Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Meditações - que um minuto dure horas

Não, não é surpreendente

que um minuto dure horas.

E horas passem de repente.

 

Philip Glass

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Janela para o passado - há 60 anos... Kent, 1963

Os relógios Skagen no Relógios & canetas online


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Publicidade aos relógios Relide, 1945


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Coisas do Ephemera - um calendário de futebol de há 60 anos


Agora que vai ter início o Campeonato de Futebol da I Divisão, época 2023/24, recordamos a de há 60 anos, através de um documento patrocinado pela Casa Sonotone. Trata-se de um caderninho-calendário da competição. Poderia ter ficado nos Núcleos de Desporto ou do Tempo do Arquivo Ephemera. Quedou-se pelo último.

A Sonotone Corporation tem as suas raízes em 1929, quando o emigrante alemão Hugo Lieber, químico de formação, se interessou pelos problemas de audição e a fundou, em Nova Iorque. Encerrou em 2005, mas o ramo português continua.

Quanto à Casa Sonotone, foi fundada em 1935 por Raúl Augusto dos Santos, a primeira casa a vender aparelhos auditivos em Portugal. Contactou a empresa mãe nos Estados Unidos, e passou a representá-la em Lisboa. A empresa continua nas mãos da família, na sua quarta geração.

O nome oficial do Campeonato é actualmente Primeira Liga. A competição foi criada na época 1934–35 pela Federação Portuguesa de Futebol (fará brevemente 90 anos), sendo organizada pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional desde a temporada 1995–96. Na presente versão, é disputada por dezoito clubes.

Há 60 anos, os clubes eram 14 – F. C. Porto, S. L. Benfica, Sporting F. C., Belenenses, Leixões S. C., Varzim, Guimarães, Académica, Seixal, Setúbal, Lusitano (de Évora), Olhanense, G. D. CUF e Barreirense (dois clubes representando o Barreiro, cidade onde o Ephemera tem alguns dos seus armazéns). Na época anterior, tal como na actualidade, o campeão foi o Benfica e o Porto ficou em segundo. Já o Sporting, ganhou então a Taça de Portugal.


Meditações - Quero todas as tuas horas

Quero todo o teu espaço

e todo o teu tempo.

Quero todas as tuas horas

e todos os teus beijos.

Quero toda a tua noite

e todo o teu silêncio.

 

Mário Quintana

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Janela para o passado - há 60 anos... Schweppes, 1963

Memorabilia - pulseira Luís Morais


 Pulseira Luís Morais

Os relógios Swatch no Relógios & Canetas online


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Iconografia do tempo - 1998


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Meditações - o futuro distingue-se do passado por ser mais desordenado

O tempo é um dos grandes mistérios do mundo e, por isso, um tema cont8nuado da poesia. Na Segunda Lei da Termodinâmica, a única lei física que permite distinguir entre passado e futuro, aparece uma grandeza chamada entropia que cresce inexoravelmente nos sistemas isolados.  Charles P. Snow disse, na sua famosa conferência de 1959 sobre «as duas culturas», que não conhecer Shakespeare era tão grave como não conhecer a Segunda Lei. A entropia é uma medida da desordem, isto é, o futuro distingue-se do passado por ser mais desordenado. O poeta do Porto joga com o tema universal da desordem quando refere a desordem dos «barcos na Cantareira», das árvores de fruta no pomar ou dos amigos sentados a uma mesa, em três dos poemas. A tensão entre ordem e desordem está, de resto, omnipresente.

Para os seres humanos, o grande problema do tempo é não serem eternos. O tema da morte é eloquentemente tratado no poema «Comentário sobre os velhos» (o poeta é irónico: «Alguém tem de/ ir à frente. a ir alguém/ que vão/ os velhos (…) ) ou no poema «Auto-retrato (ao cinquenta e cinco anos)» (“A/ cada noite que passa os pés/ensaiam no leito/ a sua/ posição final. A estátua definitiva (…)».  A ironia aqui é o poeta dizer que acordamos, normalmente, com os pés em forma de V de vitória (ou em forma de W, se há dois corpos, acrescenta num parêntesis).

Um grande poeta a seguir com grande atenção. Ainda tem muito tempo pela frente…

Carlos Fiolhais sobre João Luís Barreto Guimarães, aqui

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Janela para o passado - há 60 anos... Garuda, 1963

Os relógios Tockr no Relógios & Canetas online


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Iconografia do tempo - 1998


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Meditações - Tanto tempo que, na vida, perdemos

Tanto tempo que, na vida, perdemos.

