Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Memorabilia - passe para festa relógios TAG Heuer - Baselworld 2014


Passe para festa TAG Heuer, Baselworld 2014

Agenda - SIAR - Salão Internacional de Alta Relojoaria este mês em Madrid


O SIAR Madrid - Salon Internacional Alta Relojeria tem a sua primeira edição de 11 a 14 de Junho. Participam Audemars Piguet, Baume & Mercier, Bvlgari, Cartier, Chopard, IWC, Jaeger-LeCoultre, Montblanc, Panerai, Piaget e Vacheron Constantin. A equipa organizadora, com componente espanhola, é a mesma que realiza o SIAR México.

Iconografia do tempo - há 20 anos, anúncio da Alcatel, 1994


(arquivo Fernando Correia de Oliveira) 

Editor convidado do Guia de Relógios da GQ Brasil


Desde o primeiro número que Estação Cronográfica é Editor Convidado do Guia de Relógios que a GQ Brasil edita todos os anos. Acaba de sair a edição de 2014.

Há dez anos - "Leituras acidentais de um ocidental"


Leituras acidentais de um ocidental. Quarta crónica da série, publicada na revista Homem Magazine, em Junho de 2004.

Leituras acidentais de um ocidental

Fernando Correia de Oliveira

Entre Washington, Jerusalém e Meca…

Quando terminou a guerra-fria e alguns teóricos como Francis Fukuyama elaboraram sobre “o fim da História”, o britânico John Le Carré, que foi diplomata e espião antes de se tornar num escritor célebre a viver de quadros imaginados sobre essa mesma guerra-fria, disse: “Que disparate. Agora é que os verdadeiros problemas vão começar”. Não poderia estar mais certo.

A principal bandeira do Islão na cruzada que mantém em crescendo contra o Ocidente, seja na sua versão moderada, seja na sua versão mais radical, é a chamada questão palestiniana. E, aqui, o Islão tem razão: por imperativo moral de democracias saídas vitoriosas da II Guerra Mundial, com os Estados Unidos à cabeça, respondeu-se ao Holocausto com a criação de Israel. Sem se ter perguntado nada aos que viviam no território onde o novo Estado seria implantado. A reacção árabe foi imediata, mas as derrotas sucessivas, humilhantes, também. Mesmo assim, e para uma opinião pública ocidental informada e sem medo das reacções primárias do lobby sionista, a questão do Médio Oriente nasceu com a prática de uma tremenda injustiça – espoliação de terras, refugiados, fronteiras internas, ocupação – são o caldo de cultura de radicais patriotas que, muitas vezes laicos, tomam as vias do terror.

Como bem recordou John Le Carré em entrevista recente, “Israel criou-se a partir da opressão sofrida pelo povo judeu, mas o povo palestiniano também se criou a partir da opressão. E agora temos o mesmo processo no Iraque. A ocupação norte-americana está a fortalecer o espírito de resistência das diferentes comunidades iraquianas”. (1)

O desastre a que conduziu a intervenção norte-americana no Iraque (fazendo do país um caos, fomentando actos terroristas da Al Qaida em zonas onde a organização de Osama Bin Laden não existia) culminou agora no escândalo das torturas de presos, num plano aparentemente autorizado pelo secretário de Estado Donald Rumsfeld.

A chamada superioridade moral do Ocidente sofreu um golpe tremendo com a publicação de fotografias sadomasoquistas, de alto teor sexual, lembrando a parafernália nazi.

As opiniões públicas ocidentais, especialmente europeias, viram as fotos como verdadeiras “armas de destruição maciça” da credibilidade da Administração norte-americana, já de si tão abalada com a questão da inexistência de adm’s no Iraque de Saddam Hussein.

Para John Le Carré, “Aznar, Blair e Bush acabam por acreditar nas suas mentiras, e os Estados Unidos estão a ponto de converter-se num país fascista”. (2) Será o escritor um perigoso esquerdista? Um filo-islamista disfarçado? E a revista The New Yorker, que denunciou o papel directo de Rumsfeld nas torturas? Será uma publicação cripto-comunista, quando o comunismo está morto e enterrado? Ou será apenas, como gosta de dizer uma certa direita portuguesa, “a mão liberal e esquerdista dos media”?

