segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
Meditações - relógio (?) avariado
O meu relógio coitado,
Tem a corda avariada.
E por muitas coisas que faça,
Já não presta para nada.
Tão valente tem sido,
Agora foi-se-me abaixo.
Mas por enquanto não acho,
Que tenha nada partido.
O que deve estar é vencido,
Dá-me sinais de cansaço.
Nunca me tinha falhado,
E funcionou sempre bem.
E hoje não sei o que tem,
O meu relógio coitado.
Na linda prenda que usava,
Com imenso prazer.
Nunca cheguei a saber,
Com que pedras trabalhava.
Muita alegria me dava,
Ao romper da madrugada.
Dava o toque da alvorada,
Com coragem e valentia.
Mas já não faz o que fazia,
Tem a corda avariada.
As vezes dou-lhe em mexer,
A ver se o ponho a trabalhar.
Até me faz admirar,
Como isto pode acontecer.
Já tenho dito para a mulher,
E tu não vez esta desgraça.
Ela encontra-lhe graça,
A olha para mim a rir.
E eu tenho que desistir,
Por mais coisas que faça.
O meu relógio antigamente,
Nem um segundo falhava.
Agora quer é descanso,
Mas isso é constantemente.
E tudo acho diferente,
E até na própria pancada.
Não tem a toada,
Dos tempos que já lá vão.
Por perder toda a acção,
Já não presta para nada.
Anónimo, poesia popular portuguesa
domingo, 27 de Dezembro de 2009
Há 427 anos: o relógio é introduzido na China

Padres mandarins na corte de Beijing, no séc. XVII
Desde o início que a Companhia de Jesus esteve ligada ao destino de Macau (os três primeiros padres chegaram ao território em 1562). Fundada como resposta de Roma ao movimento da Reforma, a nova ordem religiosa aproveitou a Expansão portuguesa, “colou-se” a ela, onde quer que ela fosse. O Oriente não foi excepção. O objectivo era “conquistar” pela fé aqueles desconhecidos, imensos e superpovoados territórios. E Macau, onde o primeiro bispo “do Japão e da China”, D. Melchior Carneiro, chega em 1568, era a antecâmara do Padroado Português do Oriente (monopólio religioso concedido pelo papa a Lisboa), que ali preparava os seus agentes evangelizadores no contacto com os hábitos e a língua dos gentios. Mas a resistência da China à entrada dos padres era grande.
Um dos religiosos dessa época, Francisco de Sousa, relata que, em 1582, ocorreu um incidente “do qual com maior fundamento se podia esperar serem os portugueses lançados de Macau, que os padres admitidos na China”.
Beijing tinha mudado de vice-rei de Cantão, a província que tinha poder administrativo sobre Macau. O novo mandarim acusava os portugueses de estarem a usurpar a justiça imperial, por levantarem tribunais ou decidirem causas. Além disso, estariam a “meterem estrangeiros em terra firme”, especialmente japoneses e cafres. Mandou o vice-rei que o Capitão de Macau e o seu Bispo, Belchior Carneiro, comparecessem perante si, em Chaoqin, no continente, onde residia. Os portugueses enviaram em nome do Capitão, o Ouvidor; em nome do Bispo, os religiosos Miguel Rugieri e Francisco Pacio.
Depois de um primeiro encontro, aprazível, em que a delegação ocidental apresenta sedas e cristais de presentes ao vice-rei (que as paga), faz-lhe chegar posteriormente a informação de que dispunha de “uma máquina de aço toda de rodas por dentro, que continuamente se moviam por si mesmas, e mostravam por fora todas as horas do dia e da noite, e ao som de uma campainha dizia o número de cada uma delas”.
E, perante a curiosidade ansiosa do vice-rei, dá-se o facto histórico: a 27 de Dezembro de 1582, os italianos Rugieri e Pacio fazem o que se pensa ser a introdução do primeiro relógio ocidental na China. Seria, segundo o que se sabe, um relógio de mediana grandeza, “obrado por excelente artífice”, e mandado da Europa ao padre português Rui Vicente, que o destinou à missão da China.
Apresentado o relógio, nas palavras de Francisco de Sousa, “foi o pasmo igual à novidade, e seria dobrado o gosto do vice-rei, se pudesse acomodar-se ao uso da China, que medindo o dia natural da meia-noite à meia-noite, como nós fazemos, não o reparte em vinte e quatro, senão em doze horas iguais: nem contam as horas por números, dizendo uma, duas e três, mas dão a cada uma delas o seu vocabulário misterioso, e alusivo segundo a sua crença”.
