Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

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terça-feira, 22 de abril de 2025

Memórias de um jornalista - a propósito da maior exposição alguma vez feita sobre a figura de Francisco Sá Carneiro

A 14 de Março de 1976, o Partido Popular Democrático realizava no Porto, mais propriamente na escadaria dos Paços do Concelho, sobranceira à Avenida dos Aliados, um comício, no contexto das eleições que se realizariam a 25 de Abril desse ano, para eleger, pela primeira vez, os seus representantes na Assembleia da República, o novo órgão legislativo do regime democrático que então dava os primeiros passos. E depois das eleições disputadas, um ano antes, para a Assembleia Constituinte.

No comício do Porto, a figura principal era Francisco Sá Carneiro, natural da cidade, opositor na chamada Ala Liberal ao regime do Estado Novo, fundador e líder do PPD (hoje PPD / PSD) no pós 25 de Abril de 1974.

Nas fotos, extraídas do livro "Sá Carneiro", da autoria de Alfredo Cunha e Luís Vasconcelos (Cognitio, 1981), além do líder do PPD e de outros dirigentes do partido, aparece um jovem jornalista, dos quadros da agência noticiosa nacional, a ANOP (anteriormente ANI, posteriormente NP e, hoje LUSA).

Recordamos aqui, 49 anos depois, este comício, aproveitando a exposição que a Câmara Municipal do Porto, em parceria com a Biblioteca e Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira, leva a efeito por este dias, exatamente nos Paços do Concelho da cidade.

Juntamos mais duas fotografias, respeitantes à atividade da ANOP e dos seus jornalistas, onde Sá Carneiro é a figura central.


A 13 de Novembro de 1980, na Assembleia da República, Maria Antónia Palla vende o jornal de greve dos jornalistas a Sá Carneiro

O jornalista Rui Pimenta, já falecido, com Sá Carneiro, em Ferreira do Alentejo, também em 1980

O cartaz da exposição

O depoimento de José Pacheco Pereira:

Em 2009, fui contactado por Conceição Monteiro que me perguntou “se eu queria uns papéis de Sá Carneiro”. Disse logo que sim, convencido que era uma pasta ou duas. Quando fui pela primeira vez a casa onde se encontrava o Espólio verifiquei que era o seu arquivo pessoal contendo documentos fundamentais sobre a história da democracia portuguesa, do PSD, e dos governos da AD, centrados na figura de Francisco Sá Carneiro, desde a década de 70, ainda em ditadura, até à sua morte em 1980. Conceição Monteiro, uma personalidade fundamental da história do PSD, quer como secretária pessoal de Sá Carneiro, militante, dirigente partidária e deputada, acompanhou de perto todo o processo de fundação do partido e os anos difíceis da sua implantação e afirmação na vida política nacional. Nesse contexto de dificuldades, instabilidade e risco, Francisco Sá Carneiro confiou a Conceição Monteiro muito do seu próprio arquivo pessoal, que esta organizou e classificou, permanecendo “escondido”. O arquivo doado representa cerca de 12 metros lineares de documentação, quase toda organizada em pastas de arquivo e em pastas por assunto, havendo apenas uma muito pequena parte que se encontrava dispersa, coincidindo com a data da sua morte, uns dias antes, uns dias depois.

A exposição que vamos inaugurar é também uma homenagem mais que merecida a Conceição Monteiro que, para a sua preparação, ofereceu mais materiais que não estavam incluídos na entrega inicial, e que vão melhorar o conhecimento da acção de Sá Carneiro e os primeiros tempos do PPD. Num momento em que os partidos não cuidam da sua memória, no caso do PSD foi a atitude de alguns dos seus militantes fundadores, e eles próprios testemunhas directas de muitos acontecimentos, que permitiu conhecer melhor a história portuguesa dos últimos 50 anos.

Tem, por isso, todo o sentido que a CM do Porto e o seu Presidente Rui Moreira, tenham incluído esta exposição nas comemorações do aniversário do 25 de Abril.

O comunicado de imprensa da CM do Porto sobre a exposição “Francisco Sá Carneiro e a construção da democracia”, organizada pelo Ephemera, onde somos voluntário, coordenando os Núcleos do Tempo e da Gastronomia:

Porto celebra valores de Abril com exposição inédita sobre a vida e legado de Francisco Sá Carneiro

A exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia” integra as comemorações do 25 de Abril da Câmara Municipal do Porto. Fruto de uma parceria entre o Município e a Associação Cultural Ephemera, a mostra vai revelar documentos, até agora inéditos e reservados, sobre a vida pública do fundador do Partido Popular Democrático (PPD). Estará patente de 23 de abril a 30 de junho, no Átrio dos Paços do Concelho. A entrada é livre.

 Com a curadoria e textos de José Pacheco Pereira, a exposição irá abordar a vida pública de Francisco Sá Carneiro, desde a sua origem até à sua morte, estabelecendo-se em três grandes núcleos temporais e documentais: antes do 25 de Abril, do período revolucionário até à consolidação do regime democrático e, por fim, o legado político do fundador do PPD.

Com esta narrativa cronológica, a mostra expositiva vai desvendando documentos inéditos pertencentes ao espólio de Sá Carneiro e a militantes e dirigentes do partido. Tratam-se, na sua maioria, de manuscritos, correspondência, notas de reuniões, agendas pessoais, policopiados, livros, entre outros. Serão igualmente exibidos materiais iconográficos originais, cartazes, desenhos, autocolantes, objetos e bandeiras.