Ou Bush e a sua Administração são afastados nas eleições de Novembro, ou a senda para onde este grupo está a arrastar o Ocidente e o resto do mundo terá um fim. O Fim. John Le Carré, na entrevista citada dá, convenhamos, uma resposta típica da esquerda “caviar” quando interrogado sobre como acabar com a nova desordem mundial: “Tão importante ou mais do que a guerra contra Saddam ou Osama é a guerra contra a pobreza, a escassez ou o imperialismo”. (3)

Mas, como vão observando espíritos mais independentes, se a miséria fosse a verdadeira causa do terrorismo global, a África e a América Latina seriam os principais exportadores dessa peste que marca o início do século XXI.

Hosni Mubarak, o Presidente egípcio, é dos poucos dirigentes árabes moderados que vai sobrevivendo no fio da navalha, entre o diálogo pragmático com Israel e o Ocidente e uma opinião pública interna maciçamente contra a sua política. Por aquelas bandas, “existe um ódio aos americanos jamais igualado”, afirma ele. (4)

O Presidente egípcio recorda coisas que os norte-americanos não gostam de ouvir: “A causa principal do terrorismo é a injustiça (na questão palestiniana). O mandatário do primeiro atentado contra o World Trade Center (em 1993), Omar Abdel Rahman, trabalhou com Osama Bin Laden no Afeganistão. (Depois da invasão soviética no Afeganistão), os americanos mobilizaram um grande número de pessoas nos países muçulmanos, entre eles Omar Abdel Rahman e Bin Laden, e enviaram-nos para o Afeganistão, para combaterem o comunismo. Quando Gorbachov retirou as suas tropas, os mujahedin e os islamistas foram recuperados pelos grupos terroristas. Omar Abdel Rahman foi viver para os Estados Unidos e fez explodir o World Trade Center. E Bin Laden comandou os atentados de Nova Iorque e de Washington (de 11 de Setembro de 2001)”.

E Mubarak conclui: “É perigoso explorar a religião. Eles utilizaram o Islão contra o comunismo. E, hoje, eles dizem que o Islão é um perigo. Não nos devemos imiscuir na fé e na crença das pessoas”.

Para Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy, director da revista islâmica portuguesa Al Furqán, “A solução para as facções radicais nos países islâmicos não deve ser a ‘secularização forçada’. Pelo contrário, uma tal política incitaria mais a reacções das massas e alimentaria o radicalismo. A solução é a disseminação do verdadeiro Islão e de um papel modelo de um muçulmano que abraça os valores humanitários do Alcorão, tais como direitos humanos, democracia, liberdade, bons princípios morais, ciência e estética, e que oferece felicidade e glória à humanidade”. (5)

A esta posição idílica, tão longe da realidade, da prática e da vivência quotidiana de centenas de milhões de seguidores de Maomé, não ajuda nada na guerra da opinião pública o cartão de visita que é a Al Qaida, a sua propaganda e, acima de tudo, os seus actos.

Ralf Darendorf, actual membro da Câmara dos Lordes britânica, num dos seus habituais artigos sindicados, publicados nos jornais de referência de todo o mundo ocidental, dizia há semanas: “Aquilo que descrevemos sob a designação de Al Qaida é um movimento essencialmente destrutivo e negativo. Não oferece uma visão alternativa do mundo moderno, mas apenas a reivindicação implícita de que a modernidade não é necessária nem desejável”.

Aos adeptos do politicamente correcto, dos que relativizam tudo, aos que acham sempre “fantástico” tudo o que seja multi-étnico, multi-cultural, Darendorf dá algum alento: “Temos que aceitar que há limites para a tolerância. Pôr de parte os valores e costumes das sociedades livres é problemático, mas em última instância aceitável. As manifestações de diferença não agressivas – incluindo o uso do véu por estudantes e professores islâmicos em países de maioria cristã – deveriam ser toleradas”.

