domingo, 7 de junho de 2020
Meditações - tempo e manufactura
Artisans understand the preciousness of time. Their detailed and precise way of working requires time and the efficient use of it. There are no shortcuts to creating pieces of excellence. Often the making of a masterpiece is the accumulation of a lifetime of experience.
We can use this time to redefine our raison d’être. To learn and cultivate a new skill, explore in greater depth a compelling subject, to look curiously for ways to bring creativity into all aspects of our lives. As time stands still, it brings a lot into focus.
Franco Cologni
We can use this time to redefine our raison d’être. To learn and cultivate a new skill, explore in greater depth a compelling subject, to look curiously for ways to bring creativity into all aspects of our lives. As time stands still, it brings a lot into focus.
Franco Cologni
sábado, 6 de junho de 2020
Todos têm de pagar o relógio de Castelo de Vide, 1498
24/9/1498
É apresentado ao Juiz ordinário desta vila, Pedro Gonçalves, e publicada à sua porta na Rua de Santa Maria, a carta de sentença de el-rei D. Manuel I para que todos os moradores de Castelo de Vide paguem para o relógio. Visto aqui.
(arquivo Fernando Correia de Oliveira)
É apresentado ao Juiz ordinário desta vila, Pedro Gonçalves, e publicada à sua porta na Rua de Santa Maria, a carta de sentença de el-rei D. Manuel I para que todos os moradores de Castelo de Vide paguem para o relógio. Visto aqui.
(arquivo Fernando Correia de Oliveira)
Meditações - ... e a moça pediu-lhe o relógio...
A FILHA DO LAVRADOR
Era uma vez um principe; todas as vezes que vinha lavar-se á varanda do seu quarto, via defronte a filha de um lavrador, que era muito linda. Ora n’aquelle tempo a verdadeira nobreza era a dos lavradores, e por isso o principe fallava para ella, e dizia:
— Deus vos salve, filha de lavrador.
E ella respondia:
— E a vós, principe e real senhor.
Elle conversava para ella, e perguntou-lhe se não queria encontrar-se na grande feira do anno, que se fazia? Ella disse que não, mas pediu licença ao pae, foi adiante e metteu-se no quarto da estalagem onde havia de pernoitar o principe. Quando disseram ao principe que estava ali uma mulher, elle respondeu:
— É o mesmo.
Entrou para o quarto; viu uma moça muito linda, mas não a conheceu. Apagou a luz e ficaram toda a noite juntos. Pela manhã muito cedo ella arranjou-se para partir, e o principe perguntou-lhe o que é que ella queria em lembrança d’aquella noite; ella pediu-lhe a espada. O principe não teve remedio senão dar-lh’a. Passados dias, o principe fez os mesmos cumprimentos:
— Deus vos salve, filha de lavrador.
— E a vós tambem, real senhor.
— Então a menina não vae amanhã á romaria, para se encontrar lá comigo?
Ella disse que não, mas foi adiante e com tal geito que ficou no logar onde o principe tinha de dormir aquella noite. Ora já se tinha passado muito tempo, e a filha do lavrador tinha tido ás escondidas um menino, que estava a criar e era o retrato do principe. D’esta vez as cousas passaram-se como da outra, e quando foi pela manhã cedo, o principe disse-lhe que pedisse o que queria, e ella disse que só queria o cinto que elle usava.
Já se sabe, veiu a ter outro menino. Foi ainda uma terceira vez convidada para um grande arraial, e ella lá se encontrou com o principe sem elle saber que era a filha do lavrador. D’esta vez tambem lhe perguntou o que é que ella queria, e a moça pediu-lhe o relogio. Passado o tempo tambem teve uma menina, que pôz a criar com os outros dois filhos do principe.
Um dia disse elle:
— Filha de lavrador, vou-me casar. Não queres vir á minha boda?
Elia disse que não; mas no dia do casamento entrou pelo palacio dentro com os trez meninos, um com a espada, outro com o cinto, e a menina com o relogio. Deixaram-na entrar, e ella foi para a meza. O principe conheceu aquellas trez prendas que dera, sem saber a quem, e viu que os meninos eram o seu retrato. No fim do jantar disse que cada um havia de contar a sua historia, e que elle é que começaria. Disse então:
— Um dia um homem perdeu uma chave de ouro, e arranjou uma de prata para servir-se; mas aconteceu achar outra vez a chave que tinha perdido, e agora quero que os senhores me digam de qual d’ellas se deve servir d’aqui em diante, da de ouro ou da de prata?
Disseram todos:
— Da chave de ouro! Da primeira.
O principe levantou-se, e foi buscar a filha do lavrador, que estava a um canto da meza, e disse:
— A esta é que tomo por mulher; e estes infantes são os meus filhos, que eu tinha perdido.
A festa continuou muito alegre, e d’ali se foram a receber com grandes alegrias.
Teófilo Braga, Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
Era uma vez um principe; todas as vezes que vinha lavar-se á varanda do seu quarto, via defronte a filha de um lavrador, que era muito linda. Ora n’aquelle tempo a verdadeira nobreza era a dos lavradores, e por isso o principe fallava para ella, e dizia:
— Deus vos salve, filha de lavrador.