Segundo alguns historiadores chineses contemporâneos, o presente do relógio mecânico ao vice-rei de Cantão foi essencial para lhe ganhar as boas graças e conseguir a permanência dos portugueses em Macau. Sustenta ainda que foram os relógios – e outra mercadoria rara e idolatrada, o âmbar cinzento – que abriram a corte imperial, em Beijing, aos jesuítas, que tinham facilidades de comércio em toda a região.
Meditações - o que começa, perece
São Jerónimo (342-420)
sábado, 26 de Dezembro de 2009
O tempo, segundo Anselmo Borges
Alertados pela Tribo de Jacob, fomos ler Anselmo Borges e a sua visão do tempo, na crónica que publica hoje no Diário de Notícias. Está aqui.
Sobre o ano novo
Texto da classicista Alexandra Azevedo, no de Rerum Natura, sobre o Ano Novo, pode ser lido aqui.
Pista da semana - a Torre da Igreja Matriz de Moncorvo
Segundo relato de 1758 do pároco de Torre de Moncorvo, a povoação vizinha de Santa Cruz da Vilariça tinha sido abandonada a pouco e pouco por quem lá vivia, no início do século XIII, transferindo-se para Moncorvo. A razão, com o padre a dar foros de veracidade à versão popular, teria sido “pela multidão de formigas, que não só faziam dano considerável em todos os víveres, mas aos mesmos viventes lhes causavam notável opressão”. Pelo que, “resolvendo-se a evitar estes incómodos”, as gentes se transferiram “para o pé do monte Reboredo, onde havia umas casas de que era senhor um homem chamado Mendo”, com uma torre onde domesticara um corvo: daí, Torre de Moncorvo.Na verdade, uma das explicações que mais tem sido empregue para achar este topónimo tem sido a existência de uma torre, pertença de um senhor local de nome Mendo Curvo. A figura existiu, há documentos que o comprovam. Foi um chefe militar, que liderou a guerra de Reconquista nessa zona e que, por isso, terá sido recompensado com terras e foral pelo rei leonês Fernando I, por volta de 1064. Depois, a situação de vassalagem dos senhores de Moncorvo terá passado para Afonso Henriques, em 1140, com o território raiano a ser integrado no novo país, chamado Portugal.
Augusto de Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno, refere que, “vendo D. Afonso II que a nova povoação ia progredindo à custa da antiga, que se ia despovoando, fez mudar em 1216, para Moncorvo, o resto dos habitantes de Santa Cruz”. E dá outra explicação possível para o topónimo: corruptela de Mons Curvus, nome que os romanos deram ao adjacente monte de Reborêdo (que tem forma de curva).
Tendo começado por ser em Santa Cruz da Vilariça, tendo-se transferido ou sido construída de raiz em Moncorvo, existiu de qualquer modo ali uma torre (castelo). O conjunto era equipado com uma torre relojoeira. Sabe-se que essa torre ruiu cerca de 1670 e que a sua pedra foi utilizada na construção de outros edifícios.
Pouco antes da torre ir abaixo, o mecanismo do relógio foi mudado para a torre da Igreja Matriz, edifício começado a construir em 1554 e só terminado cerca de um século depois.
A primeira informação de que dispomos sobre o relógio data de 1639. António Júlio Andrade, no Dicionário Histórico dos arquitectos, mestres-de-obras e outros construtores da Vila da Torre de Moncorvo refere que, nessa data, um relojoeiro castelhano, Bartolomeu Sanchez, arrematou por 2.280 réis o concerto do relógio.
Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda, em A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo falam de reparações documentadas no relógio para os anos de 1702, 1719, 1740 e 1746. António Júlio Andrade, na obra supracitada refere os relojoeiros António Ferreira (1670), Manuel Alves de Sousa (1692), Simão Rubio (1702), M. Fernandes (1719), João Teixeira Garrancho (1740), o ferreiro de Urros (1746), Pedro de la Peña (1746), Frei Domingos de Santana (1803), Miguel Federico de Morais Leal (1843), António de Sousa Cardoso (1844) e João Teixeira Lopes (1859). Presumivelmente, todos eles terão tido acção de manutenção e concerto sobre a maquinaria do relógio.