E onde pararia essa tolerância? Quando uma mulher islâmica vai a um hospital público e se recusa a ser vista por pessoal médico masculino, aceita-se? E quando uma médica islâmica, quadro de um hospital público, se recusa a ver pacientes masculinos, aceita-se? E quando ela vai tirar o passaporte ou a carta de condução, e só quiser tirar a fotografia de cabelos (ou mesmo de cara) tapados, aceita-se? E o que fazer às dezenas de jovens europeias de famílias islâmicas emigradas, forçadas a casarem-se em uniões arranjadas, muitas vezes com homens que nunca viram e que vivem nos países de origem dos seus pais? E que fazer com as mulheres “repudiadas” pelos maridos, à maneira islâmica, nos países de origem do casal, quando antes se casaram, pelo civil, no país de acolhimento?

E quando a lei islâmica, a sharia, começar a ser imposta na sua totalidade, no seio das comunidades islâmicas a viverem na Europa, como proclamam não poucos imãs em França, na Bélgica, na Grã-Bretanha? Expulsam-se os pregadores que defendem a lapidação da mulher adúltera, como aconteceu recentemente com seis que incendiavam com os seus discursos mesquitas em território francês? E isso não irá ajudar ainda mais ao fecho das comunidades, ao extremismo?

Quando a guerra-fria estava no auge, esquerdistas alemães terão inventado um slogan célebre: “antes vermelho que morto”, aceitando implicitamente a vitória da União Soviética sobre uma Europa sob ameaça nuclear vinda de Moscovo. E hoje, que dirão os filhos dessa quinta coluna? “Antes islamizado, que morto”?.

1 – John Le Carré, in El País Semanal, 9 de Maio de 2004
2- ibidem
3- ibidem
4 – Le Temps, 22 de Abril de 2004
5 – PÚBLICO, 12 de Abril de 2004

Iconografia do tempo - litografia de Salvador Dali à venda


Litografia de Salvador Dalí - 'Mad hatter's tea party' - de edição limitada, produzida por volta de 1984, da série Alice no País das Maravilhas. À venda por 340 libras. Saiba mais aqui.

Há 55 anos... relógio na Estação de Combóios da Nazaré


Estação Ferroviária da Nazaré, revista Turismo, Junho de 1959 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Iconografia do Tempo - Um relógio esculpido na sepultura de Carl Rumker, astrónomo alemão falecido em Lisboa


Existe no Cemitério Britânico de Lisboa aquilo que julgamos ser o único exemplo de iconografia do tempo em arte funerária em Portugal representando um relógio mecânico. No caso em apreço, trata-se da sepultura de Carl Ludwig Christian Rumker (1788 - 1862), astrónomo alemão, nascido em Mecklenburgo. Serviu a Marinha Britânica de 1807 a 1817, foi Director da Escola de Navegação de Hamburgo de 1819 a 1820. Em 1821 foi para a Austrália, Nova Gales do Sul, como astrónomo do observatório construído em Parramatta por Sir Thomas Brisbane. Regressou à Europa em 1830 e tomou conta do observatório de Hamburgo. O seu trabalho principal respeitou à catalogação de estrelas: um catálogo preliminar das estrelas do Hemisfério Sul foi publicado em 1832, em Hamburgo e entre 1846 e 1852 ele publicou o seu grande catálogo de 12 mil estrelas. Devido a motivos de saúde, em 1857 veio viver para Lisboa, não conhecendo nós qualquer actividade sua no domínio científico em Portugal. Morreu a 21 de Dezembro de 1862 na capital portuguesa.



Ostentando no topo um globo terrestre, com linhas meridianas e longitudinais, além de uma banda zodiacal, o túmulo de Rumker contém no seu corpo principal toda uma simbologia científica, com um telescópio, um sextante e um relógio de mesa, marcando exactamente as 3 horas. Terá esta hora algum significado especial? Não sabemos. Sobre a inclusão do relógio, um exemplar de mesa, no conjunto de instrumentação científica, o motivo é claro - as observações astronómicas necessitam de marcadores de tempo, de grande qualidade, para poderem ser acuradas.

Vamos continuar a aprofundar a investigação sobre Rumker (quem pagou o mausoléu, por exemplo, ou quem fez o trabalho escultórico), mas deixamos desde já aqui algumas imagens desta peça de arte funerária tão insólita.





Uma estátua de um anjo, em material diferente do resto da sepultura, aos pés dela, fita o corpo principal do monumento. Qual o seu significado? Não sabemos.

Meditações - tempo, dinheiro, valor


"Tempo não é só dinheiro. Tempo é valor". Campanha de publicidade do Espírito Santo Private Banking (Aeroporto de Lisboa)


domingo, 1 de junho de 2014

Iconografia do Tempo - Pingo Doce


(arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Memorabilia - passe para stand relógios Tissot - Baselworld 2014

No stand da Âncora, na Feira do Livro, autografando obras de Relojoaria


Canícula e criançame no seu dia... pano de fundo para a sessão de autógrafos de hoje à tarde, no stand da Âncora Editora. Da esquerda para a direita, Fernando Correia de Oliveira, e os fotógrafos Manuel Moura e Jorge Correia Santos.


Manuel Moura foi nosso camarada na ANOP, NP e Lusa. Jorge Correia Santos é connosco co-autor de Relógios de Sol (edição dos CTT)


(foto Manuel Moura - isto, tirado por profissionais, é outra loiça...)



A família Patatas (Jorge Pinheiro, a mulher e as filhas - Sociedade de Relojoaria Independente) - e Filipa Correia de Oliveira

Em baixo, duas fotos de Jorge Patatas:




Com o noso editor, António Baptista Lopes, que já nos produziu Relógios & Relojoeiros, Dicionário de Relojoaria e o Relógio da República



Com Rui Ferreira e Sousa (Jaime Rocha), nosso camarada no Público. À esquerda, Vítor Rodrigues, companheiro desde a Faculdade de Direito de Lisboa.


As fotos que se seguem são da autoria de Jorge Correia Santos (e, sim... isto tirado por profissionais, é outra loiça...)





Em 1993, campanha de publicidade dos relógios Breitling distinguida em França


Em 1993, o Grande Prémio da francesa Association pour la Promotion de la Presse Magazine (A.P.P.M) era atribuído à campanha de publicidade da Breitling. (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Milhão e meio de visualizações


"Histórico total de visualizações de páginas 1 500 006", auditoria do Blogger, há segundos...

O relógio Leroy 01, chave para os segredos da Regaleira - ficção inédita de José Movilha


Sobre António Augusto de Carvalho Monteiro temos investigado e escrito regularmente, no que se refere ao seu interesse por relógios, nomeadamente a célebre encomenda que fez à casa francesa Leroy, para um relógio de bolso considerado à altura, final do século XIX, início do século XX, "o relógio mais complicado do mundo".


Ora, o Leroy 01, como é conhecido, e que está hoje no Museu do Tempo, de Besançon, serviu de inspiração a José Movilha, para um conto ainda inédito, de que aqui lhe deixamos o início.


Em cima e em baixo, o Leroy 01, numa exposição recente, no Museu do Tempo, de Besançon



(arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Estação Cronográfica promete que acompanhará o processo criativo de Movilha e disso dará aqui conta - haverá um duplicado do Leroy 01, chave de todos os mistérios?

EM BUSCA DO TEMPO, NUM JARDIM INICIÁTICO ...

( pré-publicação de excerto de conto )

Tudo começou quando o senhor B.A. conhecido filantropo e coleccionador de arte, especialmente de instrumentos antigos de medição do tempo, e relógios raros, me procurou para me agradecer ter-lhe fornecido elementos sobre o que se afirma ser o mais antigo instrumento de medição do tempo. Eu tinha-lhe evitado uma enganosa intenção de compra e o pagamento de uma quantia exorbitante, dado que o vendedor de arte egípcia o Mâlik, com casa aberta na zona chique do Restelo, pretendia que o objecto que transaccionava, remontava à época das antigas dinastias egípcias e tinha um valor altíssimo.Ora o instrumento em causa que realmente existiu no séc. XX a.C. , era no original em madeira, e nunca poderia, por mais bem conservado que estivesse, chegar aos nossos dias. Este, de que falamos, era datado do século XVI e esteve muito em voga no reinado de D. Manuel I , mestre Gil Vicente entretinha-se a fabricar uma réplica deste instrumento e a experimentá-lo nas suas horas diurnas de tomada de apontamentos e vistas ao banho dos Elefantes indianos frente à Casa das Índias, e às maravilhas da onça de caça equilibrada na sela do belo corcel branco oferta do rei de Ormuz a El Rei Venturoso.

Compunha-se o instrumento de duas réguas de madeira, uma horizontal e outra transversal, sendo esta última ligada ao topo da primeira por uma altura de madeira de cerca de um palmo. Colocado o instrumento ( que era amovível e transportável), no chão, projectava uma sombra na régua horizontal onde estavam marcados o nome de cinco horas. Ao meio dia o instrumento ficava preenchido sendo virada a sua posição para a contagem das restantes horas diurnas. O meu cliente tinha ficado muito sensibilizado com a minha atitude de não o deixar fazer um mau negócio, e a partir dessa data consultava-me sempre que almejava adquirir qualquer peça de raro valor cultural e histórico.

Ora desta vez o objectivo que o meu cliente me pedia era o de localizar e comprar por qualquer preço o célebre Leroy 01, o mítico e precioso relógio que Augusto Carvalho Monteiro, o edificador dos Jardins Iniciáticos e do Palácio da Quinta da Regaleira, tinha em 1897 mandado fazer em Bençason na célebre "horlogerie" de mestre Leroy.

Esta obra prima, o mais famoso relógio do mundo à data, tinha custado 20.000 francos, quatro anos de trabalho intenso para o finalizar . O relógio ganhou o grande prémio da Exposição Universal de Paris em 1900.

No ano seguinte aquando de uma visita do rei D.Manuel II , também ele cliente da casa Leroy, foi pedido ao monarca a gentileza de ser portador da peça para entrega a Carvalho Monteiro, o que o rei aquiesceu pois o abastado homem de negócios era visita do Paço.

Disse ao meu cliente( e penso de que ele saberia do que ia falar-lhe): "que o relógio estava no Museu do Tempo em Besançon, pois tinha sido adquirido aos herdeiros de Carvalho Monteiro em 1955". O meu cliente sorriu misteriosamente, e disse-me: " isso é o que as pessoas que vivem no tempo do dia a dia pensam, a realidade é outra "...

"Foram feitos dois relógios, iguais como duas gotas de água, indistinguíveis até por especialistas da matéria; só que um deles considerado o original (isto é uma confidência a que peço o maior sigilo e resguardo e só lha revelo por ser também um iniciado), tem na caixa em ouro desenhada por Manini e cinzelada por Bodin em Paris, uma diferença de um grau entre os signos do Carneiro e do Touro, e uma combinação criptográfica que accionada ao mecanismo de uma das suas várias propriedades refere o céu no hemisfério boreal, no momento do dia, indicando o transito sideral, o que resulta que avançando 3' e 56'' por dia sobre o tempo médio teremos uma representação do céu de Lisboa com 560 estrelas, o que permite ficar na posse da coordenada estelar da qual se pode tirar o azimute para o local onde, nos Jardins Iniciáticos, estão guardados os arquivos secretos da Regaleira.

E possivelmente, tudo indica, os livros codificados: o Livro Secreto da Crisopeia dos últimos Mestres Rosacruzes ; o Confessio, a Fama Fraternitatis e as Bodas Químicas de Chistian Rosenkreutz, a par de outros tesouros de raridade esotérica ". Eu olhava com profunda atenção para o meu cliente e interlocutor, dando-lhe o maior crédito, pois sabia que ele era Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e já tinha passado pelos maiores cargos na vetusta e prestigiada Ordem que seguia os preceitos de Hiram Abiff.

E continuou B.A. :" não lhe parece estranho que nunca fossem encontrados documentos sobre a edificação da Regaleira, planos, esboços, medidas, planeamento da escolha de símbolos, orientações astrológicas ? E que tudo, ou quase tudo que existe, na " Library of the Congress" em Washington D.C., espólio comprado aos herdeiros nos anos trinta do séc.XX, se refira somente a alguns interesses esotéricos de Carvalho Monteiro ? Nada sobre jardins e criptas, especialmente criptas, medidas do edificado e levantamento do subsolo dos jardins!...Que haja percursos como a gruta iniciática que parecem dizer que para além daquelas pedras há outros segredos ? Pois bem!... Isto não é mais do que o início de um processo que nos vai abrir as portas do tempo em relação aos mistérios do Palácio da Regaleira e seus percursos iniciáticos.

Durante o fim da tarde e a noite pensei em tudo isto com profunda reflexão.Claro que esta missão me cativava e não me era estranho os meandros da sua envolvência, pois não só tinha alguns elementos sobre a aprimorada máquina do tempo, como todo o complexo dos Jardins Iniciáticos o do Palácio da Regaleira faziam parte das minhas pesquisas esotéricas.

Coloquei então em vários jornais de grande circulação um anuncio redigido de uma forma algo misteriosa, com o propósito de afastar os profanos, e por outro lado despertar o interesse de quem soubesse destas matérias. Dizia assim: «EXPERIENTE COLECCIONADOR DE RELÓGIOS DE TODAS AS ÉPOCAS E ESTILOS, PRETENDE ADQUIRIR RELÓGIO PREMIADO NA GRANDE EXPOSIÇÃO UNIVERSAL DE PARIS (1900). SE PEÇA AUTENTICA MUITAS PROBABILIDADES DE NEGÓCIO DADA A GENEROSIDADE DO COMPRADOR. PEDE-SE AINDA O FAVOR DE QUE NÃO RESPONDA QUEM TENTAR QUALQUER SIMULAÇÃO DA PEÇA ORIGINAL.»

Resposta a - Beatriz - 515 - il Velttro

Coloquei propositadamente no fim, enigmática frase de resposta, serviria de alguma selecção, que seria entendida por cultores dos estudos esotéricos da Regaleira, e passaria despercebida aos profanos nestes assuntos. Passados alguns dias levantei do apartado, volumosa correspondência que me apressei a abrir.

Da banalidade do acervo epistolar se iam fazendo as horas, e já desesperava de qualquer validade e interesse, quando abri uma das poucas cartas que restavam: numa caligrafia fina e de traça algo medieva, podia ler-se o seguinte: « AO QUARTO DIA DO SOLSTÍCIO, NA HORA MAIOR, DIRIJA-SE JUNTO AO ZIGURAT ; DEPOIS NO BANCO QUE LEMBRA BEATRIZ, ENTRE O 515 E OS GALGOS, ENCONTRARÁ O TEMPO DA SUA PRETENSÃO» «Calmo na falsa morte a nós exposto,/o Livro ocluso contra o peito posto,/ Nosso Pai Roseacruz conhece e cala»

MESTRE DO TEMPO - ABRAXAS

Não obstante alguma dúvida sobre a missão de que estava encarregado, bastaria o cunho desta resposta missiva, com uma clara alusão ao poema de Fernando Pessoa - No Túmulo de Christian Rosenkreutz, "conhece e cala", para me despertar o interesse de aceitar o desafio e estar presente nos Jardins Iniciáticos da Regaleira, nesse quarto dia depois do Solstício às 12 horas, junto ao Zingurat.

Quase no destino, a brisa de Sintra era cativante e era exuberante e promissora de acariciar a verdejante paisagem de hortênsias que se misturavam como em paleta de aguarelas que ladeavam os metros finais da estrada.

