e ainda embalagens evocativas de doces locais.

Além disso, o Ephemera trouxe a Viseu algumas outras peças variadas do seu acervo, demonstrativas do vasto universo que desde há mais de uma década abarca, recolhe e trata. Um autêntico Gabinete de Curiosidades, para preservação da Memória.

A exposição, de entrada livre e respeitando as regras sanitárias impostas pela actual situação pandémica, decorre no Solar dos Peixotos até 4 de Dezembro.







Inauguração da exposição "Coisas do Ephemera"



Pacheco Pereira: "Agradeço a Diamantino Santos, Presidenta da Junta de Freguesia de Viseu, toda a disponibilidade e apoio que teve para a realização da exposição no Solar dos Peixotos, sede da Junta, como pela excepcional hospitalidade que teve com os vários elementos  do Ephemera que se deslocaram de Lisboa e do Barreiroo a Viseu."


O café/bar Faces, no centro de Viseu, é ponto de recolha de material doado ao Ephemera






Numa das noites do Ephemera em Viseu foi lançado, no Museu Nacional Grão Vasco, uma edição do livro Leal Conselheiro, de Dom Duarte, com o texto original e em português contemporâneo, num trabalho do historiador João Manuel Ferreira da Fonseca.
 


Noutra das noites, foi apresentado na Pousada de Viseu o livro Caro Jó, de Luís Pinheiro de Almeida, voluntário do Ephemera nos núcleos de Viseu e Barreiro.


Os Dias do Ephemera em Viseu foram organizados por Eduardo Pinto, coordenador do Núcleo de voluntários do arquivo na cidade, e por Rita Maltês, da Direcção do Ephemera.


Convívio de voluntários do Ephemera, em Oliveira de Frades. Sentimento de dever cumprido...


Confraternização no vizinho Passal, da família Pinheiro de Almeida