Na mais completa exposição jamais feita sobre o político, que perdeu a vida na queda de um avião, a 4 de dezembro de 1980, em Camarate, os elementos exibidos trarão à tona o pensamento e ação do antigo Primeiro-Ministro português, bem como o seu relacionamento com os principais atores no plano nacional e internacional à época.

A ação política antes do 25 de Abril, a construção do PPD, a escolha das figuras que com ele participaram nesse projeto político, o programa, o nome, os estatutos, a definição de estratégias e o seu próprio percurso enquanto figura pública, serão os temas em destaque.

Com inauguração marcada para o dia 23 de abril, a exposição poderá ser visitada no Átrio da Câmara Municipal do Porto até 30 de junho, de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas, e aos sábados e feriados das 10 às 19 horas.

Espólio conservado pela secretária pessoal de Francisco Sá Carneiro

Foi em dezembro do ano passado que o Município do Porto e a Associação Cultural Ephemera revelaram estar a organizar uma exposição sobre a vida de Sá Carneiro, que vai ser dedicada a Conceição Monteiro - secretária pessoal de Sá Carneiro, que conservou grande parte dos documentos, pela primeira vez revelados ao público - e à memória de Miguel Veiga (1936-2016).

O arquivo doado ao Ephemera representa cerca de 12 metros lineares de documentação, quase toda organizada em pastas de arquivo e em pastas por assunto, havendo apenas uma muito pequena parte que se encontrava dispersa, coincidindo com a data da sua morte.

Notáveis na Comissão de Honra e na conceção do projeto expositivo

A Comissão de Honra da exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia” é constituída pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pelo Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, pelo fundador do PPD e antigo Primeiro-Ministro, Francisco Pinto Balsemão, pelo antigo Ministro do Trabalho e Segurança Social social-democrata, Amândio de Azevedo, pelo antigo secretário-geral do PSD, António Capucho, pela secretária de Francisco Sá Caneiro, Conceição Monteiro, pelo histórico fundador do PSD, Pedro Roseta, e por Manuela Aguiar, membro do Governo da AD.

A estes nomes juntam-se personalidades reconhecidas do meio político e académico nacional, que deram igualmente o seu contributo para a realização desta exposição. São elas o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, António Tavares, o ex-chefe do Gabinete do Presidente da Câmara Municipal do Porto e docente universitário, Vasco Ribeiro, e os sociais-democratas Palmira Lobo e Francisco Freitas Carvalho.

A equipa da Associação Cultural Ephemera participa também na conceção e montagem do projeto.

Francisco Sá Carneiro teria completado 90 anos em 2024. O Porto foi a cidade berço do político, nascido na Rua da Picaria, em 1934.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ephemera - a festa de 10 anos aos papéis


(Fotos Rui Serrano, Estação Cronográfica e Teresa Lage)

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou recentemente a Associação Cultural Ephemera, um projecto do historiador José Pacheco Pereira. Isto numa altura em que foi inaugurado no Barreiro um segundo armazém de tratamento dos materiais que vão chegando de todo o país.

Entre os Núcleos já criados, está o dedicado ao Tempo. Somos um dos voluntários a trabalhar no projecto, sendo o Curador dos Núcleos do Tempo e... da Gastronomia.

Quanto ao Tempo, reforçamos o apelo que já aqui fizemos. Não deite nada fora! Doe ao Ephemera.

Sem sermos exaustivos, e quanto ao Núcleo do Tempo, há interesse em:

Agendas
Almanaques
Calendários
Capas de livros, discos, etc (com relógios)
Catálogos e outro material das marcas relojoeiras
Fotos (com relógios)
Horários (de caminhos-de-ferro, barcos, etc., mas também de comunidades laicas ou religiosas)
Livros de gnomónica
Livros de relojoaria
Material sobre Congressos, seminários e outros eventos científicos sobre o Tempo
O Tempo na Biologia
O Tempo na Ficção (tipo A Máquina do Tempo, Volta ao Mundo em 80 Dias, Alice no País das Maravilhas, etc.)
O Tempo na Física
O Tempo na Pintura e Escultura
O Tempo na Poesia
O Tempo na Sociedade (tempos de luto, de jejum, de trabalho, de lazer, das redes sociais, sociologia do Tempo) O Tempo no Cinema
Postais (com relógios)
Publicidade (relacionada directamente com as marcas, mas a que usa também relógios, ampulhetas e outros conceitos de Tempo) Relógios mecânicos, de quartzo, de sol, clepsidras, ampulhetas
Revistas de relojoaria
Toda a documentação e memorabilia de marcas relojoeiras, ourivesarias, joalharias, relojoarias, incluindo material de montra descontinuado.


Foto de grupo, no Armazém 1, com Marcelo Rebelo de Sousa


Na rua onde se encontram os armazéns 1 e 2, no Parque Industrial Baía do Tejo. Com Maria Emília Brederode Santos, uma das doadoras do Ephemera


Depois de uma visita ao armazém 1, Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu-se ao armazém 2, para a sua inauguração


Junto do grafitti pintado em frente do novo armazém, com George Orwell e uma citação dele: "Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado". É tudo uma questão de memória e da sua preservação





Algum do material do Núcleo do Tempo que, à medida que vai chegando ao Barreiro, é separado, catalogado, arrumado e colocado online, disponível para consulta e investigação




Marcelo Rebelo de Sousa troca impressões junto ao Núcleo do Tempo




No meio de corredores carregados de material recolhido pelo Ephemera, José Pacheco Pereira, fundador do projecto, vai explicando tudo ao Presidente da República. Em baixo, Luís Pinheiro de Almeida, especialista em música Pop, é um dos Curadores e explica a Marcelo Rebelo de Sousa, seu colega na Faculdade de Direito, a área que coordena