E ella respondia:
— E a vós, principe e real senhor.
Elle conversava para ella, e perguntou-lhe se não queria encontrar-se na grande feira do anno, que se fazia? Ella disse que não, mas pediu licença ao pae, foi adiante e metteu-se no quarto da estalagem onde havia de pernoitar o principe. Quando disseram ao principe que estava ali uma mulher, elle respondeu:
— É o mesmo.
Entrou para o quarto; viu uma moça muito linda, mas não a conheceu. Apagou a luz e ficaram toda a noite juntos. Pela manhã muito cedo ella arranjou-se para partir, e o principe perguntou-lhe o que é que ella queria em lembrança d’aquella noite; ella pediu-lhe a espada. O principe não teve remedio senão dar-lh’a. Passados dias, o principe fez os mesmos cumprimentos:
— Deus vos salve, filha de lavrador.
— E a vós tambem, real senhor.
— Então a menina não vae amanhã á romaria, para se encontrar lá comigo?
Ella disse que não, mas foi adiante e com tal geito que ficou no logar onde o principe tinha de dormir aquella noite. Ora já se tinha passado muito tempo, e a filha do lavrador tinha tido ás escondidas um menino, que estava a criar e era o retrato do principe. D’esta vez as cousas passaram-se como da outra, e quando foi pela manhã cedo, o principe disse-lhe que pedisse o que queria, e ella disse que só queria o cinto que elle usava.
Já se sabe, veiu a ter outro menino. Foi ainda uma terceira vez convidada para um grande arraial, e ella lá se encontrou com o principe sem elle saber que era a filha do lavrador. D’esta vez tambem lhe perguntou o que é que ella queria, e a moça pediu-lhe o relogio. Passado o tempo tambem teve uma menina, que pôz a criar com os outros dois filhos do principe.
Um dia disse elle:
— Filha de lavrador, vou-me casar. Não queres vir á minha boda?
Elia disse que não; mas no dia do casamento entrou pelo palacio dentro com os trez meninos, um com a espada, outro com o cinto, e a menina com o relogio. Deixaram-na entrar, e ella foi para a meza. O principe conheceu aquellas trez prendas que dera, sem saber a quem, e viu que os meninos eram o seu retrato. No fim do jantar disse que cada um havia de contar a sua historia, e que elle é que começaria. Disse então:
— Um dia um homem perdeu uma chave de ouro, e arranjou uma de prata para servir-se; mas aconteceu achar outra vez a chave que tinha perdido, e agora quero que os senhores me digam de qual d’ellas se deve servir d’aqui em diante, da de ouro ou da de prata?
Disseram todos:
— Da chave de ouro! Da primeira.
O principe levantou-se, e foi buscar a filha do lavrador, que estava a um canto da meza, e disse:
— A esta é que tomo por mulher; e estes infantes são os meus filhos, que eu tinha perdido.
A festa continuou muito alegre, e d’ali se foram a receber com grandes alegrias.
Teófilo Braga, Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
sexta-feira, 5 de junho de 2020
Os relógios Vostok Europe no Relógios & Canetas online
Roubo de relógio na Praça de São Marcos, em Veneza
Variedades
Veneza foi antigamente famigerada pela sua.adm iravel Policia. Succedeo porém hum d i a , que estando paoseando hum Fidalgo Frances, no largo de .S. Marcos , foi alli roubado subtilmente de hum rologio de valor. Immediatamente que percebeo a sua falta , dirigio-se á Secretaria da P o lic ia , aonde expressando com pouco resguardo a sua indignação deste acontecim ento, perpetrado de d ia , em huma Praça P u b lic a , e enr paiz de huma' tão gabada P olicia: responde-lhe o Commissario a quem este se tinha queixado : « T o m ai cuidado como fallnes da Policia de Véneza , pois que a vossa qualidade de estrangeiro não vos protegerá, se vos entregardes a similhanles invectivas. Depositai aqui quatro Zechins, e dirigi-vos, áinanhã á mesma h o ra , ao lugar aonde perdestes o vosso relo g io , com a segurança que elle vos será restitu íd o .» O F rances foi p o n tu a l, e esperou tres horas sem noticia do seu relogio. Ainda mais arrebatado do que d an tes, tornou a procurar o Commissario de P o lic ia , e im precando violentamente sobre a maneira com que tinha sido vergonhosamente roubado , e depois enganado , havendo não somente perdido o seu relogio, e os seus Zechins,mas também o seu tempo que lhe era igualmente precioso : « O lh ai para o vosso bolso ,« respondeo-lhe o C om m issario, e alli achou com grande admiração o seu relogio! Dizendo-lhe o Com m issario, « vósainda tendes mais algum a cousa que aprender da Policia Feneziana, p ara o que, este Ofiicial vos acom panhará.» Tendo descido a hum subterrâneo, o seu guia o conduzio por vários caminhos medonhos e de abobeda, augmentando-se-lhe a cada passo que dava o susto do que estava para lhe suc- ceder, até que chegou a hum q u a rto , escassamente alumiado pela luz de huma can d èa, aonde n ’hum recesso a cortina do qual foi co rrid a, appareceo aos seus olhos hor- rorisados, suspendido por huma co rd a, o ladrão que o ro u - bára. ( Courier.)
