A Biblioteca das Constelações
Dizem
que há livros esquecidos
sobre a Terra.
Não é verdade.
Quando a última mão
fecha um poema,
uma estrela
abre-o no céu.
As constelações
não servem apenas
para orientar navegadores.
São estantes luminosas
onde repousam
os versos
que os homens deixaram de ler.
A Via Láctea
é uma biblioteca infinita.
Cada galáxia
guarda a respiração
de um poeta.
Cada cometa
transporta um manuscrito
à procura
de um novo leitor.
A Lua
lê em voz baixa
os poemas órfãos.
Saturno
protege-os
com os seus anéis,
como um velho bibliotecário
que nunca permite
que uma página
se perca.
As nebulosas
copiam versos
com tinta de estrelas.
Os buracos negros
não devoram a poesia.
Escondem-na
até que a humanidade
volte a merecê-la.
E o Tempo,
esse antigo relojoeiro do cosmos,
vira lentamente
as páginas
do Universo.
Foi então
que compreendi:
nenhum poeta
é esquecido.
Apenas muda
de planeta.
Apenas muda
de leitor.
Porque enquanto existir
uma estrela acesa,
haverá um verso
a iluminar
a eternidade.
✓Nota de Autor
Este poema nasce da convicção de que a poesia não desaparece
com o esquecimento humano. O Universo é apresentado como a grande biblioteca da
memória, onde cada poeta continua vivo através da luz, do tempo e das estrelas.
Esquecer um poeta é apenas deixá-lo viajar para outra dimensão, onde a palavra
permanece eterna.
— Jorge Moreira
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