Poster de Eduardo Aires alusivo aos 10 anos do Ephemera e aspecto dos corredores




Durante a inauguração do armazém 2, que contou também com a presença do General Ramalho Eanes, antigo Presidente da República



A Associaçao Cultiural Ephemera foi condecorada pelo Presidente da República como Membro Honorário da Ordem de Mérito

O Manifesto do Ephemera, de José pacheco Pereira, distribuído a 22 de Fevereiro, no evento de inauguração do armazém 2:

O Arquivo-Biblioteca Ephemera há dez anos que “anda aos papéis”. Tem mais de 200.000 títulos de livros e brochuras, dezenas de milhares de periódicos, vários milhares de cartazes, posters, imagens, faixas, outdoors, panos, cartazes artesanais de manifestações e de protesto, fotografias, milhares de objectos, centenas de milhares de panfletos, folhetos, tarjetas, etc., milhares de emblemas e pins, dezenas de milhares de autocolantes, mais de 6 quilómetros lineares de estantes e armários. Compreende um conjunto de espólios, colecções e acervos único pela sua dimensão e pela importância dos seus fundos, sendo, sem dúvida, o maior arquivo privado em Portugal e um dos maiores da Europa.

É uma colecção nacional e internacional com cerca de 100 países representados, embora este número, nalguns casos, seja pouco mais do que um pin. Mas há boas colecções de Espanha, da Irlanda, do Brasil, dos PALOP, etc. e, dado que não existe paralelo em arquivos nacionais, é o único sítio onde, por exemplo, um estudioso da propaganda política pode encontrar cartazes eleitorais do Irão ou da Colômbia, de Angola ou da Noruega. Tudo isto se encontra em seis casas adaptadas e um armazém na Vila da Marmeleira, dois armazéns no Barreiro e mais depósitos nos nossos locais de recolha. Neste momento, há postos de recolha em Viana do Castelo, Porto, Lamego, Guarda, Coimbra, Figueira da Foz, Santarém, Lisboa, Barreiro, Lagoa, e nos próximos meses abrirão Viseu, Portalegre, Leiria, Braga. Há dois locais de recolha fora de Portugal, no Luxemburgo e em Luanda, em Angola.

O impacto público do Arquivo é considerável. Estão publicadas online mais de 24.000 pastas de documentação, com mais de 100.000 imagens e textos, quer no blogue e no site Ephemera, quer na página do Facebook que divulga as publicações e as actividades do arquivo, quer no canal do YouTube (311 vídeos). Nas redes sociais há quase 15.000 seguidores (cerca de 10.023 no facebook + 4.941 no twitter), e mais de 4.000.000 visitas ao blogue. Os filmes produzidos em colaboração com a TVI24, de que já foram exibidos 45 episódios, têm boas audiências. Exposições organizadas pelo Arquivo tiveram milhares de visitantes, em Viana do Castelo, Porto, Óbidos, Coimbra, Lamego, Ponte de Sor, Torres Vedras, Barreiro, Lagoa, Condeixa, Lisboa, Barreiro, etc. Vários livros, artigos e trabalhos académicos usaram materiais do Arquivo, no qual estão a decorrer actualmente várias investigações. Artigos e reportagens na imprensa portuguesa e espanhola foram feitos sobre o Arquivo e os seus fundos. Em colaboração com a editora Tinta da China existe uma colecção gerida pelo Arquivo com sete livros publicados, e estão editados três Cadernos do Ephemera, com edição da Associação Cultural Ephemera.

O arquivo é gerido pela Associação Cultural Ephemera, uma associação cultural sem fins lucrativos fundada em 2017, à qual foi reconhecida a utilidade pública em 2019. A Associação tem hoje cerca de 300 associados. Foram assinados protocolos de colaboração com o Museu de Lamego, a Câmara Municipal do Barreiro, a Baía do Tejo, a Direção-Geral do Património Cultural (relativamente ao Museu Nacional Resistência e Liberdade), e outros estão em fase de assinatura.

O Arquivo tem uma prioridade: salvar, salvar, salvar tudo o que faz parte da nossa memória colectiva. Depois de salvar há que conservar, organizar, inventariar, disponibilizar, investigar, publicar. Toda esta sequência é importante, mas primeiro há que salvar e, embora não pareça, nem sempre esta é a prioridade noutros arquivos. Acreditamos que, aconteça o que acontecer, salvo a peste, a fome e a guerra, o que cá entra está mais seguro do que o que fica em casa, que o interesse ou a falta dele, os recursos ou a falta deles, a morte, os divórcios, as mudanças de casa, ou os dias de destruição colectiva como as segundas-feiras depois das eleições, ajudam a eliminar. E todos os dias milhares de fragmentos da nossa memória colectiva desparecem, cartas, fotos, papéis, manuscritos, objectos, cartazes. Daí uma política activa de recolhas, assente numa pedagogia da memória (que compreende os programas de televisão, artigos, palestras, exposições, etc.), numa rede fina de recolhas por todo o país e fora dele, e na acção dos voluntários assente no lema “não deite nada fora”. Não se preocupem, nós, se for caso disso, deitamos.