Gazeta de Lisboa, n.º 221, de 18/09/1824 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)
Veneza foi antigamente famigerada pela sua.adm iravel Policia. Succedeo porém hum d i a , que estando paoseando hum Fidalgo Frances, no largo de .S. Marcos , foi alli roubado subtilmente de hum rologio de valor. Immediatamente que percebeo a sua falta , dirigio-se á Secretaria da P o lic ia , aonde expressando com pouco resguardo a sua indignação deste acontecim ento, perpetrado de d ia , em huma Praça P u b lic a , e enr paiz de huma' tão gabada P olicia: responde-lhe o Commissario a quem este se tinha queixado : « T o m ai cuidado como fallnes da Policia de Véneza , pois que a vossa qualidade de estrangeiro não vos protegerá, se vos entregardes a similhanles invectivas. Depositai aqui quatro Zechins, e dirigi-vos, áinanhã á mesma h o ra , ao lugar aonde perdestes o vosso relo g io , com a segurança que elle vos será restitu íd o .» O F rances foi p o n tu a l, e esperou tres horas sem noticia do seu relogio. Ainda mais arrebatado do que d an tes, tornou a procurar o Commissario de P o lic ia , e im precando violentamente sobre a maneira com que tinha sido vergonhosamente roubado , e depois enganado , havendo não somente perdido o seu relogio, e os seus Zechins,mas também o seu tempo que lhe era igualmente precioso : « O lh ai para o vosso bolso ,« respondeo-lhe o C om m issario, e alli achou com grande admiração o seu relogio! Dizendo-lhe o Com m issario, « vósainda tendes mais algum a cousa que aprender da Policia Feneziana, p ara o que, este Ofiicial vos acom panhará.» Tendo descido a hum subterrâneo, o seu guia o conduzio por vários caminhos medonhos e de abobeda, augmentando-se-lhe a cada passo que dava o susto do que estava para lhe suc- ceder, até que chegou a hum q u a rto , escassamente alumiado pela luz de huma can d èa, aonde n ’hum recesso a cortina do qual foi co rrid a, appareceo aos seus olhos hor- rorisados, suspendido por huma co rd a, o ladrão que o ro u - bára. ( Courier.)
Gazeta de Lisboa, n.º 221, de 18/09/1824 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)
Meditações - um relógio inglês
TEMPESTADE DOMESTICA
Às quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone a casa, com aquelle ar de satisfação ingleza, que já lhe conhecemos, e em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas sérias e principiou a gosar as doçuras do não fazer nada. Parte da manhã passára-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.
Como n'estas intenções do discreto inglez conseguira entrar a despenseira, não sabemos nós; mas é certo que, ou por força de logica ou por occulta inspiração, havia ella acertado, ao informar a snr.ª Joséfinha da Agua-benta. Comquanto o não ter sido acompanhado pelo filho n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez, consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar á noite, na segunda visita que tencionava fazer.
Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira Butterfly, impaciente com a morosidade do dono, que tão a miudo a obrigava a retroceder.
Trauteando por entre dentes o predilecto: cheer, boys, cheer, caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se impressionado por algum objecto que vira n'ella.
Por muito tempo durou este exame.
Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar. E não o conseguindo de fóra do mostrador, entrou na loja.
—Faz favor de deixar-me ver um relogio, que está ahi exposto?—disse elle para o ourives.
O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe promptamente ao pedido.
Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa attenção.
—É um bello relogio!—dizia o ourives—Valioso por todos os respeitos.
Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabeça, e prosseguiu calado no exame.
—É inglês, não é verdade?—perguntou d'ahi a instantes.
—É, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.
—E então... mandou-o vir directamente da Inglaterra?
—Não, senhor...
O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que estava pensando, ao olhal-o assim, não sei; mas uma sombra de desconfiança parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes continuou:
—Para fallar com franqueza a v. s.ª, ainda não há muitas horas que o comprei.
—Ah! E... póde saber-se a quem?...
—Comprei-o a um rapaz, que eu conheço de vista, mas cujo nome ignoro... Supponho que é tambem inglez... Vinha em carro com uma senhora...
Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:
—Com uma senhora?...
—Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou á espera d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fóra da terra, e propôz-me a compra do relogio e da corrente... Entramos em ajuste...
—Bem, bem; pouco me importa isso—disse Mr. Richard, com ligeiras e convulsivas contracções de labios, que eram n'elle indicio de cólera reprimida.—Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?
O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que Mr. Richard não lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda vez, o relogio e a corrente, com que havia já presenteado o filho.
Porque não havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora presentes.
Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas lá por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de irritação, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.
O criado, que estava á porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o mesmo que recebera pela manhã a visita, que tanto indignára a snr.ª Antonia.
—A que horas saíu hoje o snr. Carlos?—perguntou Mr. Richard, em tom de voz sêcco e aspero.
—Ás... ás dez horas—respondeu, já sobresaltado, o criado.
—Só?
O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.
—Só?—repetiu o inglez, com mais força.