Tantos gestos lindos que não fizemos.

Tanta boa dádiva que não demos.

Tanto que quisemos e não quisemos.

 

Tanta desatenção, tanto não ver.

Tanta luz que ficou por acender.

Tanto que morreu antes de nascer.

Tanto fogo que ficou por arder.

 

Tanta vida sempre tão mal vivida.

Tanta ardência, mas sempre mal ardida.

Tanta esperança tão mal cumprida.

 

Tanta coisa que tanto se sonhou.

Tanto que se perdeu e não achou

ou, antes de começar, acabou.

 

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Janela para o passado - há 60 anos... champanhe Perrier-Jouët, 1963

Os relógios Traser no Relógios & Canetas online


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Iconografia do tempo - 1998


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Meditações - Some of the future can always be read in the palms of the present

When the American financier J.P. Morgan hired the inventor of the lightbulb, Thomas Edison, to wire his mansion in New York, his father Junius Morgan warned him that electric light was only a passing craze. In 1903, Horace Rackham, the personal lawyer of automobile manufacturer Henry Ford, was told that cars would never replace horse-drawn carriages. And in his 1961 book The Wonderland of Tomorrow, Brendan Matthews announced that, soon, technology would allow us to eliminate aging and bad weather.

Predicting the future with any degree of accuracy is difficult, but certainly not impossible. As Czech writer Karel Čapek, whose 1920 play RUR is believed to have coined the term “robots,” once said, “Some of the future can always be read in the palms of the present.” The greater your understanding of science, society, and human nature, the more you can read. While some are more well-known than others, there is no shortage of books with shockingly accurate predictions of the future. 

Tim Brinkhof

domingo, 6 de agosto de 2023

Janela para o passado - há 60 anos... automóveis Volvo, 1963

Os relógios Tudor no Relógios & Canetas online


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Publicidade aos relógios Rolex, 1994


  (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Meditações - We are writing time

Time is one of the most precious assets that we have. Time gives us space to breathe, the opportunity to grow and the freedom to invent ourselves anew every day.

We cannot turn back time, but we have the power to change the present and the future. Every day and minute, we are writing a new chapter of our own story in this world.

We are the authors of all the stories that are about to come.

We are writing time.

Nicolas Baretzki, CEO Montblanc

sábado, 5 de agosto de 2023

Os relógios U-Boat no Relógios & Canetas online


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Publicidade aos relógios Philippe Charriol, 1994

 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Janela para o passado - Companhia de Seguros Império, 1964

Meditações - time is your misfortune

A man is the sum of his misfortunes. One day you'd think misfortune would get tired but then time is your misfortune.

William Faulkner, The Sound and the Fury

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Os relógios Ulysse Nardin no Relógios & Canetas online


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Publicidade aos relógios Patek Philippe, 1994


 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Janela para o passado - Ar Líquido, 1964

Meditações - Time to die

Sobre "Blade Runner, O Caçador de Androides", de 1982.

Momentos antes de morrer, o replicante Roy Batty disse a Deckard enquanto chovia:

"I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion.

I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain.

Time to die."

"Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

A forma final do solilóquio foi escrita por Rutger Hauer, que eliminou algumas linhas do script original e colocou all those moments will be lost in time, like tears in rain, pois as do original  parecia que não se encaixavam bem com o tom do filme.

Vale lembrar que o estranho monólogo do androide não consta no livro do escritor de ficção científica norte americano, Philip K. Dick.

O livro que inspirou o filme, cujo título original era "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?" Não apresenta referência às Guerras de Orion, um tema da mitologia clássica e que às vezes surge na ufologia mística. O que poderia apontar para a completa falta de conhecimento da realidade em que estavam inseridos os habitantes da Terra, incluindo o próprio caçador de androides.

Outra referência que aparece neste monólogo é ao "Portal de Tannhäuser" referência provável ao tema básico do poema "Os Portais de Vênus" (http://library.flawlesslogic.com/venus.htm), atribuído a um poeta medieval do Século XIII, com o mesmo nome. O poema refere a existência de um pórtico em algum lugar da atual Alemanha, a um mundo místico, dominado por seres que vivem eternamente, ao modo das fadas, chamado Hürselloch. Pessoas que encontrassem a passagem para não envelheceriam nunca mais, o que condiz com o tema da busca da imortalidade.