O Arquivo é omnívoro, come de tudo. Compreendemos que tal não possa ser feito pelos grandes arquivos, que têm que ser selectivos, mas a nossa experiência diz-nos que surge sempre alguma coisa de único no que recebemos, mesmo que se perca mais tempo na triagem. Foi assim que encontrámos uma fotografia original de Camilo Pessanha, um diário de uma herança, uma humilde carta de amor, milhares e milhares de “cunhas”, uma gravação feita às escondidas de uma reunião importante, ou uma pilha de manuscritos escondidos da Pide dentro de jornais. Sabemos que seria loucura pensar que podíamos ter tudo, mas tentamos. É, digamos, uma forma mais mansa de loucura. É uma humana forma de lutar contra o esquecimento, ou seja, a morte.

O Arquivo é holístico, não é parcial e disperso, mesmo que pareça sê-lo. Comunica com uma biblioteca e uma espécie de museu, ao estilo da “rapid response collection” do Museu Victoria e Alberto. São coerentes entre si e servem-se um ao outro. Do comunicado à lona de um outdoor, à fotografia de uma acção de rua, ao vídeo de uma intervenção, ao “brinde” eleitoral, podemos construir o contínuo de imagens, textos, acções, de que se faz a intervenção activista na sociedade, a ecologia do protesto ou, mais prosaicamente, e a vida quotidiana das pessoas.

O Arquivo é patrimonial, físico, biológico, analógico. Parte é também digital, mas é a materialidade das coisas que consideramos mais importante, mais conforme com os nossos sentidos e até, em muitos casos, mais duradouro. Vive do papel, do cartão, do tecido, da lona, do barro, do metal, antes, durante e depois dos electrões. O Arquivo faz parte de uma “cultura do papel”, que não vive da nostalgia, nem das saudades do pó dos livros ou do cheiro do papel, nem se afirma melhor do que a cultura digital. Afirma-se diferente. E nas suas diferenças é, às vezes, único e, para certas tarefas humanas, melhor.

O Arquivo não compete com outros arquivos, nem com nenhuma outra iniciativa ou instituição do mesmo género. Quando nos perguntam o que fazer a um espólio ou acervo, explicamos as vantagens e inconvenientes de o entregar a um outro arquivo ou ao nosso. Quando temos colecções que completam as de um outro arquivo, estamos sempre disponíveis para as trabalhar ou disponibilizar em conjunto. A tarefa de fazer uma rede da memória é colectiva e ganha com a diversidade de olhares e experiências.

O Arquivo pertence àquilo a que se chama “sociedade civil”. É autónomo, independente, e pertence aos que nele trabalham e à Associação que o gere. Não temos o fetichismo do público como a melhor forma de salvaguardar o património colectivo. Conhecemos bem demais muitas instituições públicas que, por falta de recursos ou de dinamismo, estão efectivamente mortas e que custam muito dinheiro a manter. O Arquivo funciona melhor, salva mais, organiza mais, inventaria mais, publica mais do que muitos arquivos públicos com orçamentos cem vezes maiores. Fazemos coisas que ninguém faz, nem ninguém conseguiria fazer. Um exemplo, foi o acompanhamento das eleições autárquicas de 2017 em que cerca de 1600 campanhas locais foram objecto de recolha a nível nacional. Mesmo assim, é pouco mais de metade.

O Arquivo tem uma identidade própria e, por isso, entendemos que é errada a excessiva centralização de todo o património da memória num só arquivo, perdendo-se muitas vezes a identidade da sua fundação, do seu fundador, dos seus fundos, do estilo dos que nele trabalham, e do olhar que transportam sobre a memória. Não há dois olhares iguais, não se dá a importância às mesmas coisas, não se guardam as mesmas coisas.

O Arquivo vive dos grandes e dos pequenos, dos principais e dos secundários, nada do que é humano nos é alheio. Por isso tem espólios relevantes para a história portuguesa (Sá Carneiro, Sousa e Castro, Vitor Crespo, Nuno Rodrigues dos Santos, Hattenberger Rosa, colecção da Direita Radical, revista Mundo da Canção, José Fonseca e Costa, movimento estudantil, vários sindicatos, Pedro Ramos de Almeida, comandante Covas, etc.) e uma correspondência amorosa entre uma costureira e um empregado de escritório, ou os papéis de personagens secundárias da ditadura. A nossa experiência mostra que muitas personagens tidas como secundárias são muito mais importantes do que o que parecem.

O Arquivo é sustentável. Sustentável para que não nos aconteça o que aconteceu a outros, criando-se uma desconfiança sobre os arquivos privados e o seu papel diferenciado dos arquivos públicos. Vive das contribuições dos seus associados, neste momento cerca de 300, e é uma regra básica para nós nunca gastarmos para além dos recursos que temos, nem termos despesas fixas acima das nossas possibilidades. Por isso, quem quiser ajudar-nos, pode e deve associar-se e pagar uma quota conforme as suas possibilidades.