—Não... não senhor...—respondeu o criado.
—Então?
—Com... com...
—Com quem?—perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.
—Com uma senhora, que... que veio procural-o... mas... era já de idade—acrescentou o homem, como correctivo.
Porém Mr. Richard já lhe havia voltado as costas, entrando para casa. Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma só ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e sem lhe excitar desejos de decifral-a.
Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, ás perguntas de Jenny, e quiz saber se Carlos já tinha vindo para casa.
Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar, desejava ir ao quarto d'elle.
Era esta resolução tão extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou fixamente para o pae.
Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer após si uma d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.
Pretendeu conjural-a.
—Pois vamos—disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.
—Não, não—respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.—Eu pretendo... preciso de fallar-lhe a sós.
Jenny soltou-lhe o braço, a que já se apoiára desanimada com a frieza, mal occulta, d'aquellas palavras.
Mr. Richard tentou abrandar a impressão do primeiro movimento, dizendo:
—É de negocios que se trata... Até já!... No entretanto, pódes mandar servir o jantar.
Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vão adivinhar a razão d'aquella entrevista.
Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.
Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canapé, pensava... em Cecilia provavelmente.
Ao ver o pae, que tão raro o procurava no quarto, levantou-se com alvoroço e mal occulto espanto.
Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o dominio de violenta commoção:
—Ahi tem. Quando vender as... as dadivas das... das... pessoas que... que o estimam... seja para... fins que... que o não envergonhem, nem... deponham tristemente contra... o seu caracter...
Á vista do relogio foi tal a commoção que se apoderou de Carlos, que nada pôde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguições do pae era merecida.
Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita confirmação das suas suspeitas.
Cresceu n'elle com isto a irritação.
—Seja extravagante muito embora... mas... mas... nunca seja... nunca seja vil...
Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a cabeça.
—Senhor!—exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a indignação que sentira.
—Vil, sim—repetiu Mr. Richard com mais força, como se excitado por aquella apparencia de reacção.—Quero que não faça d'esta casa theatro das suas... aventuras... escandalosas.
—Mas...
—Lembre-se de que é aqui—proseguiu, sem o attender, o pae—aqui, debaixo d'estes tectos, que não tem a delicadeza de respeitar, que é aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae... que foi aqui que sua mãe morreu... que é aqui que vive sua irmã.
—Creio que ainda não dei motivos para...
—Quem o procurou esta manhã? Com quem saiu de carruagem? Com que fim vendeu esse relogio?
Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relação áquellas perguntas; nem era de animo tão docil, que ouvisse, sem se irritar tambem, estas severas recriminações, feitas antes de julgamento minucioso.
O seu orgulho revoltou-se.
—Não posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que...
Mr. Richard atalhou-o:
—Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que não tenho feito caso. Mas quero, mas exijo... E inda tenho força bastante para o conseguir, póde crêl-o... Quero e exijo que se respeite o meu nome e... e a minha casa. Fique entendendo.
—Mas eu já lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos d'esta manhã não podiam deshonrar nem o seu nome, que é o meu tambem, nem esta casa, que eu respeito como...
—A sua palavra de honra! Não basta. Bem vê que tenho motivos para duvidar d'ella... e porisso...
—N'esse caso, como não tenho outra garantia a offerecer, calo-me. Depois de uma resposta como essa, quando é de um pae que a recebemos, não nos resta outro partido, além do silencio—disse Carlos, com decidida resolução de não continuar este dialogo, receiando com razão que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa, que altercava com elle.
Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse, ainda com severidade, mas em tom menos elevado:
—Parece-me que concordará commigo em que me assiste o direito de pugnar pelo decôro da minha casa?
Carlos não respondeu.
—É um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva benevolencia é também immoralidade—disse ainda o pae.
O mesmo silencio da parte de Carlos.
—Espero que não tenha deixado adormecer em si tão profundamente os sentimentos de honra, que não comprehenda já este dever da minha parte.
Nenhuma resposta ainda.
Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vão esperaria d'elle defeza ou desculpa.
Saiu portanto do quarto.
Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao chão, com movimento de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China, que se fez pedaços; em seguida pôz-se a percorrer o quarto a passos largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!
A campainha soou emfim, chamando para o jantar.
Carlos tentou dar á physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal succedido. Lá estava o olhar de Jenny a espial-o, e não era ella a que se illudiria com estes fingimentos pueris.
Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.
O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o solemne silencio da sala. Até os criados andavam em bicos de pés, dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli dentro.
Jenny ainda tentava sorrir ás vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o sorriso nos labios, á vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae e do irmão. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadversão entre elles! Como tão de repente se condensára esta tempestade, que ella nem tempo tivera para tentar desvanecer?
O jantar terminou como começára, silencioso e triste. Carlos foi o primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard não teria d'esta vez companhia para o seu tão apreciado pospasto.
O inglez começava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudança de pensar. Estava-lhe já parecendo que havia sido muito severo para com o delicto do filho.
Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretação que dera ao facto, e ainda quando não fosse, era a final uma leviandade de rapaz, que talvez não merecesse tão asperas censuras.