Mas o caso mais interessante relaciona-se com um mecanismo, ligado ao relógio, e que não se sabe hoje se foi total ou parcialmente criado pela lenda. Corógrafos como António Carvalho da Costa, José Avelino de Almeida ou Augusto de Pinho Leal referem, mais ou menos pelas mesmas palavras, a existência de um zimbório a coroar a torre relojoeira. Nele havia uma esfera armilar, encimada de uma cruz, com um cata-vento. E, num coruchéu forrado de azulejos, estaria empoleirado um corvo mecânico, de ferro dourado, que “soltava tantas grasnadelas, quantas as horas que dava o relógio, e que se ouviam a grande distância”. Segundo a tradição, esse conjunto foi destruído por um raio.
Eugénio Cavalheiro e Nelson Rebanda não estão muito inclinados para acreditar na existência de tal aparato. “As coberturas de torres em azulejo, mesmo piramidais, são frequentes no século XVIII, pelo que não seria descabido aceitar esta hipótese, podendo a mesma confundir-se com a designação de zimbório. A sua destruição por um raio é também possível, dada a frequência das trovoadas e descargas eléctricas, motivadas pelo relevo e pela enorme concentração metálica (ferro) da serra do Reborêdo”. Quanto ao “corvo mecânico”, dizem que a versão popular “talvez fosse induzida por algum cata-vento com essa forma, dado o seu simbolismo para a vila”, que ostenta dois corvos no seu brasão. No entanto, “não é credível, aqui, a existência de mecanismos que emitissem sons, como se pretende, pois isso não passaria despercebido nos inúmeros pagamentos relativos ao conserto do relógio, referidos por documentação municipal”.
Autómatos públicos, ligados a mecanismos relojoeiros, estão generalizados nos séculos XVII e XVIII dos burgos europeus. Com outro tipo de sensibilidade para este património, as autoridades locais conseguiram mantê-los em bom estado, a funcionar, até hoje. Dado o total desprezo que gerações e gerações de entidades responsáveis eclesiásticas ou civis votaram, em Portugal, ao património relojoeiro de torre, não seria de admirar que o “corvo mecânico”, a ter existido, há muito tivesse desaparecido, sem deixar rasto. Mas, o mais provável é que ele não passe na verdade de lenda.

Meditações - o tempo dança
Um segundo é uma hora
e uma hora é um segundo
no relógio da paixão.
Não há tempo nesse tempo.
Quem ama nunca sabe
as horas que são.
E as horas também não sabem
onde os amantes estão.
No relógio da paixão
O tempo pára, retrocede, avança.
Não está parado nem está
em movimento.
Está perdido, mas não está perdido.
Como tu, que amas, apenas dança.
Álvaro Magalhães, (Porto, 1951), poeta e escritor infantil
sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
Nascido a 25 de Dezembro - mais ou menos...

Chegado(s) ao mercado
Os 40 anos do relógio de pulso de quartzo

O casal Pierre e Marie Curie já tinha descoberto, na década de 80 do séc. XIX, as propriedades piezoeléctricas de um cristal de quartzo: sujeito a uma corrente eléctrica, vibra a uma frequência constante. Desde essa altura se pensou em utilizar essa característica na medição do tempo. Na verdade, relógios usando quartzo no órgão oscilatório foram construídos na década de 40 do séc. passado, mas eram enormes, faltava resolver o problema da miniaturização e da alimentação.
Meditações - o cabelo do volante
Desmonta o relógio de bolso
solta a corda no tambor
a âncora
e o cabelo do volante
a lupa colada às pálpebras
conta as sílabas os rubis
um segredo
as iniciais na caixa de prata
António Barbedo de Oliveira (Porto, 1949), médico psiquiatra, in A Árvore do Sábado
quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
Meditações - relógio algema
Tira a algema do pulso – pelo menos de vez em quando – e deixa de depender tanto do relógio. Escuta o teu relógio interior. Oferece-te dias de retiro, de verdadeiro descanso, sem nenhum programa. Não fiques até à última hora do dia a fazer coisas ou a ver televisão. Pelo menos um dia por semana deita-te e levanta-te cedo. De vez em quando vive um dia sem horas marcadas: passeia sem destino. Surpreende alguém com uma visita, uma flor.
in 10 sugestões para uma vida mais simples, Pax Christi, (secção portuguesa) - Movimento Católico Internacional ao Serviço da Paz, Viver com Simplicidade, Sustentabilidade e em Solidariedade com os Pobres - Nos 40 anos da Populorum Progressio










