O Arquivo é o resultado de uma actividade de amadores, com todas as vantagens e inconvenientes dessa circunstância. Por isso é visto com alguma compreensível desconfiança por parte de alguns profissionais, uns de boa-fé, outros que estão à frente de arquivos mais mortos do que uma múmia e que se ressentem do nosso dinamismo. Não cumprimos todos os standards e as melhores práticas, por falta de conhecimento e de recursos. Mas estamos a aprender depressa, e muito do que fazemos já tem em conta as regras arquivísticas. Por exemplo, temos práticas de conservação bastante eficazes, controlo da temperatura e humidade relativa, controle de pragas, etc. Digitalizamos com a resolução recomendada para os arquivos, e as nossas bases de dados são feitas de modo a serem exportadas para software mais profissional, sem se perder o trabalho anterior. Seguimos as regras de prudência, confidencialidade e protecção de dados, quando tal se justifica. Mas não nos consideramos peados pela regulação burocrática europeia, com enormes absurdos, por exemplo, quanto aos direitos de autor, o que está a permitir a algumas firmas rapaces registarem milhares de documentos, anúncios, imagens, etc., como sendo suas, e que assim passam de “órfãos” a terem uns “pais” que fazem negócio com o registo de paternidade. Não as seguimos porque não concordamos com elas e porque prejudicam, e muito, a divulgação pública, por exemplo, na Internet, de informação de interesse público. E vamos evoluir, quer do ponto de vista da organização do que temos e do que vamos recebendo, quer do ponto de vista tecnológico, sempre com a ajuda e contributo dos nossos amigos. Possuímos já uma pequena estrutura administrativa, um embrião de departamento editorial, uma pequena equipa que prepara exposições, voluntários tendencialmente responsáveis por áreas, como a música, a fotografia, a arte, a literatura, o desporto, o “tempo”, a gastronomia, ou espólios concretos, uma eficiente logística que se ocupa das recolhas, das arrumações, das compras, etc, etc

O Arquivo vive dos seus voluntários, a sua força e capacidade de realização vem dos cerca de 150 mulheres e homens, em todo o país e não só, pois temos os nossos fiéis amigos Espanhóis, Irlandeses e portugueses a viverem nos mais diversos países, que dedicam parte do seu tempo e esforço a recolher papéis, a salvar espólios, a fotografar campanhas, a ir a manifestações, a registar tudo, a inventariar documentos, a digitalizar, a fazer trabalho físico, como se diz no cartaz, “se acha que o trabalho intelectual é leve, venha trabalhar connosco”. Nem sempre é fácil, há quem não queira ser fotografado mesmo estando numa manifestação pública, há quem fique desagradado pelo que documentamos do “interior” da acção política, há quem ache que um Arquivo desta natureza deve ter anátemas e censuras, - por exemplo, não recolher elementos sobre a direita radical -, há quem corra riscos para mostrar o que está acontecer. Por exemplo, suportar o gaz lacrimogénio e as cargas da polícia para mostrar como são as manifestações dos Gilets Jaunes em Paris.

O Arquivo não depende das circunstâncias da sua formação, nem da vida do seu fundador. É hoje um trabalho de uma equipa completamente capaz de lhe dar continuidade. E tem plano B. E, se for preciso, tem plano C. No entanto, precisa de ter um enquadramento institucional que em Portugal não existe, nem em muitos países europeus, mas que existe na tradição anglo-saxónica. Precisa de uma nova lei que compatibilize a solidez patrimonial das fundações com a flexibilidade das associações culturais sem fins lucrativos, que permita manter o património seguro e usar a grande força do trabalho voluntário e da dedicação pro bono. Precisa também de uma lei das fundações que não seja feita a pensar no fisco, nem nas grandes fundações, mas seja amigável com as pequenas e médias que estão em extinção. E que efectivamente puna as fundações fraudulentas que estão a ocupar indevidamente o espaço cívico de quem está a dar a todos aquilo que era privado. Precisa, naturalmente, de mais recursos, e, para isso, conta com as contribuições dos associados.

Por tudo isto, mais do que um arquivo e uma biblioteca, o EPHEMERA é um movimento, um movimento pela memória, logo, um movimento pela democracia.

Sejam bem-vindos ao EPHEMERA e obrigado.

sábado, 8 de junho de 2019

In Illo Tempore - texto de apresentação do novo livro do Luís Pinheiro de Almeida


In Illo Tempore *

Eu de Beatles, percebo pouco. Do Luís, acho que sei alguma coisa. Vamos ao livro

A primeira carta tem data de 15 de Julho de 1964

A última, é de 13 de Abril de 1966

Um período de quase dois anos que acompanha a transição do Liceu para a Faculdade de Direito

Diz Marcelo Rebelo de Sousa:

"Luís Pinheiro de Almeida foi um dos mais destacados colegas da minha turma de 1966, na Faculdade de Direito de Lisboa. Dirigente associativo com vocação liderante, juntava ao seu militantismo político um conjunto de qualidades humanas que o convertiam num bom amigo, num magnífico companheiro de caminhada, num alegre, imaginativo e mesmo endiabrado dinamizador da minha geração.

"Tínhamos posições muito diversas, então, sobre milhentas matérias, mas unia-nos essa sua personalidade envolvente, sempre disponível para se dar aos outros e buscar a felicidade nas mais pequenas coisas da vida.

"Admiro essa tua maneira de não envelheceres. Encontrando nos Beatles uma forma de continuar a sonhar como sonhavas há meio século…"

“Sozinho, isolado na capital, com todos os meus amigos em Coimbra, senti-me «exilado» (ainda hoje me sinto)”, diz o Luís neste livro. “Um dos meus maiores desgostos foi não ter feito Direito por Coimbra”, confidenciava-nos há dias.

O seu amor à Briosa fez com que voltasse a ser sócio (era o nº 1.718 em 1958, quando tinha 11 anos, agora é o nº 6.510).

Parafraseando o livro de memórias publicado por Trindade Coelho em 1902, In Illo Tempore, sobre a boémia universitária coimbrã, este conjunto de cartas é um In illo tempore de há mais de meio século de um conimbricense sobre a capital.

Sabemos que as cartas do Luís eram devoradas linha a linha pelos amigos em Coimbra, que as conversas e sessões de música debaixo de um sobreiro centenário continuaram depois da partida dele para Lisboa.