O tolerante inglez só esperava por o primeiro ensejo para naturalmente, airosamente, realisar a reconciliação com o filho. Onde ia já o seu resentimento?
Ficou pois devéras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para saír, levando comsigo as esperanças do almejado ensejo.
Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o irmão.
Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, não deu pelo gesto do pae.
Já Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as primeiras palavras que, desde que se sentára dissera:
—Chegou hontem á noite... Mr. Smithfield, de Londres...
Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar para a porta.
—Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield—disse ainda Mr. Richard.
Carlos tornou a parar, e vendo que o pae não acrescentava mais nada, deu ainda alguns passos.
—É um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes como... pessoaes—disse Mr. Richard.
Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia já proximo da porta.
E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mão para o reposteiro.
—Estivemos lá, esta manhã, eu e Jenny.
Carlos não disse nada; esperou ainda.
Mr. Richard acrescentou:
—E ficamos de voltar esta noite... Elles partem ámanhã para o Minho e... Perguntaram por... por ti.
Mr. Richard realisára um grande esforço: pozera de parte o tom ceremoniatico com que até ahi tratára o filho.
Carlos, que já desviava o reposteiro, vendo que o pae não proseguia, curvou-se respeitosamente e saíu, como se não tivesse comprehendido o sentido d'aquellas insinuações.
Mr. Richard viu-o saír, e de novo se lhe carregaram as feições, que haviam já desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os dedos uma avelã, com que estivera brincando, tal foi a força, de que a contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.
Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a não sabia. Levantou-se e foi encostar-se ao hombro do pae.
—Que tem?—disse-lhe com voz affectuosa.
—Faço quanto posso para viver em paz, mas já vejo que não é possivel.
—Então por quê?
—Pois não viste?
E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.
—Carlos tem vinte annos—acrescentou, passeiando ainda.—Aos vinte annos, ha já deveres para todo o homem... E se elle se esquece de que os tem e de que os deve e ha de cumprir... eu que sou pae...
À entrada de um criado interrompeu-o.
Mr. Richard sentou-se, pôz-se a ler o Times e recaiu no silencio, de que nada mais o tirou. Seria o Times que o absorvia assim? O que é certo é que em toda a tarde não desviou os olhos da primeira columna do jornal.
Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a ler!
Jenny dirigiu-se ao quarto do irmão.
Júlio Dinis, Uma Família Ingleza
Às quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone a casa, com aquelle ar de satisfação ingleza, que já lhe conhecemos, e em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas sérias e principiou a gosar as doçuras do não fazer nada. Parte da manhã passára-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.
Como n'estas intenções do discreto inglez conseguira entrar a despenseira, não sabemos nós; mas é certo que, ou por força de logica ou por occulta inspiração, havia ella acertado, ao informar a snr.ª Joséfinha da Agua-benta. Comquanto o não ter sido acompanhado pelo filho n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez, consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar á noite, na segunda visita que tencionava fazer.
Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira Butterfly, impaciente com a morosidade do dono, que tão a miudo a obrigava a retroceder.
Trauteando por entre dentes o predilecto: cheer, boys, cheer, caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se impressionado por algum objecto que vira n'ella.
Por muito tempo durou este exame.
Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar. E não o conseguindo de fóra do mostrador, entrou na loja.
—Faz favor de deixar-me ver um relogio, que está ahi exposto?—disse elle para o ourives.
O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe promptamente ao pedido.
Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa attenção.
—É um bello relogio!—dizia o ourives—Valioso por todos os respeitos.
Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabeça, e prosseguiu calado no exame.
—É inglês, não é verdade?—perguntou d'ahi a instantes.
—É, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.
—E então... mandou-o vir directamente da Inglaterra?
—Não, senhor...
O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que estava pensando, ao olhal-o assim, não sei; mas uma sombra de desconfiança parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes continuou:
—Para fallar com franqueza a v. s.ª, ainda não há muitas horas que o comprei.
—Ah! E... póde saber-se a quem?...
—Comprei-o a um rapaz, que eu conheço de vista, mas cujo nome ignoro... Supponho que é tambem inglez... Vinha em carro com uma senhora...
Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:
—Com uma senhora?...
—Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou á espera d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fóra da terra, e propôz-me a compra do relogio e da corrente... Entramos em ajuste...
—Bem, bem; pouco me importa isso—disse Mr. Richard, com ligeiras e convulsivas contracções de labios, que eram n'elle indicio de cólera reprimida.—Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?
O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que Mr. Richard não lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda vez, o relogio e a corrente, com que havia já presenteado o filho.
Porque não havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora presentes.
Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas lá por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de irritação, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.
O criado, que estava á porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o mesmo que recebera pela manhã a visita, que tanto indignára a snr.ª Antonia.
—A que horas saíu hoje o snr. Carlos?—perguntou Mr. Richard, em tom de voz sêcco e aspero.
—Ás... ás dez horas—respondeu, já sobresaltado, o criado.
—Só?
O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.
—Só?—repetiu o inglez, com mais força.
—Não... não senhor...—respondeu o criado.
—Então?
—Com... com...
—Com quem?—perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.
—Com uma senhora, que... que veio procural-o... mas... era já de idade—acrescentou o homem, como correctivo.