O preço a pagar pela imortalidade, segundo Tannhäuser, seria ficar à mercê do poder da rainha das fadas e condenado a uma existência um tanto monótona, razão pela qual o poeta atribui sua própria presumida fuga. O que também condiz com o final da fala do andróide que refere o fato de que "todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva", o que também parece conter uma referência a Mnemósine, segundo a mitologia grega, uma titânide, filha da conjunção de Urano e de Gaia.

O próprio tema "Lágrimas na chuva" parece referir à fonte de água da caverna de Trofônio, que promovia o esquecimento aos mortais. Um tema também ligado à titânide Mnemósine, por tantas vezes invocada pelos poetas da antiga Grécia.

Lido aqui

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Um Zeppelin automático, com data e GMT, que pode ser seu


Os relógios Urwerk no Relógios & canetas online


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Calendários - Almanaque de O Século para 1898


 Sobre calendários, em Portugal, veja aqui. (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Janela para o passado - Old England, Lisboa, 1964

Meditações - no tempo em que o tempo não tinha calendários...

O HOMEM QUE QUERIA VIVER MAIS TEMPO.

Atrasava o relógio todos os dias uma hora mas começou a achar que não era o suficiente, passou para duas horas, três, quatro, cinco…

Não era o tempo suficiente queria mais e mais.

Virou e revirou o calendário semanas, meses, anos.

Deitou o calendário fora e foi buscar outros de outros séculos.

Ainda não era o tempo suficiente.

Encontrou-se no tempo em que o tempo não tinha calendários.

E tão atrás era que a Terra se incandesceu como uma bola de fogo que saiu da sua órbita e foi vaguear no espaço ao encontro de outros planetas eles também bolas de fogo que se uniram num só.

As galáxias enlaçaram-se,  o Universo encolheu-se até ser apenas um pequeno ponto branco suspenso no espaço.

E o ponto ali estava, suspenso sem qualquer movimento, intransponível.

Quando acordou nessa manhã lembrou-se do ponto branco e da luta  que o seu espírito durante toda a noite se tinha debatido numa viagem através do tempo.

O porquê desse ponto, seria aquilo a que chamam “Deus”, o inexplicável?

Porquê que no sonho não conseguiu ir para além do ponto branco, o que estava oculto por detrás dele, isto é, se oculto algum havia.

Era como se batesse numa porta que não abria ou que do outro lado estivesse uma parede a barrar a entrada.

Durante o resto da manhã não pensou mais nisso, se durante o seu sonho o espírito liberto não tinha conseguido ultrapassar essa barreira, agora com o peso envolvente do dia a dia em que era “bombardeado” com todo o tipo de solicitações, informações e outras coisas a que estava sujeito mas que não tinha pedido, nem queria fazer parte delas, não conseguia ter o discernimento para tentar deslindar o inultrapassável.

Quando ia a sair de casa olhou para o relógio para ver as horas, voltou a puxar o punho da camisa para voltar a ver as horas no relógio, com a outra mão puxou a carrapeta do relógio e atrasou-o.

21.Fevereiro.2023

João Magalhães

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Os relógios Vacheron Constantin no Relógios & Canetas online


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A Hora Universal, Almanaque de O Século para 1897


Por esta altura, a Hora Legal de Portugal era determinada ainda pelo meridiano de Lisboa, como pode ler aqui. (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Janela para o passado - Pastelaria Marques, Lisboa, 1964

Relógios & Canetas Agosto - o que trará o futuro?


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Editorial

I know not what tomorrow will bring*

No editorial de Julho pedimos ao Chat GPT que falasse da Inteligência Artificial e da sua influência no sector do Luxo. O texto que então publicámos foi a resposta ipsis verbis que esse programa nos deu. Acima de tudo, o luxo será cada vez mais personalizado, vaticina a IA.

Não foi coisa que nós próprios já não tivéssemos dito – no editorial de Junho. Adivinhar o futuro, com a ajuda da IA, será mais fácil?

Dias antes da queda do Muro de Berlim e da implosão do Império Soviético poucos ou mesmo nenhum dos grandes especialistas na Guerra Fria ousaria vaticinar tal coisa.