Há algum vernáculo usado na produção epistolar do Luís, que com algum humor coloca um círculo vermelho na capa do livro.

Daqueles tempos, e referidos na produção epistolar do Luís, registamos:

A camisa com bolso na manga, para o maço de tabaco.

As botas à Beatles. Explica o Luís que têm um fecho éclair na parte de dentro. “Dessas não há cá à venda. São do catano”. “Em Lisboa estão-se a usar muito as camisolas de gola alta. Também vou comprar uma”.

Voltando às botas, “Já cá há e há muito tempo dessas botas dos Beatles, mas só na montra das sapatarias, pois ninguém as compra”.

A ida a Londres de algum conhecido, que trazia os discos que cá não havia.

A ida às estações de rádio – Renascença, Rádio Club Português, Rádio Universidade – para aí levar os discos, a ver se eram passados.

O convívio com os nomes da rádio pioneiros em programas de música pop/rock.

O telefonar para as estações de rádio, para os chamados programas de discos pedidos.

A participação em concursos radiofónicos, para ganhar discos ou bilhetes para concertos.

O Luís, já na Faculdade, foi à Rádio Universidade, falar das festas dos caloiros. Foi avisado de que não poderia dizer a palavra “baile”, apenas se poderia referir a “festa”. Numa ida à Renascença, onde leva um disco que uma finlandesa lhe tinha enviado, refere um Luís Filipe Aguiar, responsável pelo programa “Enquanto for bom dia”, que passou o disco e referiu como ele lhe chegou às mãos. Hoje sabe-se que Luís Filipe Aguiar era informador da PIDE.

O aparecimento da transmissão rádio em FM.

As gravações e regravações que o Luís fez em gravadores de bobine, um objecto ao alcance de muito poucos.

As estrangeiras, que apareciam no Verão – namoros e ligações, para futura troca de correspondência e encomendas de discos. A compra da imprensa estrangeira sobre música pop/rock.

A capacidade organizativa – “Estou a pensar seriamente em mandar dactilografar um «bookzito» com o título Dicionário Musical. Depois porei: Colaboração e Realização de Luís Pinheiro de Almeida”.

A colecção de recortes e fotos, de posters e cromos – sobretudo sobre os Beatles, contabilizando tudo – â mão – horas de gravação de cada artista, número de fotos, listas e mais listas. Diz-nos um amigo seu de Coimbra – “Do mesmo modo que há quem esteja possuído pelos espíritos, o Gim [petit nom do Luís na altura] estava possuído pelos Beatles”.

Lista minuciosa de despesas – “Um gajo aqui em Lisboa farta-se de gastar dinheiro”.

A propensão para polemizar – “Existe aqui um jornaleco no colégio (O Arauto) e num dos últimos números um gajo qualquer escreveu um artigo a dizer mal dos Beatles. Também escrevi para o jornal a criticar o gajo. Isto está bestial”.

Uma carta para a revista Rádio & Televisão, a sugerir um programa semanal de pop/rock.

A dado passo, o Luís escreve – “A minha casa parece uma revolução. Tanta tralha, tanta merda”.

Confirmo. A tendência continua – até hoje. Ele faz colecção de tudo – de canetas, de coisas da Coca-Cola, de coisas de Natal, de etiquetas de pendurar nas portas, dos hotéis. De copos, de ementas de restaurantes, de loiça de barro ou de esmalte. De ementas. Ah… e de instruções de segurança dos aviões. Umas vezes, pede. Outras vezes, é mais acção directa… Ele fala no seu Ephemera dos pobres… Fundador e colaborador pro bono do Arquivo de José Pacheco Pereira, acaba de doar, a muito custo, algum desse espólio, por evidente falta de espaço.

Mas, acima de tudo, e para além dos objectos, o Luís cultiva amizades. E, com as novas possibilidades que as redes sociais trouxeram, e a que ele tão bem se adaptou, o Luís está connosco todos os dias, 24 horas por dia – quase sempre sentado, como muitos de vocês sabem… a comer.

Há duas coisas em que, eu e o Luís, nunca estivemos de acordo – Diz ele numa das cartas: “Hoje de manhã ouvi nova interpretação dos Rolling Stones e por mais que os ouça não consigo gramá-los”.

Eu sempre fui mais Stones… E claro, há o ódio de estimação dele ao Benfica.

Conheci o Luís a 7 de Março de 1974, na agência noticiosa ANI. Tinha entrado no dia anterior para a agência, onde ele já estava há alguns meses. As primeiras imagens que tenho dele é de um tipo fardado. Ele foi do Copcon e, os dois, desde cedo estabelecemos alianças políticas. Ele militar, eu civil, numa versão Pacto MFA/Partidos que muito nos divertiu. Durante estes 45 anos fomos consolidando cumplicidades e a amizade originárias dos tempos da ANI e depois da ANOP, da NP e da LUSA (juntamente com o nosso camarada e seu irmão João e com alguns outos, alguns deles já desaparecidos).

Obrigado Luís, por estas 4 décadas e meia de experiências em comum. As tuas idiossincrasias são do catano! Como costumo dizer, o melhor ainda está para vir.

Fernando Correia de Oliveira

*Texto de apresentação do livro "Com os Beatles caro Jó", de Luís Pinheiro de Almeida, a 7 de Junho de 2019, na Feira do Livro de Lisboa.