Porém Mr. Richard já lhe havia voltado as costas, entrando para casa. Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma só ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e sem lhe excitar desejos de decifral-a.
Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, ás perguntas de Jenny, e quiz saber se Carlos já tinha vindo para casa.
Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar, desejava ir ao quarto d'elle.
Era esta resolução tão extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou fixamente para o pae.
Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer após si uma d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.
Pretendeu conjural-a.
—Pois vamos—disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.
—Não, não—respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.—Eu pretendo... preciso de fallar-lhe a sós.
Jenny soltou-lhe o braço, a que já se apoiára desanimada com a frieza, mal occulta, d'aquellas palavras.
Mr. Richard tentou abrandar a impressão do primeiro movimento, dizendo:
—É de negocios que se trata... Até já!... No entretanto, pódes mandar servir o jantar.
Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vão adivinhar a razão d'aquella entrevista.
Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.
Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canapé, pensava... em Cecilia provavelmente.
Ao ver o pae, que tão raro o procurava no quarto, levantou-se com alvoroço e mal occulto espanto.
Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o dominio de violenta commoção:
—Ahi tem. Quando vender as... as dadivas das... das... pessoas que... que o estimam... seja para... fins que... que o não envergonhem, nem... deponham tristemente contra... o seu caracter...
Á vista do relogio foi tal a commoção que se apoderou de Carlos, que nada pôde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguições do pae era merecida.
Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita confirmação das suas suspeitas.
Cresceu n'elle com isto a irritação.
—Seja extravagante muito embora... mas... mas... nunca seja... nunca seja vil...
Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a cabeça.
—Senhor!—exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a indignação que sentira.
—Vil, sim—repetiu Mr. Richard com mais força, como se excitado por aquella apparencia de reacção.—Quero que não faça d'esta casa theatro das suas... aventuras... escandalosas.
—Mas...
—Lembre-se de que é aqui—proseguiu, sem o attender, o pae—aqui, debaixo d'estes tectos, que não tem a delicadeza de respeitar, que é aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae... que foi aqui que sua mãe morreu... que é aqui que vive sua irmã.
—Creio que ainda não dei motivos para...
—Quem o procurou esta manhã? Com quem saiu de carruagem? Com que fim vendeu esse relogio?
Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relação áquellas perguntas; nem era de animo tão docil, que ouvisse, sem se irritar tambem, estas severas recriminações, feitas antes de julgamento minucioso.
O seu orgulho revoltou-se.
—Não posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que...
Mr. Richard atalhou-o:
—Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que não tenho feito caso. Mas quero, mas exijo... E inda tenho força bastante para o conseguir, póde crêl-o... Quero e exijo que se respeite o meu nome e... e a minha casa. Fique entendendo.
—Mas eu já lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos d'esta manhã não podiam deshonrar nem o seu nome, que é o meu tambem, nem esta casa, que eu respeito como...
—A sua palavra de honra! Não basta. Bem vê que tenho motivos para duvidar d'ella... e porisso...
—N'esse caso, como não tenho outra garantia a offerecer, calo-me. Depois de uma resposta como essa, quando é de um pae que a recebemos, não nos resta outro partido, além do silencio—disse Carlos, com decidida resolução de não continuar este dialogo, receiando com razão que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa, que altercava com elle.
Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse, ainda com severidade, mas em tom menos elevado:
—Parece-me que concordará commigo em que me assiste o direito de pugnar pelo decôro da minha casa?
Carlos não respondeu.
—É um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva benevolencia é também immoralidade—disse ainda o pae.
O mesmo silencio da parte de Carlos.
—Espero que não tenha deixado adormecer em si tão profundamente os sentimentos de honra, que não comprehenda já este dever da minha parte.
Nenhuma resposta ainda.
Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vão esperaria d'elle defeza ou desculpa.
Saiu portanto do quarto.
Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao chão, com movimento de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China, que se fez pedaços; em seguida pôz-se a percorrer o quarto a passos largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!
A campainha soou emfim, chamando para o jantar.
Carlos tentou dar á physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal succedido. Lá estava o olhar de Jenny a espial-o, e não era ella a que se illudiria com estes fingimentos pueris.
Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.
O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o solemne silencio da sala. Até os criados andavam em bicos de pés, dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli dentro.
Jenny ainda tentava sorrir ás vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o sorriso nos labios, á vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae e do irmão. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadversão entre elles! Como tão de repente se condensára esta tempestade, que ella nem tempo tivera para tentar desvanecer?
O jantar terminou como começára, silencioso e triste. Carlos foi o primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard não teria d'esta vez companhia para o seu tão apreciado pospasto.
O inglez começava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudança de pensar. Estava-lhe já parecendo que havia sido muito severo para com o delicto do filho.
Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretação que dera ao facto, e ainda quando não fosse, era a final uma leviandade de rapaz, que talvez não merecesse tão asperas censuras.
O tolerante inglez só esperava por o primeiro ensejo para naturalmente, airosamente, realisar a reconciliação com o filho. Onde ia já o seu resentimento?
Ficou pois devéras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para saír, levando comsigo as esperanças do almejado ensejo.
Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o irmão.
Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, não deu pelo gesto do pae.
Já Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as primeiras palavras que, desde que se sentára dissera:
—Chegou hontem á noite... Mr. Smithfield, de Londres...
Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar para a porta.
—Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield—disse ainda Mr. Richard.
Carlos tornou a parar, e vendo que o pae não acrescentava mais nada, deu ainda alguns passos.
—É um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes como... pessoaes—disse Mr. Richard.
Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia já proximo da porta.
E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mão para o reposteiro.
—Estivemos lá, esta manhã, eu e Jenny.
Carlos não disse nada; esperou ainda.
Mr. Richard acrescentou:
—E ficamos de voltar esta noite... Elles partem ámanhã para o Minho e... Perguntaram por... por ti.
Mr. Richard realisára um grande esforço: pozera de parte o tom ceremoniatico com que até ahi tratára o filho.
Carlos, que já desviava o reposteiro, vendo que o pae não proseguia, curvou-se respeitosamente e saíu, como se não tivesse comprehendido o sentido d'aquellas insinuações.
Mr. Richard viu-o saír, e de novo se lhe carregaram as feições, que haviam já desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os dedos uma avelã, com que estivera brincando, tal foi a força, de que a contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.
Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a não sabia. Levantou-se e foi encostar-se ao hombro do pae.
—Que tem?—disse-lhe com voz affectuosa.
—Faço quanto posso para viver em paz, mas já vejo que não é possivel.
—Então por quê?
—Pois não viste?
E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.
—Carlos tem vinte annos—acrescentou, passeiando ainda.—Aos vinte annos, ha já deveres para todo o homem... E se elle se esquece de que os tem e de que os deve e ha de cumprir... eu que sou pae...
À entrada de um criado interrompeu-o.
Mr. Richard sentou-se, pôz-se a ler o Times e recaiu no silencio, de que nada mais o tirou. Seria o Times que o absorvia assim? O que é certo é que em toda a tarde não desviou os olhos da primeira columna do jornal.
Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a ler!
Jenny dirigiu-se ao quarto do irmão.
Júlio Dinis, Uma Família Ingleza
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Os relógios Raymond Weil no Relógios & Canetas online
Meditações - um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador
Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi aquela semana da Tijuca.
De quando em quando, tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados, os anos da adolescência, a denúncia que está nos primeiros capítulos, e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião, e acabou festejando o nosso consórcio. Uma ou outra vez, falávamos em descer, mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós esperávamos um dia encoberto, que teimava em não vir.
Não obstante, achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. Concordava em ficar, mas ia falando do pai e de minha mãe, da falta de notícias nossas, disto e daquilo, a ponto que nos arrufamos um pouco. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim.
— Eu?
— Parece.
— Você há de ser sempre criança, disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não, Bentinho; digo isto porque é realmente assim, creio que eles podem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma doença; e confesso, pela minha parte, que queria ver papai.
— Pois vamos amanhã.
— Não; há de ser com tempo encoberto, redarguiu rindo.
Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciência continuou, e descemos com sol.
A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também. E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa. Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: "Quem são?" e um sabido explicava: "Este é o Doutor Santiago, que casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em Mata-cavalos." E ambos os dois: "É uma mocetona!"
Machado de Assis, Dom Casmurro
De quando em quando, tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados, os anos da adolescência, a denúncia que está nos primeiros capítulos, e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião, e acabou festejando o nosso consórcio. Uma ou outra vez, falávamos em descer, mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós esperávamos um dia encoberto, que teimava em não vir.
Não obstante, achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. Concordava em ficar, mas ia falando do pai e de minha mãe, da falta de notícias nossas, disto e daquilo, a ponto que nos arrufamos um pouco. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim.
— Eu?
— Parece.
— Você há de ser sempre criança, disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não, Bentinho; digo isto porque é realmente assim, creio que eles podem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma doença; e confesso, pela minha parte, que queria ver papai.
— Pois vamos amanhã.
— Não; há de ser com tempo encoberto, redarguiu rindo.
Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciência continuou, e descemos com sol.
A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também. E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa. Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: "Quem são?" e um sabido explicava: "Este é o Doutor Santiago, que casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em Mata-cavalos." E ambos os dois: "É uma mocetona!"
Machado de Assis, Dom Casmurro
quarta-feira, 3 de junho de 2020
Os relógios MB&F e L'Epée 1839 no Relógios & Canetas online
O bridge, os calendários... e um caixote que acaba de chegar de Viana ao Núcleo do Tempo do Ephemera
Há todo um mundo, insuspeito para nós, admitimos, de calendários de secretária, anuais, dedicados aos meandros do Bridge (basta googlar). No Arquivo Ephemera, mais propriamente no seu Núcleo do Tempo, de que somos responsáveis, temos vários exemplares, onde se afiança que são o presente ideal para os amantes da modalidade. E prometem-se problemas desafiantes, todos os dias (365 ou 366, caso o ano seja bissexto...), elaborados por peritos mundiais .
Agendas, calendários e outros fixadores do Tempo são matéria que o Núcleo vem tratando. O Centro de Recolha do Ephemera em Viana do Castelo acaba de nos fazer chegar mais um caixote... Que surpresas nos trará?
