Em Portugal e o Tempo, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025, escrevemos:
VII – O atraso endémico e perene
do Tempo português
Existe um “tempo português”? Recordamos como começámos: há línguas que têm palavras próprias para designar o tempo cronológico e o tempo meteorológico (time e weather, em inglês, por exemplo). Em português, há uma única palavra para as duas realidades. Os ingleses têm clock para relógios grandes e watch para relógios de bolso ou de pulso. Os franceses usam, respectivamente, horloge ou montre. Em português, mais uma vez, uma única palavra para abarcar conceitos tão diferentes. A pobreza linguística reflecte, quanto a nós, a deficiente relação que Portugal tem mantido com o Tempo.
Em A Coisa mais Preciosa que
Temos, de 2002, diz o físico e divulgador de ciência Carlos Fiolhais:
“A história dos relógios é parte
importante da história da ciência e, por consequência, da história da economia
e da civilização. Esta verificação está bem enfatizada no livro de David
Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações (Gradiva, 2001). Landes
explica-nos com erudição inaudita como Portugal passou de um dos países mais
ricos do mundo para um país do meio da tabela (enfim, mais perto do fim que do
fundo). Ficámos decadentes logo que perdemos as ciências e as tecnologias.
Incluindo as dos relógios. Perdemos não só o conhecimento da longitude em
primeira mão, como também a economia dos mares em favor dos grandes fabricantes
dos relógios, os Ingleses e os Holandeses. […]
“Nós empobrecemos quando perdemos o
comboio da inovação tecnológica. Foram os relógios, além do mais, que
permitiram a organização do trabalho na revolução industrial dos séculos XVIII
e XIX, algo que entre nós não tivemos com a celeridade necessária […] Perdemos,
se algum dia a tivemos, a ideia particularmente europeia, ocidental, de tempo.
Perdemos tempo, muito tempo.”
A relojoaria férrea nacional, na
sua esmagadora maioria, ou está parada ou foi electrificada. Clero e seus
auxiliares (sacristãos) envelhecidos, sem força para subir escadas em locais
íngremes ou para dar corda às máquinas, foram o quadro propício à hecatombe. A
insensibilidade da Igreja (e do poder local) em preservar peças valiosas de
arqueologia industrial fomentaram o desastre. Máquinas velhas de séculos foram,
nos anos 1980 e 1990 deitadas para o lixo ou vendidas para o estrangeiro, em
troca de circuitos electrónicos que, comandados a partir das sacristias ou dos
andares térreos das torres, podem ser accionados, lançando para o ar menus
variados de melodias. Mudos os sinos, apareceram em sua substituição os megafones.
Todo o esforço de introduzir no
quotidiano nacional hábitos de pontualidade, através de marcadores de tempo
públicos ou privados precisos, não surtiu efeito. O relógio foi sempre encarado
mais como objecto de aparato, de ostentação, do que como verdadeiro regulador,
O paradigma disso, os dois relógios do Convento de Mafra, quase sempre parados.
Uma importante peça de arqueologia
industrial, um relógio monumental, assinado José da Silva Mafra, de 1796, na
Torre do Galo, junto ao Palácio da Ajuda, mantém-se há décadas ao abandono, em
risco de ruir.
O país tem dinheiro para comprar –
compra do melhor que há, e não apenas relógios – mas não tem dinheiro nem
mentalidade para manter.
Fernando Pessoa no Livro do
Desassossego, diz: “E assim arrasto a fazer o que não quero, e a sonhar o
que não posso ter, a minha vida, absurda como um relógio público parado.” Quanto
ao Tempo e aos seus medidores, Portugal continua a ser um país absurdo.
A mudança de era (1433), a adopção
de novo calendário (1583), a adesão ao sistema de fusos horários (1912), a
entrada em vigor da Hora de Verão e da Hora de Inverno (1915) são as grandes
mudanças estruturais no tempo português. Uma quinta acaba de ocorrer. Em 2023,
depois de século e meio a ser o depositário da hora legal, numa tradição mundialmente
seguida de relação umbilical entre astronomia, medição e emissão do tempo, o
Observatório Astronómico de Lisboa, entretanto passado a espaço museológico, por
decisão governamental, deixa de ter esse papel. Que passa para o Instituto
Português da Qualidade, até agora apenas o depositário do segundo padrão, como
já referimos.
Uma equipa de astrónomos, docentes
na Faculdade de Ciências de Lisboa, alimentava o site oficial do Observatório.
Com a decisão governamental, o site foi desactivado. O sinal de Hora Legal, que
podia ser descarregado pelos particulares nos seus computadores, deixou de
funcionar. A publicação Dados Astronómicos para Almanaques deixou de se
publicar, tanto em papel como na versão online. O noticiário ligado à
astronomia e ao tempo cronológico, deixou de ser emitido. A divulgação
científica ficou a perder. Muito.
Foi, entretanto, criada uma
comissão interministerial para estudar a transição, que à data da publicação
deste ensaio ainda não ocorreu. Criando-se um vazio no tempo português que,
mais uma vez, demonstra a dificuldade do país em lidar com Cronos. Em 2024, não
há um único relógio público que emita a Hora Legal e não há qualquer autoridade
que superintenda sobre ela.
Até hoje, nada mudou nesta situação peculiar.

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