Em cima e em baixo, fotos de Teresa Lage. Depois do lançamento do livro, o autor foi falar da sua nova obra nos estúdios da Rádio Renascença na Feira.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Novo livro de Luís Pinheiro de Almeida apresentado hoje na Feira do Livro


Texto de Teresa Lage:

O Luís Pinheiro de Almeida nasceu e viveu em Coimbra até aos 17 anos. Foi aí que, em 1963, ouviu pela primeira vez os Beatles e partilhou a sua nova paixão com os amigos do Bairro e do Liceu.

Em 1965, quando veio viver para Lisboa, descobriu um novo mundo que passou a relatar, quase diariamente, aos seus amigos de Coimbra. As cartas que escrevia para o amigo Jó (Jorge Carvalho, falecido em 2017), na altura vocalista do grupo Protões, com o registo do que acontecia em Lisboa sobre discos, rádio, cinema, bailes, jornais, concertos, vivências, tudo, ajudaram, segundo Jó, a encurtar a distancia entre Coimbra - uma cidade onde não existia informação e o Mundo. Outro amigo de Coimbra, Rui Mesquita Branco, conta que quando recebia as cartas do Luís, o Jó convocava os amigos para sua casa e as novidades eram "devoradas linha a linha" por todos.

Agora, é graças a Jó que guardou essas cartas durante 50 anos que podemos descobrir como era, nos anos 60, o dia a dia de um miúdo de 17 anos ....fã dos Beatles, em Lisboa. As cartas reunidas neste livro são um verdadeiro documento porque nos falam, na linguagem da época, dos discos, dos tops, dos programas de rádio, dos filmes, dos namoros, das férias de um teenager português numa época muito diferente da de hoje.

"Luís Pinheiro de Almeida Com os Beatles - "Caro Jó" (com prefácio do colega de faculdade do Luís - Marcelo Rebelo de Sousa) vai ser lançado sexta feira, dia 7 de Junho e apresentado na Feira do livro, às 17h

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Um Longines evocativo do Centenário da Aviação Naval em Portugal


Artigo publicado na edição de Inverno 2018 da revista Turbilhão, por ocasião da edição especial Longines dedicada ao Centenário da Aviação Naval em Portugal:

O Centenário da Aviação Naval

Pelo mar e pelo ar

Fernando Correia de Oliveira

Quando, em 2016, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, inaugurou uma estátua bem no centro de Vila Nova da Rainha, Concelho da Azambuja, no Ribatejo, a 50 km ao norte de Lisboa, foram muito poucos os seus habitantes que reconheceram o significado do monumento.

O que estava ali a fazer a representação de um avião? Pois foi ali, exactamente naquele local que foi construído, em 1916, um complexo da Marinha Portuguesa, um aeródromo e escola de pilotagem, de onde saíram os primeiros pilotos de avião militares do país. Dessas instalações não resta, há muito, nada. E a memória colectiva do lugar foi esquecendo por completo que ali tinha nascido a aviação militar portuguesa. Entre os instrutores estava Sacadura Cabral (1881-1924), nome que se iria tornar famoso. A escola de aeronáutica e o quartel adjacente funcionaram até 1920.

O esforço de Portugal em criar um corpo de aviação militar dá-se no contexto da I Guerra Mundial, que começou em 1914. Foi nesse conflito que se assistiu, pela primeira vez, ao uso de aviões, permitindo uma rápida evolução em táctica e combate no ar. Foi em 1915 que o Ministério da Guerra abriu o primeiro concurso entre oficiais da Marinha e do Exército para a formação e obtenção do brevet de pilotos aviadores em França, Inglaterra e Estados Unidos.

Só mais tarde, com a construção das infra-estruturas de Vila Nova da Barquinha e a aquisição das primeiras aeronaves, abre o primeiro curso de pilotagem em Portugal, que funcionou na chamada Escola de Aeronáutica Militar.

Portugal entrou no conflito mundial em 1916 e, a partir de então, os seus portos, navios e vias de comunicação passaram a estar sob ameaça dos submarinos alemães. A utilização de meios aéreos, em articulação com os meios navais existentes, possibilitaria uma maior eficácia na vigilância e defesa dos portos e litoral português.

No início de 1917, Sacadura Cabral, oficial da Marinha, e piloto recém-formado em França, especializado em hidroaviões, apresentou ao Ministro da Marinha uma proposta para a criação de um dispositivo aéreo de vigilância da costa. Na convenção luso-francesa de 21 de Junho de 1917, estabeleceu-se a criação de um Centro de Aviação Marítima (CAM) em São Jacinto. Aveiro, sob responsabilidade da Marinha Francesa, competindo a Portugal a criação dos restantes dois: em Lisboa e no Algarve (este último não chegaria a ser activado). A 28 de Setembro de 1917 é criado o Serviço e Escola de Aviação da Armada. Nascia assim, já no terreno, a aviação militar em Portugal.

O Centro de Aviação Marítima de Lisboa foi instalado na Doca do Bom Sucesso, tendo iniciado a sua actividade operacional em Dezembro de 1917, com a amaragem dos dois aparelhos “FBA” tipo B, hidroaviões que a Aviação Naval possuía à data.

Ao longo do ano de 1918, até ao final da Grande Guerra, o Centro realizou patrulhas de reconhecimento ao longo da costa e exercícios conjuntos com unidades navais, em busca de sinais dos temíveis submarinos U-boat alemães. O Centro contava apenas com os dois aviões referidos e com quatro pilotos.

O segundo Centro de Aviação Marítima, em São Jacinto, iniciou actividade em Maio de 1918, sob direcção da Marinha Francesa. Tinha à sua disposição seis aparelhos Donnet Denhaut e um conjunto de pilotos e outro pessoal militar francês. No final do conflito, em 1918, o Centro de Aviação Marítima de Aveiro foi cedido à Marinha Portuguesa.