Entrei pelo lado do Patamar dos Deuses, parava sempre um pouco entre Orfeu e a Fortuna, caminhando dirigi-me depois em direcção ao Zigurat no Terraço dos Mundos Celestes, o silêncio era absoluto, só os pássaros se ouviam, se entendesse a sua linguagem poderia passar a outros patamares da iniciação. Possivelmente estava a ser observado. Dirigi-me para o banco de pedra, gravado com os símbolos «515» ou IL messo di Dio(« O Mensageiro de Deus»), il Velttro, os galgos vigilantes que ladeiam a figura de Beatriz a condutora /iniciadora de Dante, o anuncio do Tempo da Terceira Idade, a do " Evangelho Eterno". Ao centro do banco, por debaixo da figura, um saco de couro, propositadamente meio aberto, deixava ver o que parecia um objecto metálico. Bani toda a ansiedade possível e peguei no objecto, era uma ampulheta muito bela, talvez tão bela como as de Alepho ou as de Solimão. Curiosamente não estava em contagem e os seus cristais permaneciam inertes na parte superior.

O espaço foi cortado pelo grasnado de um corvo, o pássaro da vigilância. Eu ansiava chegar ao meu laboratório para sossegadamente apreciar aquele artefacto do tempo. "Como teria apreciado o meu misterioso e oculto interlocutor os meus gestos ? Seguramente teria seguido os meus passos e todos os meus movimentos". - pensei, enquanto já no laboratório observava aquele tão antigo objecto de medição do tempo.

Curiosamente os cristais de uma cor verde marinho não se desprendiam independentemente de eu os fazer agitar um pouco. Reparando melhor na cinta de latão da parte superior vi entalhados vários símbolos entre o anel que parecia rodar e a parte de baixo, propus-me alinhá-los e quando tal aconteceu suavemente começou a contagem. Satisfeito, esperei, pensando em tudo o que tinha acontecido nessa tarde. De tal maneira entretido a olhar o horizonte, desviei durante muito tempo os olhos da misteriosa descoberta.

Um ligeiro cheiro perfumado, que me pareceu olíbano parecia vir do objecto. A medição daquele tempo estava esgotada. Qualquer mecanismo tinha actuado junto aos anéis superiores abrindo-se umas ranhuras em forma de triângulo por onde se desprendia a fragrância, ocorreu-me à lembrança as misteriosas lanternas Rosacrucianas que se mantinham acesas durante séculos no interior das Criptas.

Peguei na parte superior, e então aquela espécie de tampa desprendeu-se pondo a descoberto o que parecia um pequeno rolo de pergaminho.

Peguei-lhe trémulo, desdobrei-o, uma letra semelhante ao manuscrito da resposta, dizia: « ABOMINAÇÃO DESOLADORA do Profeta Daniel , SERÁ O FIM DESTE TEMPO E O PRINCÍPIO DE OUTRO , PROCURA NA CIDADE ONDE REPOUSA AQUELE QUE DESENHOU A CAIXA DO QUE PROCURAS - Festna Lente( Apressa-te devagar) - MESTRE DO TEMPO - ABRAXAS

Não havia dúvidas, a mensagem era clara, seriam porfiados os tempos de procura e indagação que conduziam a Bréscia na Itália, onde havia um vasto acervo de Manini, que talvez dissesse muito sobre os segredos do Leroy 01 e os arquivos secretos.

Até lá, o generoso patrocinador da busca do Leroy 01 e interessado mecenas, o senhor B.A, teria, como na divisa da mensagem, de apressar-se devagar e com o maior dos porfiados cuidados.

José Movilha

Janela para o passado - brasões dos municípios alentejanos, 1956


Almanaque Alentejano, 1956

Junho - A ideia de Europa no século XVIII, in Calendário Celebração do Tempo



Meditações - Dia da Criança

A criança deveria
todo o ano ser lembrada
e não apenas um dia
que pouco é mais do que nada!

João de Castro Nunes

Iconografia do tempo - minutos de descontos no El Corte Inglés