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domingo, 6 de janeiro de 2013

Curso de Relojoaria por correspondência, 1967, e a figura de Dimas de Melo Pimenta



A imprensa portuguesa dos anos 60 estava cheia de anúncios de um curso de Relojoaria por correspondência, da responsabilidade do Instituto Brasileiro de Relojoaria.

Ora, este curso, com filial no Luso, tinha sido fundado pelo português Dimas de Melo Pimenta, figura incontornável na relojoaria brasileira do século XX.

Sobre esta personagem, escrevemos, em História do Tempo em Portugal - Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades em Portugal (2003):


Dimas de Melo Pimenta, foi o responsável pela criação, no Brasil, de uma indústria relojoeira perene e de um dos maiores museus da América Latina. (128)

É num Portugal pobre e incerto que nasce em 1918, na pequena localidade termal do Luso, alguém que irá ter uma importância crucial na história da relojoaria brasileira. Dimas de Melo Pimenta, com apenas um ano de idade, emigra com a família, radicando-se desde logo em São Paulo. Em 1927 fará o primeiro de muitos e regulares regressos ao Luso.

Com 18 anos, e sem estudos específicos no ramo, Dimas de Melo Pimenta arranja o primeiro emprego, no Departamento de Relógios e Telefones de uma filial de uma empresa alemã do sector relojoeiro. Entusiasmado com as máquinas de medir o tempo importadas da Alemanha, o jovem Dimas começa a observar e a analisar-lhes o funcionamento misterioso.

Autodidacta, em 1936 esboça os seus primeiros projectos de relógios. No ano seguinte, devido à dificuldade para a importação de relógios da Alemanha (com os prelúdios da II Guerra Mundial), Dimas dá os seus primeiros passos práticos: aproveitando as engrenagens de um velho relógio mecânico de pêndulo, desenhando as peças que faltavam, cria o seu primeiro relógio.

Não mais irá parar, saindo das suas mãos máquinas cada vez mais sofisticadas e perfeitas. Em 1941, Dimas concretiza um sonho que há muito acalentava: transformar a sua incipiente produção de relógios feita até aí na garagem da sua casa numa verdadeira indústria.

Assim, com 23 anos, funda com o pai e o irmão José, com 50 contos de capital inicial, a empresa que deu origem à DIMEP.

“À procura de um nome para os relógios que iriam ser fabricados pela nova firma, foi decidido ‘Tagus’, por proposta do meu pai”, diz Dimas de Melo Pimenta nas suas Memórias. Logo em 1943 obtém vários prémios para peças suas apresentadas na IV Feira Nacional de Indústrias de São Paulo. Detentora de mais de 100 patentes, a DIMEP cria em 1959 o primeiro relógio electrónico do Brasil. Em 1970, Dimas de Melo Pimenta cria a primeira sucursal no estrangeiro, mais propriamente em Lisboa. Dominando em cerca de 65 por cento o mercado brasileiro em relógios comerciais e industriais (de ponto e de controlo e acesso), exporta os seus produtos para todo o mundo.

O universo DIMEP inclui até hoje o Instituto Brasileiro de Relojoaria, uma das mais prestigiadas escolas profissionais do país, que faz cursos por correspondência, com material didáctico escrito por Dimas de Melo Pimenta.

“Em 1956, o Instituto Brasileiro de Relojoaria começa a funcionar em Portugal, no Luso”, diz ele nas suas Memórias. Este instituto edita, nos anos 60, um curso de Relojoaria para Portugal, ensinando desde as normas de trabalho para quem se quer iniciar na profissão, até à base de ferramentas que teria de usar, passando pela identificação dos problemas mais usuais com que se pode deparar. Chega a ensinar como intervir em cronógrafos, telémetros, taquímetros e pulsómetros. “Em 1968, o Instituto passa a ser dirigido por um primo meu, Monsenhor Raul Duarte Mira. O desenvolvimento do IBR foi bastante interessante em Portugal, antes da Revolução [25 de Abril de 1974], chegando a contar com um expressivo número de alunos, tanto no continente como nas ex-colónias portuguesas, na África e na Ásia, e até mesmo nos núcleos de emigrantes da França, Alemanha e Estados Unidos”.

Em 1959, Dimas funda a que é hoje a mais antiga revista latino-americana do sector –Brasil Relojoeiro e Joalheiro.

Entretanto, em 1950, Dimas de Melo Pimenta tinha iniciado o Museu do Relógio de São Paulo. “Viajando por diversos países, comecei a frequentar regularmente as feiras de antiguidades das cidades por onde passava. Adquiri relógios na Feira da Ladra, em Lisboa; no El Rastro, de Madrid; no Marche aux Pouces, de Paris; na Praça Waterloo, de Amesterdão; na Place do Cirque, de Genebra”, diz ele nas Memórias. “Fui mantendo a colecção em casa, até chegar aos 200 exemplares. Então, decidi fundar o museu”.

O Museu do Relógio de São Paulo, com um acervo de mais de 800 relógios – o mais antigo datando de 1535 – está aberto ao público durante todo o ano e faz parte do circuito turístico da cidade.

Autodidacta respeitado, Dimas de Melo Pimenta foi eleito membro do British Horological Institute e da Societé Française des Microtechniques et de Chronométrique. Na década de 80 ainda contacta a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, que mantinha então um pequeno núcleo dedicado à relojoaria. Oferecia os seus préstimos, propunha intercâmbio de materiais e informações. Mas o núcleo, depois de um período de efémera actividade, viria a desaparecer.

Dimas de Melo Pimenta faleceu em São Paulo, em 1996, aos 78 anos. O seu filho Dimas de Melo Pimenta II é quem hoje está à frente da DIMEP, que continua a manter representação em Portugal, comercializando relógios de ponto e outros tipos de medidores automatizados de tempos.

1 comentário:

Italo disse...

Eu queria saber como eu faço para fazer esse curso de relójoeiro