Aquando do movimento de contestação na China que desembocou nos trágicos acontecimentos do 4 de Junho de 1989, centrados na Praça da Paz Celestial, em Beijing, os especialistas vaticinaram, na generalidade, que o Império do Meio iria fechar-se mais uma vez ao mundo exterior e que o mais populoso país do mundo estaria perdido por décadas para o convívio entre as nações. O que aconteceu foi exactamente o contrário – a China abriu-se como nunca ao relacionamento económico com o estrangeiro, mesmo que politicamente a ditadura do Partido Comunista permaneça e se tenha mesmo fortalecido.

Tudo isto para recordar que, há uns 20 anos, os grandes especialistas do marketing no sector do luxo garantiam que as vendas online e as abordagens digitais iriam funcionar para as marcas de consumo maciço, mas nunca para a topo de gama, para o luxo. Ainda recordamos as hesitações de manufacturas de Alta Relojoaria em ter ou não sites próprios, onde nem sequer vendessem, mas explicassem pelo menos quem eram e quais as novidades em termos de produto. Hoje, quem não está no digital não existe. Tenha acabado de aparecer no mercado, ou seja orgulhoso depositário de uma história com séculos.

A IA veio para ficar. Tem memória infalível e sabe todos os gostos e hábitos de cada consumidor, mediante o rasto que ele vai deixando no mundo virtual – a que dia da semana ou mesmo hora costuma comprar mais, se prefere relógios clássicos ou desportivos face aos filmes que tem visto ultimamente. O “conhece-te a ti próprio” deixará de fazer sentido, face ao assistente pessoal que a IA colocará à disposição de cada um de nós. E que nos conhece muito melhor do que nós próprios. I know not what tomorrow will bring* But AI knows…

*”Não sei o que o amanhã trará” - Último escrito de Fernando Pessoa, a 30 de Novembro de 1935, antes de morrer no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática.

Meditações - lá fora o tempo dança...

É muito cedo pra dizer

é muito estranho, mas eu sei que eu to melhor

E o mundo gira sem querer

e a gente anda sem saber pra onde vai

éé

Nessa janela eu posso ver a sua casa

nesse caderno eu vejo um resto de você

Depois das seis o meu ponteiro se atrasa, se atrasa

Mas lá fora o tempo dança

Lá fora o tempo passa e você não.

Mais sólido que a solidão

Mais sólido que a solidão

É muito estranho, mas eu sei

Não tenho mais aquele medo de errar

E o mundo gira sem pedir

E agora eu quero descobrir pra onde vai

Nessa janela eu posso ver a sua casa

nesse caderno eu vejo um resto de você

Depois das seis o meu ponteiro se atrasa, se atrasa

Mas lá fora o tempo dança

Lá fora o tempo passa e você não.

Mais sólido que a solidão

Mais sólido que a solidão


Daparte

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Almanaque Plantei Eu para Agosto

Almanaque Pé Fértil para Agosto

Relógios & Canetas online Agosto


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Publicidade aos relógios Rolex, 2005


 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

As canetas Montblanc no Relógios & Canetas online


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Janela para o passado - Wagons-Lits Cook, 1964

Agosto


Meditações - Quando o velho relógio marcou a hora solene do meio-dia

As vinte e cinco máquinas de escrever da grande sala dos escritórios da Companhia Inglêsa faziam lembrar vinte e cinco pianos na hora apoteótica de um grande concerto musical. Todas as dactilógrafas interpretavam a ópera do trabalho de correspondência, fazendo bailar incessantemente os dedos nervosos sôbre os teclados das letras. E o matraquear dessas cinquenta mãos, embora afogado numa estranha confusão de ruídos, marcava um ritmo que transpirava actividade e desejo de viver. [...]

Quando o velho relógio marcou a hora solene do meio-dia, o peito de todas as raparigas sentiu-se descomprimido de uma pesada inquietação. Chegava, finalmente, o instante da sua libertação, que não duraria mais do que duas horas, mas que a-pesar-de tudo, lhes chegaria de sobra para correrem a casa, debicar o almôço, e, logo a seguir, aparecerem num jardim ou numa praça onde as esperava o noivo, para adormecerem num rápido sonho de felicidade!... [...]

Maria Fernanda, a dactilógrafa negra, a única figura negra naquela grande população de empregados brancos, desceu no último elevador e, ao chegar à porta da rua, ficou surpreendida de não ver o Humberto, o noivo, à sua espera."

Guedes de Amorim - A BAILARINA NEGRA (novela). Lisboa, Empreza Nacional de Publicidade, 1931.