Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

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sábado, 8 de junho de 2019

In Illo Tempore - texto de apresentação do novo livro do Luís Pinheiro de Almeida


In Illo Tempore *

Eu de Beatles, percebo pouco. Do Luís, acho que sei alguma coisa. Vamos ao livro

A primeira carta tem data de 15 de Julho de 1964

A última, é de 13 de Abril de 1966

Um período de quase dois anos que acompanha a transição do Liceu para a Faculdade de Direito

Diz Marcelo Rebelo de Sousa:

"Luís Pinheiro de Almeida foi um dos mais destacados colegas da minha turma de 1966, na Faculdade de Direito de Lisboa. Dirigente associativo com vocação liderante, juntava ao seu militantismo político um conjunto de qualidades humanas que o convertiam num bom amigo, num magnífico companheiro de caminhada, num alegre, imaginativo e mesmo endiabrado dinamizador da minha geração.

"Tínhamos posições muito diversas, então, sobre milhentas matérias, mas unia-nos essa sua personalidade envolvente, sempre disponível para se dar aos outros e buscar a felicidade nas mais pequenas coisas da vida.

"Admiro essa tua maneira de não envelheceres. Encontrando nos Beatles uma forma de continuar a sonhar como sonhavas há meio século…"

“Sozinho, isolado na capital, com todos os meus amigos em Coimbra, senti-me «exilado» (ainda hoje me sinto)”, diz o Luís neste livro. “Um dos meus maiores desgostos foi não ter feito Direito por Coimbra”, confidenciava-nos há dias.

O seu amor à Briosa fez com que voltasse a ser sócio (era o nº 1.718 em 1958, quando tinha 11 anos, agora é o nº 6.510).

Parafraseando o livro de memórias publicado por Trindade Coelho em 1902, In Illo Tempore, sobre a boémia universitária coimbrã, este conjunto de cartas é um In illo tempore de há mais de meio século de um conimbricense sobre a capital.

Sabemos que as cartas do Luís eram devoradas linha a linha pelos amigos em Coimbra, que as conversas e sessões de música debaixo de um sobreiro centenário continuaram depois da partida dele para Lisboa.

Há algum vernáculo usado na produção epistolar do Luís, que com algum humor coloca um círculo vermelho na capa do livro.

Daqueles tempos, e referidos na produção epistolar do Luís, registamos:

A camisa com bolso na manga, para o maço de tabaco.

As botas à Beatles. Explica o Luís que têm um fecho éclair na parte de dentro. “Dessas não há cá à venda. São do catano”. “Em Lisboa estão-se a usar muito as camisolas de gola alta. Também vou comprar uma”.

Voltando às botas, “Já cá há e há muito tempo dessas botas dos Beatles, mas só na montra das sapatarias, pois ninguém as compra”.

A ida a Londres de algum conhecido, que trazia os discos que cá não havia.

A ida às estações de rádio – Renascença, Rádio Club Português, Rádio Universidade – para aí levar os discos, a ver se eram passados.

O convívio com os nomes da rádio pioneiros em programas de música pop/rock.

O telefonar para as estações de rádio, para os chamados programas de discos pedidos.

A participação em concursos radiofónicos, para ganhar discos ou bilhetes para concertos.

O Luís, já na Faculdade, foi à Rádio Universidade, falar das festas dos caloiros. Foi avisado de que não poderia dizer a palavra “baile”, apenas se poderia referir a “festa”. Numa ida à Renascença, onde leva um disco que uma finlandesa lhe tinha enviado, refere um Luís Filipe Aguiar, responsável pelo programa “Enquanto for bom dia”, que passou o disco e referiu como ele lhe chegou às mãos. Hoje sabe-se que Luís Filipe Aguiar era informador da PIDE.

O aparecimento da transmissão rádio em FM.

As gravações e regravações que o Luís fez em gravadores de bobine, um objecto ao alcance de muito poucos.

As estrangeiras, que apareciam no Verão – namoros e ligações, para futura troca de correspondência e encomendas de discos. A compra da imprensa estrangeira sobre música pop/rock.

A capacidade organizativa – “Estou a pensar seriamente em mandar dactilografar um «bookzito» com o título Dicionário Musical. Depois porei: Colaboração e Realização de Luís Pinheiro de Almeida”.

A colecção de recortes e fotos, de posters e cromos – sobretudo sobre os Beatles, contabilizando tudo – â mão – horas de gravação de cada artista, número de fotos, listas e mais listas. Diz-nos um amigo seu de Coimbra – “Do mesmo modo que há quem esteja possuído pelos espíritos, o Gim [petit nom do Luís na altura] estava possuído pelos Beatles”.

Lista minuciosa de despesas – “Um gajo aqui em Lisboa farta-se de gastar dinheiro”.

A propensão para polemizar – “Existe aqui um jornaleco no colégio (O Arauto) e num dos últimos números um gajo qualquer escreveu um artigo a dizer mal dos Beatles. Também escrevi para o jornal a criticar o gajo. Isto está bestial”.

Uma carta para a revista Rádio & Televisão, a sugerir um programa semanal de pop/rock.

A dado passo, o Luís escreve – “A minha casa parece uma revolução. Tanta tralha, tanta merda”.

Confirmo. A tendência continua – até hoje. Ele faz colecção de tudo – de canetas, de coisas da Coca-Cola, de coisas de Natal, de etiquetas de pendurar nas portas, dos hotéis. De copos, de ementas de restaurantes, de loiça de barro ou de esmalte. De ementas. Ah… e de instruções de segurança dos aviões. Umas vezes, pede. Outras vezes, é mais acção directa… Ele fala no seu Ephemera dos pobres… Fundador e colaborador pro bono do Arquivo de José Pacheco Pereira, acaba de doar, a muito custo, algum desse espólio, por evidente falta de espaço.

Mas, acima de tudo, e para além dos objectos, o Luís cultiva amizades. E, com as novas possibilidades que as redes sociais trouxeram, e a que ele tão bem se adaptou, o Luís está connosco todos os dias, 24 horas por dia – quase sempre sentado, como muitos de vocês sabem… a comer.

Há duas coisas em que, eu e o Luís, nunca estivemos de acordo – Diz ele numa das cartas: “Hoje de manhã ouvi nova interpretação dos Rolling Stones e por mais que os ouça não consigo gramá-los”.

Eu sempre fui mais Stones… E claro, há o ódio de estimação dele ao Benfica.

Conheci o Luís a 7 de Março de 1974, na agência noticiosa ANI. Tinha entrado no dia anterior para a agência, onde ele já estava há alguns meses. As primeiras imagens que tenho dele é de um tipo fardado. Ele foi do Copcon e, os dois, desde cedo estabelecemos alianças políticas. Ele militar, eu civil, numa versão Pacto MFA/Partidos que muito nos divertiu. Durante estes 45 anos fomos consolidando cumplicidades e a amizade originárias dos tempos da ANI e depois da ANOP, da NP e da LUSA (juntamente com o nosso camarada e seu irmão João e com alguns outos, alguns deles já desaparecidos).

Obrigado Luís, por estas 4 décadas e meia de experiências em comum. As tuas idiossincrasias são do catano! Como costumo dizer, o melhor ainda está para vir.

Fernando Correia de Oliveira

*Texto de apresentação do livro "Com os Beatles caro Jó", de Luís Pinheiro de Almeida, a 7 de Junho de 2019, na Feira do Livro de Lisboa.



Em cima e em baixo, fotos de Teresa Lage. Depois do lançamento do livro, o autor foi falar da sua nova obra nos estúdios da Rádio Renascença na Feira.


1 comentário:

ié-ié disse...

Obrigado, do coração!

Gim (Luís Pinheiro de Almeida)