Meditações - Toda a monotonia e a fatalidade do tempo...
O descalabro a ócio e estrelas...
Nada mais...
Farto...
Arre...
Todo o mistério do mundo entrou para a minha vida económica.
Basta!...
O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.
Mas então isto não acaba?
É destino?
Sim, é o meu destino
Distribuido pelos meus conseguimentos no lixo
E os meus propósitos à beira da estrada —
Os meus conseguimentos rasgados por crianças,
Os meus propósitos mijados por mendigos,
E toda a minha alma uma toalha suja que escorregou para o chão.
........................................................................................................
O horror do som do relógio à noite na sala de jantar de uma casa de província —
Toda a monotonia e a fatalidade do tempo...
O horror súbito do enterro que passa
E tira a máscara a todas as esperanças.
Ali...
Ali vai a conclusão.
Ali, fechado e selado,
Ali, debaixo do chumbo lacrado e com cal na cara
Vai, que pena como nós,
Vai o que sentiu como nós,
Vai o nós!
Ali, sob um pano cru acro é horroroso como uma abóbada de cárcere
Ali, ali, ali... E eu?
Álvaro de Campos
Nada mais...
Farto...
Arre...
Todo o mistério do mundo entrou para a minha vida económica.
Basta!...
O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.
Mas então isto não acaba?
É destino?
Sim, é o meu destino
Distribuido pelos meus conseguimentos no lixo
E os meus propósitos à beira da estrada —
Os meus conseguimentos rasgados por crianças,
Os meus propósitos mijados por mendigos,
E toda a minha alma uma toalha suja que escorregou para o chão.
........................................................................................................
O horror do som do relógio à noite na sala de jantar de uma casa de província —
Toda a monotonia e a fatalidade do tempo...
O horror súbito do enterro que passa
E tira a máscara a todas as esperanças.
Ali...
Ali vai a conclusão.
Ali, fechado e selado,
Ali, debaixo do chumbo lacrado e com cal na cara
Vai, que pena como nós,
Vai o que sentiu como nós,
Vai o nós!
Ali, sob um pano cru acro é horroroso como uma abóbada de cárcere
Ali, ali, ali... E eu?
Álvaro de Campos
terça-feira, 2 de junho de 2020
Os relógios Maurice Lacroix no Relógios & Canetas online
Relógios IWC Schaffhausen solidarizam-se com movimento Black Lives Matter
A suíça IWC Shaffhausen, marca de Alta Relojoaria pertencente ao Richemont Group, acaba de publicar nas redes sociais um quadrado negro, com a frase Black Lives Matter e a hashtag #BlackoutTuesday, em referência aos protestos anti-raciais nos Estados Unidos. Os relógios Guess também aderiram ao movimento.
Meditações - Como o bater cadente dum relógio
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.
Cesário Verde, Vaidosa
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.
Cesário Verde, Vaidosa
segunda-feira, 1 de junho de 2020
O renascimento da Cauny no Relógios & Canetas online de Junho
Os relógios Kudoke no Relógios & Canetas online
Preparando exposição de relojoaria mecânica em Cascais, em 2021 - de um vulgar Cousinha a um desconhecido Henry-Lepaute
O exemplar Henry-Lepaute no Museu dos Condes de Castro Guimarães
Já aqui tínhamos falado de uma visita ao Museu do Relógio, em Serpa; de outra, aqui, à colecção de um privado, em Lisboa; e aqui de uma visita à Marinha Grande, onde estivemos na oficina de um especialista na manutenção, restauro e fabrico de relojoaria grossa.
Tudo isto no âmbito dos preparativos para uma exposição sobre Relojoaria Mecânica que irá ocorrer em Março de 2021, na Casa Sommer, da responsabilidade da Câmara de Cascais, e cuja preparação estamos a assessorar como especialistas em horologia.
Depois de há uns meses termos avaliado a situação do Marégrafo, passámos hoje a manhã em Cascais, em busca de outros testemunhos do seu Tempo público e privado, que irão figurar igualmente na exposição.
Há muito esquecido e desactivado, há um exemplar na Biblioteca-Museu dos Condes de Castro Guimarães, assinado Henry-Lepaute Paris 1901. Foi feito na oficina fundada por Augustin Michel Adam Henry-Lepaute (1800 - 1885) e continuada pelos seus filhos Édouard Léon e Paul Joseph. É o único exemplar Henry-Lepaute de que temos conhecimento em Portugal.
A Torre do Relógio do Museu dos Condes de Castro Guimarães
Mas o ex-libris de Cascais continua a ser o mostrador do relógio da fachada dos antigos Paços do Concelho, junto à baía. Com dois sinos acoplados, batia horas e quartos. Hoje, encontra-se electrificado. No seu interior, um vulgar Cousinha, de A Boa Construtora, de Almada, de meados do século XX. Interessante seria saber onde pára hoje o relógio oferecido a Cascais em 1876 por Sérgio Augusto de Barros, a que se faz menção no mostrador. A máquina era de Augusto César dos Santos, de Lisboa.
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