Com o projecto da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada com sucesso em 1922 por Gago Coutinho (1869 – 1959) e Sacadura Cabral, dois oficiais desta Arma, a aviação naval ganhou grande admiração e notoriedade no país, mantendo vivo o interesse de manter a capacidade aérea da Marinha.

A iniciativa de ligar pelo ar as costas do continente europeu e americano, por cima das águas do Atlântico Sul, surgiu no âmbito das comemorações da independência do Brasil. Sacadura Cabral foi o autor da ideia.

Do ponto de vista técnico, o maior problema que se apresentava era o da navegação sem pontos de referência. O seu companheiro de viagem, Gago Coutinho desenvolveu processos, inventou instrumentos, baseado na experiência que tinha na navegação marítima. Convidado por Sacadura Cabral, desde 1919 que Gago Coutinho vinha desenvolvendo novas técnicas de navegação aérea. Inventou um novo sistema de horizonte artificial aplicado ao sextante, permitindo a sua utilização eficaz a bordo de aeronaves. Isso foi crucial para a navegação aérea.

Depois de um primeiro teste com esses métodos de navegação, em 1921, em viagem de sete horas e meia num hidroavião, entre Lisboa e Funchal, ocorre a epopeica ligação Lisboa / Rio de Janeiro, realizada no Lusitânia, outro hidroavião, entre 30 de Março e 17 de Junho de 1922, ano do primeiro centenário da independência do Brasil.

A viagem, com uma extensão aproximada de 4.350 milhas náuticas, foi um grande feito para a época pois a viagem decorreu praticamente sempre sobre o mar, e pela primeira vez foram empregues na navegação aérea os processos de determinação de posições sucessivas, usados na navegação marítima.

Utilizou-se para o efeito, além da bússola, cartas náuticas e tábuas de logaritmos, bem como o chamado sextante português, que com o auxílio de uma bolha de ar, dá a altura do sol por meio de um horizonte artificial, o tal método desenvolvido por Gago Coutinho.

Do ponto de vista relojoeiro, é o próprio Gago Coutinho que nos esclarece, no relatório da viagem, apresentado no ano seguinte: “Na navegação astronómica empregou-se, como a bordo dos navios, um cronómetro médio, que dá a hora de Greenwich; e levávamos também um bom contador médio. Na previsão de observações astronómicas de noite, tínhamos mais um cronómetro regulado para o tempo sideral de Greenwich”.

Tinha sido conquistado, pelo ar, o Atlântico Sul. Quanto ao Atlântico Norte, foi Charles Augustus Lindbergh quem o primeiro atravessou, em voo solitário e sem escalas, ligando em 1927 Nova Iorque a Paris.

Desde 1925 que, com a criação da Escola de Aviação Naval, primeiro na Doca do Bom Sucesso, depois em Aveiro, foi possível formar pilotos portugueses em território nacional. Esse centro funcionou até 1952.

Os valiosos contributos que a Aviação Naval prestou no salvamento de sobreviventes de navios afundados durante a II Guerra Mundial, bem como na salvaguarda da soberania nacional nas águas territoriais, foram importantes argumentos para a manutenção da capacidade áerea na Marinha Portuguesa.

Em 1952 procede-se à organização geral da aeronáutica militar e, após 30 anos de actividade, a Aviação Naval era extinta enquanto meio operacional da Marinha, passando a integrar a estrutura daquele que viria a ser o terceiro ramo das Forças Armadas nacionais, a Força Aérea Portuguesa.

Ao longo dos seus 35 anos de existência, entre 1917 e 1952, os aparelhos utilizados pela Aviação Naval reflectem a rápida evolução da indústria aeronáutica militar. Durante esse período entraram ao serviço 34 tipos diferentes de aeronaves, desde as primeiras com casco de madeira e asas de tela, até às que utilizam as mais modernas ligas metálicas. O mesmo se passou em relação à potência dos motores, sistemas de navegação e comunicação e armamento.

Só a partir de 1993, com a criação da Esquadrilha de Helicópteros, a Marinha Portuguesa volta a operar com meios aéreos. Foi no âmbito dp Centenário da Aviação Naval e, ao mesmo tempo, da Aviação Militar em Portugal, que foi criada a Edição Especial Longines evocativa da efeméride. Trata-se de um cronógrafo automático, limitado a 100 exemplares, com caixa de aço gravada no verso com a âncora e as asas, o símbolo da Aviação Naval portuguesa.





domingo, 6 de maio de 2018

Com os relógios Rolex na vitória de João Sousa no Millennium Estoril Open


João Sousa, número um do ténis português e 68º do mundo, fez história este sábado ao apurar-se pela primeira vez na carreira para uma final do ATP World Tour em Portugal. O vimaranense, número 68 da classificação mundial, garantiu acesso à final do Millennium Estoril Open ao derrotar o grego Stefanos Tsitsipas, 44.º do mundo, pelos parciais de 6-4, 1-6 e 7-6(4), num encontro que contou com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa nas bancadas. Hoje, joga a final da prova frente ao norte-americano Frances Tiafoe (64.º). Se vencer, será o primeiro português a inscrever o seu nome na lista de vencedores da competição.

Acompanhámos a vitória de João Sousa nas meias-finais, a convite da Rolex, que patrocina pela primeira vez o Millennium Estoril Open, numa parceria que durará pelo menos três anos. Um portefólio sobre a tarde de ontem: