Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

A apresentar mensagens correspondentes à consulta arte no pulso ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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domingo, 14 de agosto de 2011

Em primeira mão - Arte no Pulso, ou a incursão da pintora Celeste Maia pelo universo do Tempo, através de mostradores de relógios

Celeste Maia, artista luso-moçambicana, actualmente a viver em Madrid, acaba de concluir uma nova experiência, no seu já longo currículo - desta vez, foram mostradores de relógios as telas eleitas para dar asas à imaginação. O resultado - Arte no Pulso - uma exposição de 20 relógios únicos, em duas séries, que estarão patentes no Centro Cultural de Cascais a partir de 9 de Setembro.
O Bosão de Higgs

Estação Cronográfica avança em primeira mão imagens de dois desses relógios, um pertence à série Ciência e o outro à série Descobertas - cada uma com 10 exemplares. Estão equipados com calibres automáticos suíços (ETA - 2834-2), com caixas de 37 ou 42 mm, em aço, fundo de vidro de safira, estanques respectivamente até 100 e 300 metros, pulseiras em cabedal ou aço. Os de caixa mais pequena, pertencentes à série Ciência, têm indicação de data e dia da semana. Os da série Descobertas, com caixas maiores, têm indicação de data e função GMT, com sub-mostrador de 24 horas no bisel rotativo.

O Tempo foi sempre o fio condutor da inspiração de Celeste Maia. No primeiro caso, essa inspiração foi beber aos passos da Ciência que nos têm dado entendimentos diferenciados da noção de Tempo. No segundo, os sujeitos são navios que, por uma razão, ou por outra, foram importantes na demanda Humana pela medição o mais exacta possível do tempo.

O relógio baptizado com o nome de "Higgs Boson" faz parte da série Ciência de Arte no Pulso. "Os fisicos no CERN, Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, acreditam que o Bosão de Higgs ira demonstrar a origem de massa e tempo. Estes cientistas estão a tentar recriar a origem do universo, de que é feito e como funciona", explica-nos Celeste Maia. 2E entra aqui a esquiva partícula conhecida como Bosão de Higgs ou Particula de Deus. A denominação" partícula de Deus" vem do livro do Premio Nobel Leon M. Lederman "A Particula de Deus: se o Universo é a Resposta, qual é a Pergunta?"
O Thermopylae

Já o "Thermopylae", faz parte da série Descobertas. Clipper considerado o mais veloz do mundo, foi construido em 1868, em Aberdeen, para o serviço da rota do chá da China. Bateu todos os recordes de velocidade na sua viagem de 63 dias a Melbourne. Em 1872, o "Thermopylae" foi vendido a Portugal como navio-escola, usando agora o nome de "Pedro Nunes". Em 1907 foi rebocado por dois barcos de guerra portugueses até à foz do Tejo, onde, na presença da rainha D. Amélia, foi torpedeado e afundado com todas as honras navais na Baía de Cascais.

Celeste Maia

Como é que Celeste Maia chegou ao projecto Arte no Pulso?

Radicada há mais de dez anos em Madrid, conhecida pela sua pintura figurativa, ela correspondeu com entusiasmo ao complicado desafio de uma firma espanhola, a Colomer & Sons, para pintar 20 mostradores de relógios de pulso, de alta qualidade, "one of a kind", peças únicas, exclusivas e assinadas.

Esta forma de arte é raramente praticada, devido às dificuldades técnicas e à escala diminuta do trabalho.

Celeste Maia levou meses a investigar diversos temas e desenhou mais de 200 ideias, em papel. De todos estes temas foram seleccionadas 20 imagens.

O resultado é uma serie de 20 relógios, cada um exemplar único, com os mostradores pintados com uma técnica que Maia teve que desenvolver. Cada um destes relógios de pulso está assinado, cada um tem um nome e uma história. O tema dos 20 relógios é o Tempo. "Estes relógios reflectem pensamentos científicos, experiências históricas, assim como o maior mistério de sempre, o próprio Tempo", diz a pintora a Estação Cronográfica.

"Foram-me necessários meses de pesquisa para conseguir um conceito diferente de tempo para cada um dos relógios", recorda. "Alguns filósofos até contestam a existência do tempo. O que marcam então os relógios? O tempo torna-se evidente através da medição do movimento, comparado com outros movimentos. Tais como o nascer do sol e o crepúsculo, o dia e a noite, a mudança das estações".

"Com Newton o tempo era absoluto. Mas Einstein propõe que o tempo existe noutra dimensão, relacionada com o espaço", explica. "Na teoria da relatividade, ele afirma que o tempo não é uniforme e absoluto em relação ao dia a dia. O passado, o presente e o futuro não são mais que uma ilusão. E, de acordo com a mecânica quântica, o tempo pode ser reversível e pode existir simultâneamente em várias dimensões diferentes".

Já, por outro lado, as descobertas marcaram uma viragem na noção cosmológica do tempo. "Utilizando instrumentos arcaicos como ampulhetas para medir a passagem do tempo, e astrolábios e quadrantes para a navegação, os descobridores europeus apuraram a experiência e o engenho dos antigos exploradores gregos, árabes e chineses para assimilar o mundo em termos inovadores do espaço-tempo", diz Celeste Maia.

Pode ver aqui um filme sobre a aventura de Celeste Maia no reino do Tempo.

Concluindo, ideias de Tempo em relógios de pulso, que nos transportam para outras dimensões. Para apreciar a partir de 9 de Setembro, no Centro Cultural de Cascais, e até 2 de Outubro.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Relógio de bolso da Hermès - reportagem no Fora de Série Especial Relógios 2013


O Hermès In The Pocket, um relógio de bolso - reportagem no Fora de Série Especial Relógios 2013:

Comemorando um século de ligação à relojoaria

Hermès In The Pocket

Fernando Correia de Oliveira, em Biel

Há cem anos, a Hermès concebia o seu primeiro relógio de pulso, uma adaptação de um relógio de bolso ao punho de uma criança da família. Usando a técnica de marroquinaria tão tradicional na casa. Nasce agora, evocando-o, o In The Pocket.

Estivemos mais uma vez em Brugg, Biel, no cantão suíço de Aargau, sede de La Montre Hermès, para o lançamento do In The Pocket, objeto, fruto da fusão de saberes tão diferentes como são a marroquinaria e a relojoaria. Usado no bolso ou no pulso, este relógio faz a ligação entre o passado e o presente da Maison.

Uma foto das irmãs Hermès, tirada na casa de família, em 1912, mostra Jacqueline usando um relógio no pulso.

Para Jacqueline Hermès, quando criança, não seria prático usar um relógio pregado ao vestuário ou sequer metido num bolso. Especialmente para ela, o pai desenhou um engenhoso porte-oignon, que lhe permitia usá-lo no pulso. Para ver as horas, ela teria que destapar a caixa de cabedal que o envolvia.

Tendo começado como artesão de cabedais para arreios e selas, o patriarca Hermès sabia bem como modelar as peles. Assim, o relógio não apenas passaria ao pulso como estava protegido, numa mistura de elegância e funcionalidade, o lema da Hermès.

Todos os anos, a Hermés lança um concurso interno, desafiando os seus empregados a produzirem uma peça de sua autoria. Na última edição, muitos dos artesãos procuraram inspiração nessa foto. Ao verem-na, eles quiseram explorar a ideia do porte-oignon, reinterpretando-a. O trabalho vencedor foi uma de várias versões de porte-oignon.

O departamento de design viu o resultado vencedor e achou que havia ali uma ideia a explorar. Estava-se perante um relógio, mas também de uma peça envolta em couro, matéria-prima que está no coração da casa. Nascia assim o In The Pocket, um produto que está no ADN Hermès, tanto do ponto de vista relojoeiro como de marroquinaria.

No caso do In the Pocket, a técnica do calibre e a frieza do paládio encontram protecção no estojo de couro barénia pacientemente trabalhado. Pelas mãos dos artesão da Hermès, renasce o porte-oignon.

In The Pocket é um relógio de bolso que se transforma num relógio de pulso e vice-versa, sempre que o seu possuidor quiser. Instalado num bracelete de cabedal, é também a prova perene da arte da Hermés no tratamento de peles.

A patine do tempo encarregar-se-á de tornar cada vez mais pessoal e belo este “porta-cebola”, usado no final do séclo XIX, início do século XX, quando os relógios de bolso começaram a ser adaptados a relógios de pulso através de pulseiras.

O In The Pocket honra a tradição da casa – a pulseira tem três camadas – uma de couro Barenia de cor ébano; outra de uma pela de vaca, conhecida pela sua resistência; e uma terceira, em pele de vitelo Zermatt, como forro. Tudo isto, cosido à mão, segundo os métodos ancestrais da Hermès, usados em selas e arreios. Cada uma é composta por duas partes – o boucleteau (a mais longa, presa ao relógio às seis horas, e onde estão os buracos para a fivela; e o sanglon (a parte mais curta, presa ao relógio às 12 horas, e onde encaixa a coroa. Todo um processo que demora 10 dias a completar para cada bracelete porta-cebola. O conjunto trás ainda um fio em cabedal barénia ébano, que pode encaixar-se numa argola que sai de um encaixe no verso da caixa, podendo assim ser usado como colar.

Quanto ao relógio, tem de uma caixa de 40 mm, de paládio. No interior, está um calibre automático, fabricado pela Hermès na Vaucher Manufacture, onde desde 2006 tem 25 por cento do capital. Este calibre H1837, batizado em honra do ano da fundação da Hermès, é automático, batendo a 28.800 alternâncias por hora (4 Hz). Tem 50 horas de autonomia, platina decorada em grânulos circulares e massa oscilante gravada com “tapete de H”, a assinatura da casa. Estanque até 30 metros e limitado numa primeira edição a 24 exemplares, o In The Pocket é de venda exclusiva nas boutiques Hermès.

domingo, 19 de outubro de 2014

O Apple Watch e a indústria relojoeira suíça - crise do quartzo, capítulo II?


Artigo de análise sobre o Apple Watch, os smart watches e os efeitos económicos e sociais que eles podem ter face à relojoaria tradicional. No suplemento Fora de Série Especial Relógios, da edição de 17 de Outubro de 2014 do Diário Económico.

Os desafios do Apple Watch

A Suíça está lixada?

Fernando Correia de Oliveira

Um fantasma perfila-se no horizonte da indústria relojoeira tradicional – o smartwatch. Particularmente, será que o Apple Watch provocará um terramoto social e acabará com um objecto que anda há um século no pulso de toda a gente? Vem aí, para os suíços, a sequela de um filme de terror, “Crise do Quartzo II”?

Não se chama iWatch nem iPhone Smartwatch, como se especulava. Com caixa tipo almofada, o Apple Watch é compatível com os iPhones e usa o sistema operativo iOS 8. Além de dar horas, armazena uma série de dados relacionados com a saúde e o bem-estar do utilizador - calorias ingeridas, calorias gastas, passos dados... ritmo cardíaco, etc.

A batalha pelo espaço no pulso das novas gerações está, portanto, lançada - o relógio como símbolo de estatuto social e de história, património, herança, por um lado; o relógio como objecto high-tech, de usar e deitar fora quando sai uma nova geração, sem haver sequer o conceito de manutenção ou reparação, por outro. Somos suspeitos, claro. Gostamos de relógios... e não esperamos deixar por herança aos nossos filhos gadgets ultrapassados no momento em que saem da fábrica... Além disso, alguns observadores avisam - tal como os smart phones, estes gadgets de pulso são intrusivos da vida pessoal de cada um - os dados vão parar à nuvem e, daí... seguem para sabe-se lá onde. Quer que o seu vizinho fique a saber o que acabou de comer ou quantos passos deu ontem pelo parque?

Mas, desde já, reconhecemos - esteticamente, o Apple Watch é de longe o mais bem conseguido de entre os gadgets até agora aparecidos no mercado para colocar no pulso.

Deverá a indústria relojoeira suíça começar a tremer, como disse há dias o responsável de Design da Apple? Ninguém sabe. Lá que começou uma guerra por um pequeno mas valioso espaço vital - o pulso - lá isso, começou...

Muito se disse nas últimas semanas sobre o Apple Watch. Se não ouviu nada sobre ele, “é porque terá passado os últimos tempos no fundo de uma gruta, no Alasca”, ironizava uma colunista de um site norte-americano de electrónica.

Elmar Mock, co-inventor do relógio Swatch foi das vozes mais alarmadas, acreditando que a indústria relojoeira suíça está a ignorar o novo objecto sem saber que ele a ameaça directamente. Numa entrevista ao site governamental suíço, Mock diz estar a ver os mesmos erros dos anos 1970 a serem repetidos, quando a indústria relojoeira helvética subestimou a concorrência dos relógios de quartzo japoneses.

Em 1970, Elmar Mock inventou o Swatch, juntamente com Jacques Müller e Ernst Thomke. O relógio foi desenhado para ser um produto acessível, que pudesse competir com os relógios japoneses de quartzo, muito baratos e que inundavam o mercado. Actualmente director da Creaholic, uma consultora para a inovação, Mock está contra a relutância suíça de entrar no jogo e responder, no mesmo campo, aos smart watches.

Muitos observadores prevêem que o Apple Watch, que estará à venda no início de 2015, será tão perturbador para o mercado como o foram o computador pessoal Mac, o iPhone ou o iPad. Para Mock, “o grande problema não é o Apple Watch em si mas o facto de um gigante da electronica como é a Apple ter entrado no mercado dos relógios. Faz todo o sentido ter uma ferramenta de comunicação no pulso, este espaço estratégico tem um enorme potencial de mercado”.

Para um dos “pais” do Swatch, “o principal desafio reside no ambiente digital e na experiência do consumidor que um smartwatch pode oferecer”. E acrescenta: “Há muito para aprender nesta nova área, mas só é possível aprender criando. É aqui que penso que gigantes da electrónica como a Apple, a Samsung ou a Google estão a ganhar a batalha”.

E, perante a classificação depreciativa destes smartwatches de meros gadgets, Mock diz: “De longe, o Apple Watch é o mais atraente deles. Decerto que me sinto atraído a usar um. É preciso não esquecer que os primeiros smartphones não substituíram de imediato os telemóveis convencionais. Quando foi lançado o primeiro iPhone, a Blackberry convenceu-se de que os consumidores dariam pela falta do teclado e a Nokia achou que os ecrãs grandes iriam ser do desagrado dos utilizadores…” Ao The New York Times, um designer da Apple citou o designer-chefe da empresa, Jonathan Ive, que terá dito “A Suíça está em apuros” (a frase exacta de Ive terá sido mais directa – Switzerland is f…).

Deverá então a indústria relojoeira suíça temer a invasão dos smartwatch, como previu Ive? Mock está mais do que pessimista: “A Suíça já perdeu a guerra do relógio de pulso. Apenas um em cada 200 relógios produzidos no mundo é suíço”, diz. No entanto, também reconhece que o lucro feito com um relógio suíço é maior do que o dos outros 199 somados. “Ganhámos, por agora, a guerra do lucro”.

A indústria relojoeira suíça conseguiu transformar um relógio numa jóia mecânica, que representa o engenho e a produção manuais. Também consegue ter o melhor design, o melhor marketing, a melhor comunicação. “Os smartwatches não vão substituir, de um dia para om outro, os relógios mecânicos, assim como as metralhadoras Kalashnikov não tornaram as espadas de samurai objectos menos apetecíveis”, nota com alguma ironia Mock.

E acusa: “A Suíça perdeu uma enorme oportunidade e é chocante que os líderes da indústria relojoeira não achem que o mercado dos smartwatch seja apetecível. Este mercado pode valer 30 mil milhões de euros, assumindo um número realista de 100 milhões de smartwatches vendidos anualmente”.

Será Nick Hayek, CEO do Swatch Group, um exemplo da atitude despreocupada face aos smartwatches? “Claro que sim!”, ataca Mock. “Compreende-se que marcas topo de gama como Breguet, Rolex, Cartier ou Patek Philippe estejam despreocupadas. Mas a Swatch, pelo contrário, deveria estar num papel de liderança neste processo. Os relojoeiros suíços parecem ter esquecido como subestimaram os relógios japoneses de quartzo nos anos 1970, dizendo que eles eram meros gadgets e não verdadeiros relógios. Esse erro levou ao quase colapso da indústria relojoeira suíça”. E vai mais longe: “Eventualmente, com o Swatch, conseguimos responder com sucesso e criar um relógio de quartzo com estilo. Mas falhámos depois a reconquista do mercado global de relógios através de investimento na industrialização. Obssecado com os lucros a curto prazo, o Swatch Group deu uma reviravolta de 180 graus e dedicou-se aos relógios deluxo. Em vez de investir em ideias, o grupo tem escolhido investir em marcas de luxo e em boutiques monomarca por todo o mundo”.

Nick Hayek, nas reacções públicas que tem tido em relação ao Apple Watch, desvaloria o novo produto, recordando que a Swatch tem uma experiência de mais de uma década na concepção, desenvolvimento e produção de smartwatches e que esses modelos não têm tido êxito, antes e sempre problemas com a constante renovação do software e com a substituição rápida do próprio relógio.

Está o Swatch Group assustado com o Apple Watch? “Não! Vamos lançar o nosso próprio smartwatch para o ano e o Swatch Group foi pioneiro no capítulo dos smartwatches quando lançou o Swatch Paparazzi , já em 2004. Desde então que não parámos de produzir smartwatches.”

Swatch Paparazzi? Quem se lembra? E fazia o quê? Convenhamos que a resposta do responsável pelo maior grupo relojoeiro do mundo não será nada convincente. Com a legitimidade de ser um dos inventores do Swatch, o relógio que salvou a indústria relojoeira suíça, Mock conclui: “O sector começa a parecer-se com uma reserva índia americana. Recusa-se a fazer parte das mais recentes alterações, não devido a falta de criatividade ou inovação, mas por escolha estratégica. Infelizmente, falta à Suíça um Steve Jobs que possa conduzir a sua indústria relojoeira até ao futuro. Isso não quer dizer necessariamente que a indústria esteja no caminho errado, mas que perdeu o barco quanto aos smartwatches”.

No seu Watch Insider, Alexander Linz, um jornalista austríaco especializado, que muito respeitamos, refere: “Estamos a falar de dois segmentos totalmente diferentes, e também de compradores diferentes. Pode acontecer que alguém que esteja habituado a usar um relógio mecânico passe agora a usar também, no outro pulso, um smartwatch, mas este nunca substituirá o relógio mecânico. Pelo contrário, penso que a Apple e todos os outros produtores de smartwatches provavelmente estimularão que nunca antes usaram relógio a comprar agora um, e posso imaginar que essas pessoas possam mais tarde começar a comprar outros relógios, com alguns eventualmente a comprarem um relógio mecânico”.

Para muitos observadores, os relógios mecânicos topo de gama terão cimentado o seu estatuto de objectos de luxo perante uma audiência mundial que continua a crescer. “Ninguém precisa verdadeiramente de um relógio caro, mas também ninguém precisa de um Lamborghini Gallardo ou de um original de Jackson Pollock ou de uma garrafa de Chateau Lafitte Rothschild 1945”, refere Mark Bernardo, outro colaborador do Watch Insider. “Um iPhone é caro, mas ninguém pode dizer hoje em dia de forma convicente de que se está perante um artigo de luxo. Se os smartwatches vierem um dia a ultrapassar definitivamente os relógios mecânicos, isso será sinal de algo muito mais importante: um abandon generalizado do luxo e do que é artesanal a favor dos produtos de produção maciça e totalmente utilitários. E isso é difícil de imaginar”. “Acho que o smartwatch nem sequer vai beliscar os relógios de quartzo, pois sei que hoje em dia muitas companhias reuniram muito know-how e que estarão prontas a responder, se necessário”, defende Alexander Linz. “O facto de, até agora, ninguém ter apresentado na Suíça um relógio desses significa que o sector está numa posição de expectativa, para ver como reagirá o mercado. Não será necessário que os suíços, neste caso, liderem”. E fala do Apple Watch mais como “uma bracelete digital” do que como um verdadeiro relógio.

Na verdade, dois pontos negativos do Apple Watch, apontados por Jen King, jornalista senior no Luxury Daily, são a autonomia da sua bateria e a necessidade de ter um iPhone por perto para o poder utilizar. Assim, o novo produto será mais um acessório, um periférico, do telemóvel, que o objecto autónomo.

Mas a Apple encara a questão “relógio” muito a sério. A contratação de Patrick Pruniaux, antigo vice-presidente de vendas da Tag Heuer, indica exactamente isso. Se a chamada alta relojoaria parece estar a salvo do fenómeno smartwatch, isso não impede que muitos analistas avisem: a Apple está a entrar no sector do luxo, para capitalizar enormes margens de lucro e aproveitar a força da sua imagem de marca. O facto de a empresa ter contratado recentemente os CEOs da Burberry e da Saint Laurent indica estar a caminhar nesse sentido.

Classificado já como “o mais pessoal” de todos os produtos Apple, o relógio terá uma exactidão entre os 50 milisegundos, estará ligado ao sistema de GPS e mudará automaticamente de fuso horário. Mas essas façanhas técnicas não chegam para poder ser considerado “artigo de luxo”. Haverá linhas personalizadas do Apple Watrch, usando, por exemplo, metais preciosos? Sim. A linha Edition terá caixa de ouro rosa ou amarelo e custará cerca de mil euros. Há já quem fale de cooperação futura entre a Apple e criadores joalheiros, para o aparecimento de um Apple Watch jóia.

Su Jia Xian, um coleccionador de relógios de Singapura, personalidade muito conhecida em todo o mundo da relojoaria, mercê da sua presença nas redes sociais, e autor do blog Watches by SJX ouviu alguns dos principais players da indústria relojoeira suíça sobre o Apple Watch.

Maximilian Büsser, da MB&F, diz que “os relógios mecânicos há muito que perderam a sua razão prática de existência, pelo que não penso que as marcas topo de gama – que se baseiam em arte, tradição e bela manufactura – tenham muito a temer. A questão, provavelmente será a de saber se os clients irão usar um relógio em cada pulso. Um muito ‘smart’ e o outro com uma alma verdadeira”.

Felix Baumgartner, da Urwerk, afirma: “Tenho iPhone, iPad, iBook mas não estou tentado ainda a comprar o Apple Watch. Ter qualquer coisa no pulso que faz beep sempre que recebo um email é algo demais para mim”.

O francês François-Paul Journe, da Montres Journe, radicado há muitos anos em Genebra, nota: “Há jóias de pulso, relógios de pulso e agora computadores de pulso. Podemos usar o que quisermos no pulso. Que impacto terá isso na alta relojoaria? Nenhum. Não se pode comprar algo dsescartável com algo que durará centenas de anos”.

O inglês Stephen Forsey, da Greubel Forsey, ele também há décadas instalado na Suíça, refere: Tem um design interessante, em termos de tecnologia de uso corrente, mas não é com um Apple Watch que vamos sentir a emoção ou a cultura e o carácter que encontramos num relógio mecânico topo de gama”.

Finalmente, a opinião de Ryan Raffaelli, um especialista na indústria do luxo, que escreveu recentemente na Harvard Business Review, e que acha que a indústria relojoeira suíça não tem nada a temer do Smart Watch, antes pelo contrário.

“Desde logo, o Apple Watch faz o uso do relógio relevante para uma nova geração de futuros coleccionadores de relógios”, diz ele. “Pergunto frequentemente a outros professores em todo o mundo quantos dos seus estudantes usam relógio. A resposta é sempre a mesma: ‘muito poucos’. Para muitos jovens adultos que cresceram a usar telemóveis para lhes dizerem a hora, a ideia de usar um relógio é equivalente a enviar um telegrama ou armazenar dados numa disquete”, defende. “O Apple Watch introduz o conceito de usar relógio a muitos dos jovens entre os 18 e os 35 anos, público alvo da Apple. Se a moda pegar, é provável que estes consumidores comprarão eventualmente outro tipo de relógios, que marquem acontecimentos ao longo da sua vida. Falem com qualquer executivo suíço de relojoaria e ele dirá que os seus melhores clientes começaram a coleccionjar Swatchs nos anos 1980, mas que eventualmente passaram a comprar, quando mais velhos, marcas mais caras como Rolex, Blancpain, Breguet, ou Audemars. Tal como o Swatch, pode ser que o Apple Watch venha a criar uma nova geração de aficionados e coleccionadores”.

Terminamos com uma opinião emitida um destes dias, em Lisboa, durante um almoço, por um jornalista de um título especializado do sector automóvel: “Durante muitos anos deixei de usar relógio, quando comprei o primeiro telemóvel e passei a ver as horas nele. Mas, há uns três anos, voltei a usar relógio. É que, nas mais diversas situações sociais, quando queria ver as horas, tirava o telemóvel do bolso e as outras pessoas lá pensavam – ‘que indelicadeza, lá vai ele ver ou enviar uma mensagem’. Quando o que eu queria era só ver as horas. Assim, quando agora olho para o pulso, já sabem claramente que só estou a procurar saber que horas são”.

O relógio de pulso começou a ser popularizado, em detrimento do relógio de bolso, há exactamente cem anos, aquando da I Guerra Mundial e do seu uso pelas tropas norte-americanas que desembarcaram em teatro europeu. Terá agora o seu ocaso?

Ou, no futuro, um smartwatch dum lado, um relógio mecânico do outro? Nós, pessoalmente, não. Usar um smartwatch seria como que andar a passear com o irritante e “espacial” auricular, tipo estafeta, que já pulula por aí. Mas, claro, gostos não se discutem.


sábado, 10 de setembro de 2011

Arte no Pulso, exposição de 20 relógios únicos em Cascais

Como Estação Cronográfica oportunamente anunciou, Celeste Maia, artista luso-moçambicana, actualmente a viver em Madrid, acaba de concluir uma nova experiência, no seu já longo currículo - desta vez, foram mostradores de relógios as telas eleitas para dar asas à imaginação. O resultado - Arte no Pulso - uma exposição de 20 relógios únicos, em duas séries, estão patentes no Centro Cultural de Cascais, até 2 de Outubro. Estivemos, ontem, na inauguração.

O Tempo foi sempre o fio condutor da inspiração de Celeste Maia. No primeiro caso, essa inspiração foi beber aos passos da Ciência que nos têm dado entendimentos diferenciados da noção de Tempo. No segundo, os sujeitos são navios que, por uma razão, ou por outra, foram importantes na demanda Humana pela medição o mais exacta possível do tempo.

Celeste Maia levou meses a investigar diversos temas e desenhou mais de 200 ideias, em papel. De todos estes temas foram seleccionadas 20 imagens.

O resultado é uma serie de 20 relógios, cada um exemplar único, com os mostradores pintados com uma técnica que Maia teve que desenvolver. Cada um destes relógios de pulso está assinado, cada um tem um nome e uma história. O tema dos 20 relógios é o Tempo. "Estes relógios reflectem pensamentos científicos, experiências históricas, assim como o maior mistério de sempre, o próprio Tempo", diz a pintora a Estação Cronográfica.

Os relógios estão em expositores separados, munidos de lupa, e com a explicação para cada exemplar

Celeste Maia a falar com a Comunicação Social

Expostas, estão duas séries de relógios - Ciência e Descobertas - cada uma com 10 exemplares. Estão equipados com calibres automáticos suíços (ETA - 2834-2), com caixas de 37 ou 42 mm, em aço, fundo de vidro de safira, estanques respectivamente até 100 e 300 metros, pulseiras em cabedal ou aço. Os de caixa mais pequena, pertencentes à série Ciência, têm indicação de data e dia da semana. Os da série Descobertas, com caixas maiores, têm indicação de data e função GMT, com sub-mostrador de 24 horas no bisel rotativo. O preço: 3.500 € os da série Ciência e 4.200 € os da série Descobertas.

Um exemplar da série Ciências, o Bosão de Higgs

Um exemplar da série Descobertas, o Thermopylae

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Relógios Graham assinalam os 15 anos do Chronofighter - Eric Loth fala do sector - os tempos estão a mudar...


A Graham está a comemorar os 15 anos do seu modelo Chronofighter. Entretanto, o fundador da marca, Eric Loth, falou com o Relógios & Canetas online, um a entrevista a todos os títulos corajosa e de leitura obrigatória.

Já se encontra disponível, aqui, aqui ou aqui (clicar em edições mensais) a edição de Setembro do Relógios & Canetas online, a plataforma digital em língua portuguesa dedicada à Relojoaria, Joalharia, Instrumentos de Escrita e outros Objectos de Luxo.


Entrevista a Eric Loth, da Graham

Deus virou as costas aos relojoeiros?

"Nenhuma marca, nenhuma tecnologia é protegida por Deus. Porque é que a Relojoaria haveria de ser excepção?" - quem fala assim, desassombradamente, é Eric Loth, o fundador e dono da Graham. "Daqui a 20 anos, não somos já nós os consumidores", diz ele, apontando para si e para os jornalistas à volta da mesa, em Basileia. "São os nossos filhos e netos, que já nêm lêem livros em papel, já não têm música armazenada em CDs, não têm a mínima ideia do que seja um relógio mecânico".

"A vida não está fácil", admite, numa conversa com um grupo de portugueses, durante a Baselworld 2016. "São dias terríveis, mas ser independente tem grandes vantagens. Não temos que apresentar lucros a qualquer custo. Isso não é possível se estivermos numa empresa cotada, temos que dar saistfações aos accionistas. Vamos ver brevemente muita dança da cadeira. E, se fosse engenheiro a trabalhar no sector, não dormiria bem de noite".

Eric Loth faz uma análise das mais originais e interessantes que temos ouvido sobre a questão do relógio conectado. "A conecção é o futuro. Todos os objectos estarão ligados em rede, do mobiliário aos electrodomésticos", antecipa. Mas, o relógio conectado, tal como hoje existe, não o convence. "O telemóvel a funcionar como senhor e o relógio no pulso a ser escravo, no que chamamos de relação master-slave, não faz grande sentido - ter no pulso, em ponto pequeno, o que já temos no relógio, em ponto maior".

Mas o aparecimento do smart watch, concede, teve a vantagem de colocar de novo no pulso dos jovens um objecto. "Há toda uma geração que nunca usou nada nesse espaço, que assim pode ser reconquistado", lembra.

"Acredito no relógio conectado, mas ligado ao possuidor e não a gadgets exteriores", vaticina. "Um relógio centrado no indivíduo, que lhe dá a temperatura, as pulsações, o bio-ritmo - um algorítmo com seis ou sete parâmetros, capaz de antecipar o nosso estado geral, não apenas de saúde, mas de disposição física e mental. Um relógio master, em vez de slave...".

"O pulso é um belo sítio para termos informações sobre nós próprios, em vez de informações vindas de outras máquinas", defende.

Sobre o futuro do relógio mecânico, Eric Loth traça um quadro, se não negro, cinzento muito escuro. "Os carros passarão a ser eléctricos. As baterias terão cada vez mais autonomia. Os incentivos e desincentivos estatais vão obriga-nos a comprar eléctrico, os filhos e os netos vão lembrar-nos cada vez mais as questões ambientais. Quando um tipo como eu, apaixonado por mecânica e por carros clássicos, comprar um carro eléctrico... é muito mau sinal para alguns... e estou a pensar comprar um".

"Os relógios mecânicos ficarão reduzidos a um nicho. Os apreciadores terão um ou dois, mas não 20 ou 30, como hoje. Pessoas de uma certa idade ou de um certo grau de sofisticação quererão este tipo de objectos", prevê. "E, já agora, quem nos diz que, daqui a dez anos, um relógio mecânico no pulso seja sinal de luxo? Porque é que o material electrónico não passará a ser luxo? Já há relógios e outros gadgets vendidos por milhares de euros... isso é luxo". Eric Loth puxa ainda como exemplo a indústria da fotografia. "Olhem para a Kodak, para a Ilford, grandes empresas, que se baseavam na venda de rolos, na sua revelação, nas cópias em papel... Hoje, as máquinas digitais têm melhores lentes, mais definição, memória para armazenar milhares de fotos. O chip arrasou com tudo o que era analógico". "Uns sobrevieram, outros morreram. Estamos a enfrentar o mesmo", diz. "O que haverá no pulso das pessoas dentro de dez anos? Ninguém sabe. Um relógio mecânico? Talvez numa ocasião especial, no dia do casamento... a peça que se herdou do avô ou do pai, que depois volta para a gaveta. Como quando eu vou buscar um dos meus carros vintage à garagem. O dia está bonito, a paisagem convida, curto a estrada, sem GPS ou outras modernices... é cool. Só por divertimento. Mas não é para todos os dias".

Além disso, para as novas gerações "vivenciar é mais importante que possuir", atira Eric Loth. "O bem-estar está a substituir a velocidade. As viagens, as experiências gastronómicas e outras são preferidas, em vez da compra de objectos".

"Quem não vir isto tudo como uma ameaça, está a ser criminoso", diz Eric Loth face a um sector ainda a procurar saber para onde vai. "Quem está na bolsa, não pode dizer o que eu disse – as acções caem. Eu posso, sou patrão", conclui.



Caixa

Eric Loth fundou a Graham em 1994, inspirado num nome importante da história da Relojoaria, George Graham, o inglês que na transição do século XVII para o século XVIII inventou o cronógrafo, os segundos mortos, o escape de cilindro ou o pêndulo termocompensado de mercúrio.

Loth, que nasceu no Locle, berço da relojoaria suíça, instalou a Graham em La Chaux-de-Fonds, outro núcleo base da indústria. Licenciado em engenharia mecânica pela Universidade de Neuchâtel, com um mestrado em gestão pelo Business Management School I.M.D. de Lausanne, foi durante décadas quadro do Swatch Group antes de fundar a sua empresa. Piloto, a competir na Swiss Porsche Cup, tem uma colecção de clássicos. Investe em arte contemporânea e é um aficionado da cultura rock (na verdade, quem o conhece acha geralmente que ele tem um estilo mais de inglês que de suíço de língua francesa).




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Relógios clássicos e vintage em feature na revista Turbilhão


Num ambiente de incertezas, a procura de valores seguros

O eterno regresso aos clássicos

Fernando Correia de Oliveira

No diálogo entre a forma e a função, nessa diminuta palete criativa que é um relógio de pulso, há 100 anos que se faz do antigo, novo. Em tempo de incerteza, o apelo para o clássico e para o perene, para o valor seguro e simples, reforça-se. Para que o medidor de tempo lhe resista melhor e possa marcar episódios marcantes da nossa vida, seja ponte e memória entre gerações.

Aos 15 anos, em 1975, o meu pai deu-me um relógio de pulso Omega e a minha mãe uma máquina de escrever Brother. O relógio foi comprado numa ourivesaria na Praça da Figueira. A Brother foi comprada, para ficar mais barato, a uma colega da minha mãe. Foram as prendas dos meus pais por eu ter feito o 5.º ano. O meu pai deu-me de facto uma prenda. A minha mãe não, porque achava que estudar e ter boas notas era o meu dever. Aliás a minha mãe dava-me prendas todos os dias. […]. Mais tarde, quando já tinha passado centenas de poemas na Brother, troquei-a por uma Olympia semi-portátil e paguei mais 20 contos. […]. Arrependo-me imenso de o ter feito.

O outro choque foi quando a minha mãe me disse para ir ao Maury, que ela considerava um bom relojoeiro, substituir a pulseira do Omega que, entretanto, se tinha rompido. O empregado do Maury olhou com desdém para mim e para o Omega da Praça da Figueira e disse “custou-lhe menos o relógio do que vai custar a pulseira” e “quando o comprou deu por ele z”. Sendo z uma quantia baixíssima. Mas ainda hoje tenho o Omega e continua a regular bem. […]
Adília Lopes, escritora portuguesa contemporânea, in Crónicas da vaca fria, na Pública, Domingo, 25 de Março de 2001

Dois amigos encontram-se, depois de muitos anos sem se verem. No pulso de um deles, um relógio chama a atenção. “Este? É emprestado pelo meu filho”, diz.

“Mas ele acaba de nascer!”, reage o outro.

“Bem… prometi à minha mulher que lho darei quando ele for um homem”.

“Estás assim a tomar conta do processo de envelhecimento do relógio do teu filho. durante e os próximos 20 anos”, finaliza o amigo.

Este diálogo está na mais recente campanha de comunicação de uma marca de relógios. Não, não é a que está a pensar… aquela que diz que “você nunca é verdadeiramente dono dele, antes seu guardião até ser passado à geração seguinte”.

O diálogo, ao fim e ao cabo, transmite a mesma mensagem – a perenidade e significado patrimonial de um relógio mecânico.

Mas é de uma marca do Japão, país conhecido pela adesão maciça aos gadgets electrónicos. Em tempo de incerteza global, o apelo dos valores seguros, perenes, faz-se também sentir na relojoaria.

Ou, por outras palavras – se os seus pais lhe derem um iPhone ou um smartwatch quando acabar o liceu, o que sobrará deles quando sair da universidade? É. Um gadget fica fora de moda, está ultrapassado, avaria sem concerto possível, ao fim de meses, anos no máximo. Um relógio mecânico de pulso, por mais antigo que seja, tem sempre vida longa, seguramente de mais de 100 anos, se mantido como deve ser, será cúmplice de bons e maus momentos de gerações, terá sempre histórias que contar e recordar.

Ora, património e perenidade levam a outra componente do verdadeiro luxo – aquilo que, de valor, material ou sentimental, ou ambos, tem possibilidade de ser reparado. E um relógio mecânico pode ser sempre reparado.

Património perene e reparável requer, para resistir à espuma dos dias, formas clássicas, acima de modas e extravagâncias. E o mundo da relojoaria percebe isso. Nos últimos anos, as marcas foram aos arquivos, ao ADN próprio, e começaram a fazer reedições, baseadas esteticamente em modelos vintage, com mostradores e vidros abaulados, cores pastel, braceletes de nylon ou malha tipo milanesa. Simples, com mostradores de dois ou três ponteiros, quando muito acrescentando uma data. E reduziram o tamanho das caixas, que começava a ser exagerado – acima dos 42cm – mas não tanto que chegassem aos 35 ou 36 mm dos relógios de homem dos anos 1930 e 1940. Nas senhoras, as caixas aumentaram para os 35 mm antes “masculinos” e não deverão descer muito abaixo disso, embora algumas reedições actuais, recordando os anos 1920, surjam com caixas de 25 mm, onde é praticamente impossível ver as horas, antes se está perante uma pulseira ou joia, adereço. O tempo volta para trás, mas não igual em tudo…

Há, como em tudo, excepções. Neste revivalismo, um modelo tem passado incólume, contra ventos e marés – estamos a falar do cronógrafo. Também ele revisitado, em estéticas dos anos 1950 a 1970, mas sempre na moda, sobretudo para o público masculino. Costumamos dizer que, nos relógios, acontece como nos carros – a carrinha funciona sempre melhor que o modelo base. Num relógio com pouco apelo estético, a versão cronógrafo como que ganha vida própria, fica mais equilibrada, é “outro” relógio.

Assinalar um nascimento, uma graduação, o primeiro emprego, a promoção, o noivado, o casamento. Uma prenda dada a si próprio ou recebida de alguém que lhe diz muito. Ou que já nem sequer está fisicamente viva, mas que lhe aparece em memória sempre que olha… para o relógio que trás no pulso. Sim, porque não estamos a vê-lo a olhar com nostalgia, a usar o telemóvel do avô…


Relojoaria e estilos - a forma antes da função

O relógio de pulso começou a massificar-se há exactamente 100 anos, quando milhares de soldados norte-americanos desembarcaram em teatro europeu, no âmbito da I Guerra Mundial. Mas seriam precisos mais 30 anos para que, no rescaldo da II Guerra Mundial, eles destronassem definitivamente o relógio de bolso como objecto pessoal imprescindível.

No final do século XIX e início do século XX o relógio de pulso foi sobretudo usado pelas mulheres e era visto como objecto efeminado pelos pater familiae, que preferiam ostentar a sua autoridade tornando visível a corrente do relógio, guardado no bolso do colete.

Como objecto eminentemente feminino, o relógio de pulso desses primeiros tempos começou por ser, desde logo, mais adereço que utensílio. Por outras palavras, dava-se mais atenção à forma que à função. O relógio-joia prevalecia.

Desde esses primeiros tempos a indústria relojoeira sofreu as influências das grandes correntes estéticas do virar do século – o movimento da Arte Nova, surgido por volta de 1880 e que durou até ao início da I Guerra Mundial, por um lado; o movimento Art Déco, surgido no final da I Guerra Mundial. O primeiro glorificava a era industrial e a arquitectura do ferro; a segunda dava primazia à variedade de formas e cores.

O terceiro grande movimento a influenciar a relojoaria foi o do design, principalmente a escola Bauhaus. E as preocupações teóricas em redor da forma e da função. Com força nos anos 1920, estendeu a sua influência com força até aos anos 1960.

A moda, com formas, materiais e cores, tomou definitivamente conta dos relógios a partir dos anos 1980, quando estes deixaram de ser simples marcadores de tempo para, lentamente, passarem a ser quase unicamente adereços, sinais que queremos dar de nós próprios. Perdendo a sua tradicional perenidade.

Mas a situação mundial, o sentimento colectivo, mudou. As dificuldades e incertezas tornam o consumidor mais resistente à compra por impulso, mais conservador e até nostálgico. Quer, quando gasta o seu dinheiro, ter em troca um objecto fiável e que dure. Esteticamente simples, que passe mais despercebido, e que possa ser usado com tudo e em todas as ocasiões.

A nostalgia do vintage domina. Muitas marcas decidiram ressuscitar dos arquivos modelos seus dos anos 1950 e 1950, não apenas imitando formas, como mesmo as cores “in” dessas décadas.

Alguns exemplos desse movimento, com modelos que consideramos, perenes, marcantes na história da relojoaria, não só pelo seu valor técnico, mas mais pelo seu apelo estético.


Cartier

Santos Dumond era amigo pessoal de Louis Cartier. Na Paris do virar do século, o joalheiro desenhou em 1904, a pedido do pioneiro da aviação, um relógio que ele pudesse usar no pulso, mais prático de consultar enquanto pilotava. Com caixa quadrada e parafusos facetados na luneta, traduzia com elegância o espírito Arte Nova e a glorificação das máquinas. Só em 1911 o relógio foi comercializado, já com o nome de Santos, a pedido de outros amigos de Cartier. Um modelo que se mantém, declinado sobre esta base, até hoje.


Audemars Piguet

Foi o primeiro relógio de luxo feito de aço. E saiu em 1972, quando a indústria relojoeira suíça se debatia numa crise profunda, devido à concorrência dos relógios de quartzo japoneses. Quem desenhou o Audemars Piguet Royal Oak foi um dos maiores criadores de formas relojoeiras do século XX, o genebrino Gerald Genta. Formas fazendo lembrar o portaló de um navio, com luneta octogonal, também com parafusos à vista, num revivalismo Art Déco. Formas que resistiram às mais diversas declinações e materiais. E, desde 1993, enriquecidas com a versão Offshore, mais desportiva. O Royal Oak original (49 x 39 x 3 mm) tinha o mostrador com decoração guilloché, tipo tapeçaria. E vinha com um calibre automático, com rotor central, o mais fino da sua época. Indicava horas, minutos e data (numa janela, às 3 horas). E, outro aspecto revolucionário e tecnicamente difícil de resolver, tinha pulseira em aço, totalmente integrada na caixa. Gerald Genta, para além do Royal Oak, desenhou o Omega Constellation (1959), o IWC Ingenieur (1976), o Patek Philippe Nautilus (1976) ou o Cartier Pasha (1997).

IWC

O relógio "O Português" terá partido de um pedido de importadores portugueses que queriam relógios de pulso com caixas grandes e calibres resistentes. Respondendo a esse pedido, a manufactura iniciou em 1938 a produção de uma caixa nova, onde meteu um calibre de relógio de bolso já existente. Baptizou-a de Português. Trata-se da mais perene linha da IWC e uma das mais perenes na história da relojoaria mundial. É também, ainda hoje, um dos modelos de maior êxito da marca, sendo mundialmente reconhecido. Começando por ser um três ponteiros clássico (com caixa grande para a época), teve nos anos 1970 a versão cronógrafo automático, ainda hoje a mais popular. É “o relógio masculino” por excelência, mercê das suas linhas simples, puras, imponentes, mas, ao mesmo tempo, elegantes.


Omega

Nenhuma marca de relógios se pode gabar de já ter estado na Lua… à excepção, claro, da Omega, com os cronógrafos Speedmaster de carga manual a fazerem parte do equipamento dos astronautas norte-americanos. O primeiro Omega Speedmaster foi produzido, em 1957. A estética do mostrador foi inspirada nos painéis dos carros italianos da época, contrastando o preto e o branco para uma melhor leitura. O relógio tinha o movimento mecânico Omega 321, também conhecido como o Lémania. O nome “Speedmaster” teve origem no taquímetro que apareceu na luneta, pela primeira vez, em qualquer relógio do mundo. O termo “Professional” foi acrescentado ao mostrador Speedmaster, em 1965, como uma referência aos profissionais da NASA, para quem o Speedmaster se tornou o relógio de escolha. Buzz Aldrin tornou-se o primeiro astronauta a andar na lua com o Omega Speedmaster Professional, a 21 de julho de 1969. Neil Armstrong tinha deixado o seu Speedmaster no módulo lunar como um backup para o temporizador eletrónico a bordo, que tinha avariado. A linha Speedmaster continua a ser a mais popular da Omega, numa estética que tem resistido ao tempo.

Zenith

A relojoaria e a aviação estiveram, desde os primórdios desta última, intimamente ligadas. Dentro da categoria dos chamados relógios militares, os dedicados a aviadores são um capítulo à parte, onde a legibilidade, de dia ou de noite, é particularmente importante. Caixas grandes, pulseiras muito grandes, que pudessem ser atadas à perna do piloto e não ao pulso, materiais luminescentes, resistência a campos magnéticos, algarismos enormes deram a estética dos anos 1930 e 1940, que hoje está muito em moda. A Zenith está ligada à primeira travessia da Mancha em avião (feita pelo francês Blériot, com um relógio da marca no pulso) e tem registado o direito de usar a palavra “Pilot” nos seus mostradores. Nos últimos anos tem aproveitado a onda vintage e reeditado relógios de piloto, com aspecto militar e correias a condizer.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Forma e a Função na História da Relojoaria - artigo na GQ Style Brasil


A mais recente colaboração de Estação Cronográfica com a GQ Brasil, neste caso a edição Style.

Relojoaria e estilos

A forma antes da função

Fernando Correia de Oliveira

O relógio de pulso começou a massificar-se há exactamente 100 anos, quando milhares de soldados norte-americanos desembarcaram em teatro europeu, no âmbito da I Guerra Mundial. Mas seriam precisos mais 30 anos para que, no rescaldo da II Guerra Mundial, eles destronassem definitivamente o relógio de bolso como objecto pessoal imprescindível.

No final do século XIX e início do século XX o relógio de pulso foi sobretudo usado pelas mulheres e era visto como objecto efeminado pelos pater familiae, que preferiam ostentar a sua autoridade tornando visível a corrente do relógio, guardado no bolso do colete.

Como objecto eminentemente feminino, o relógio de pulso desses primeiros tempos começou por ser, desde logo, mais adereço que utensílio. Por outras palavras, dava-se mais atenção à forma que à função. O relógio-jóia prevalecia. Desde esses primeiros tempos a indústria relojoeira sofreu as influências das grandes correntes estéticas do virar do século – o movimento da Arte Nova, surgido por volta de 1880 e que durou até ao início da I Guerra Mundial, por um lado; o movimento Art Déco, surgido no final da I Guerra Mundial. O primeiro glorificava a era industrial e a arquitectura do ferro; a segunda dava primazia à variedade de formas e cores.

O terceiro grande movimento a influenciar a relojoaria foi o do design, principalmente a escola Bauhaus. E as preocupações teóricas em redor da forma e da função. Com força nos anos 1920, estendeu a sua influência com força até aos anos 1960.

A moda, com formas, materiais e cores, tomou definitivamente conta dos relógios a partir dos anos 1980, quando estes deixaram de ser simples marcadores de tempo para, lentamente, passarem a ser unicamente adereços, sinais, como acontece actualmente.

Seguindo as tendências da moda, a relojoaria viveu na última década a nostalgia do vintage. Muitas marcas decidiram ressuscitar dos arquivos modelos seus dos anos 1950 e 1950, não apenas imitando formas, como mesmo as cores “in” dessas décadas.

Alguns exemplos desse movimento, com modelos que consideramos, perenes, marcantes na história da relojoaria, não tanto pelo seu valor técnico, mas mais pelo seu apelo estético.

Cartier

Santos Dumond era amigo pessoal de Louis Cartier. Na Paris do virar do século, o joalheiro desenhou em 1904, a pedido do pioneiro da aviação, um relógio que ele pudesse usar no pulso, mais prático de consultar enquanto pilotava. Com caixa quadrada e parafusos facetados na luneta, traduzia com elegância o espírito Arte Nova e a glorificação das máquinas. Só em 1911 o relógio foi comercializado, já com o nome de Santos, a pedido de outros amigos de Cartier. Um modelo que se mantém, declinado sobre esta base, até hoje. Como este Santos 100, com caixa de aço e ouro, movimento automático, saído aquando do centenário do modelo, em 2004.

Audemars Piguet

Foi o primeiro relógio de luxo feito de aço. E saiu em 1972, quando a indústria relojoeira suíça se debatia numa crise profunda, devido à concorrência dos relógios de quartzo japoneses. Quem desenhou o Audemars Piguet Royal Oak foi um dos maiores criadores de formas relojoeiras do século XX, o genebrino Gerald Genta. Formas fazendo lembrar o portaló de um navio, com luneta octogonal, também com parafusos à vista, num revivalismo Art Déco. Formas que resistiram às mais diversas declinações e materiais. E, desde 1993, enriquecidas com a versão Offshore, mais desportiva. O Royal Oak original (49 x 39 x 3 mm) tinha o mostrador com decoração guilloché, tipo tapeçaria. E vinha com um calibre automático, com rotor central, o mais fino da sua época. Indicava horas, minutos e data (numa janela, às 3 horas). E, outro aspecto revolucionário e tecnicamente difícil de resolver, tinha pulseira em aço, totalmente integrada na caixa. Gerald Genta, para além do Royal Oak, desenhou o Omega Constellation (1959), o IWC Ingenieur (1976), o Patek Philippe Nautilus (1976) ou o Cartier Pasha (1997).

IWC

O relógio "O Português" terá partido de um pedido de importadores portugueses que queriam relógios de pulso com caixas grandes e calibres resistentes. Respondendo a esse pedido, a manufactura iniciou em 1938 a produção de uma caixa nova, onde meteu um mcalibre de relógio de bolso já existente. Baptizou-a de Português. Trata-se da mais perene linha da IWC e uma das mais perenes na história da relojoaria mundial. É também, ainda hoje, um dos modelos de maior êxito da marca, sendo mundialmente reconhecido. Começando por ser um três ponteiros clássico (com caixa grande para a época), teve nos anos 1970 a versão cronógrafo automático, ainda hoje a mais popular. É “o relógio masculino” por excelência, mercê das suas linhas simples, puras, imponentes mas, ao mesmo tempo, elegantes.

Patek Philippe

Gerald Genta, o autor do Audemars Piguet Royal Oak, foi também o criador do Patek Philippe Nautilus, a linha desportiva da manufactura genebrina que está a comemorar 175 anos. E foi exactamente em 2014 que a Patek Philippe revisitou o Nautilus, apresentando o Travel Time Chronograph Ref. 5990/1ª. Calibre da manufactura (CH 28-520 C FUS), cronógrafo automático, de roda de colunas, com flyback, duas zonas horárias com indicações separadas de dia/noite, data analógica. Rotor de ouro, balanço Gyromax, espiral Spiromax. Caixa de 40,5 x 45,5 mm, de aço, vidro de safira na frente e no verso, coroa de enroscar, estanque até 120 metros. Selo de qualidade Patek Philippe. O Nautilus é, mercê da sua complexa caixa, um dos Patek Philippe mais reconhecíveis, mesmo para um leigo.

TAG Heuer

Numa altura em que os relógios eram quase todos de caixa redonda, a TAG Heuer lança em 1969 o seu primeiro cronógrafo automático em caixa tipo almofada. Tratava-se do Monaco, que teve desde logo um êxito tremendo, acentuado quando apareceu no pulso de Steve McQueen no filme Le Mans, em 1971. A marca tem reeditado versões do Monaco, como esta, futurista, saída este ano, uma versão V4, turbilhão, e onde o calibre se move através de micro-correias e a massa oscilante anda num carril. Do velho Monaco, na verdade, resta a caixa…

Girard-Perregaux

A Girard-Perregaux está a comemorar os 100 anos de um primeiro prémio obtido na Exposição Universal de Paris, onde Constant Girard surpreendeu o mundos entendidos apresentando um calibre de bolso, turbilhão, com uma arquitectura inédita – baseado em três pontes de ouro. Essa arquitectura das “três pontes” visíveis, do lado do mostrador, tem continuado a inspirar a manufactura, como neste futurista turbilhão bi-axial, com o calibre de titânio, coberto de DLC negro.

Jaeger-LeCoultre

Tudo começou no Inverno de 1930-1931. Oficiais britânicos de serviço na Índia queixavam-se de partir os vidros e de riscar os relógios quando jogavam pólo. Indagaram junto da então ainda e apenas LeCoultre sobre a solução para o problema. A LeCoultre encomendou uma caixa reversível à especialista Jaeger S. A., que a encomendou por sua vez ao designer René-Alfred Chauvot. Nascia a lenda – o Reverso, um dos relógios de forma mais famosos de sempre. Mercê dessa capacidade giratória, o mostrador podia ser protegido. Típico produto Art Déco, o Reverso continua a ser ainda hoje o modelo mais famoso da Jaeger-LeCoultre (as duas empresas fundiram-se em 1937). A possibilidade de fazer do verso face deu ao relógio uma possibilidade de personalização e aos criativos um pequeno espaço onde exprimir a sua arte.

Omega

Nenhuma marca de relógios se pode gabar de já ter estado na Lua… à excepção, claro, da Omega, com os cronógrafos Speedmaster de carga manual a fazerem parte do equipamento dos astronautas norte-americanos. O primeiro Omega Speedmaster foi produzido, em 1957. A estética do mostrador foi inspirada nos painéis dos carros italianos da época, contrastando o preto e o branco para uma melhor leitura. O relógio tinha o movimento mecânico Omega 321, também conhecido como o Lémania. O nome “Speedmaster” teve origem no taquímetro que apareceu na luneta, pela primeira vez, em qualquer relógio do mundo. O termo “Professional” foi acrescentado ao mostrador Speedmaster, em 1965, como uma referência aos profissionais da NASA, para quem o Speedmaster se tornou o relógio de escolha. Buzz Aldrin tornou-se o primeiro astronauta a andar na lua com o Omega Speedmaster Professional, a 21 de julho de 1969. Neil Armstrong tinha deixado o seu Speedmaster no módulo lunar como um backup para o temporizador eletrónico a bordo, que tinha avariado. A linha Speedmaster continua a ser a mais popular da Omega, numa estética que tem resistido ao tempo.

Rolex

A 7 de Outubro de 1927, Mercedes Gleitze foi a primeira britânica a atravessar a nado o Canal da Mancha. Houve dúvidas sobre o tempo que fez, quando uma norte-americana disse, quatro dias depois, ter feito um tempo mais rápido. Gleitze, rodeada de um grande interesse dos jornais, realizaria a 21 de Outubro aquilo que seria baptizado como “The vindication swim” (a travessia da vingança). O bávaro Hans Wildorf, que em 1905 tinha fundado, em Londres, a Rolex, e que em 1926 tinha lançado um relógio com caixa hermética, o Oyster, interessou-se pelo evento e ofereceu a Gleitze um Rolex Oyster, que ela usou durante a travessia de mais de dez horas, num fio pendurado ao pescoço, e com água muito fria. Partindo de França e chegada a Inglaterra, Gleitz ostentava o Rolex Oyster, de ouro, a trabalhar na perfeição, quando pousou para os fotógrafos. Um mês mais tarde, a 24 de Novembro de 1927, Wilsdorf lançava o Rolex Oyster no Reino Unido, numa maciça, inédita e milionária campanha de publicidade, que incluiu toda a primeira página do Daily Mail, e onde Mercedes Gleitz era a heroína. Este acontecimento marca o nascimento do conceito de Testemunho até hoje usado pela Rolex. E terá sido a primeira associação de uma celebridade a uma marca relojoeira, numa estratégia concebida por Wilsdorf, considerado um génio do marketing e da comunicação. Na forma, os Rolex têm fama de não mudarem… Nos mostradores, eles ostentam tudo o que é preciso, tudo o que é informação – além de Oyster, Perpetual (automático) e Superlative Chronometer Officialy Certified (Cronómetro Certificado pelo COSC). As linhas Deepsea, para mergulhadores profissionais (estanque até 4 mil metros) ou Explorer continuam hoje tão actuais como quando foram lançadas, há décadas.

Vacheron Constantin

Se há manufactura relojoeira que pode falar do seu património é a Vacheron Constantin – desde 1755, data da sua fundação, que está no mesmo sítio, na chamada Ilha de Genebra, onde nos séculos XVII e XVIII se passaram a concentrar os cabinotiers (relojoeiros) que fizeram da cidade o que ela continua a ser hoje – o coração da Alta Relojoaria mundial. Durante mais de dois séculos e meio a vacheron Constantin produziu relógios de todas as formas e feitios. E tem, tal como as outras empresas, explorado os seus arquivos, fazendo reedições históricas. A linha Patrimony – o nome diz tudo – especializou-se nessas peças. Como este Patrimony Perpetual Calendar Chrono, um dos calendários perpétuos cronógrafos mais legíveis alguma vez concebidos. Uma reinterpretação de um modelo dos anos 1970.

Zenith

A relojoaria e a aviação estiveram, desde os primórdios desta última, intimamente ligadas. Dentro da categoria dos chamados relógios militares, os dedicados a aviadores são um capítulo à parte, onde a legibilidade, de dia ou de noite, é particularmente importante. Caixas grandes, pulseiras muito grandes, que pudessem ser atadas à perna do piloto e não ao pulso, materiais luminescentes, resistência a campos magnéticos, algarismos enormes deram a estética dos anos 1930 e 1940, que hoje está muito em moda. A Zenith está ligada à primeira travessia da Mancha em avião (feita pelo francês Blériot, com um relógio da marca no pulso) e tem registado o direito de usar a palavra “Pilot” nos seus mostradores. Nos últimos anos tem aproveitado a onda vintage e reeditado relógios de piloto, com aspecto militar e correias a condizer.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Entrevista com Nicolas Hayek, Presidente do Grupo Swatch*

O homem que reinventou as horas

O criador de um dos conceitos mais revolucionários do século XX, que terá salvo toda a indústria relojoeira suíça de uma agonia anunciada pelo quartzo e pela macificação barata japonesa e chinesa, é hoje dono do Grupo Swatch, o maior do mundo. Mas afirma que o negócio dele não são relógios.

A suite do hotel de charme é imensa, a secretária quase que ocupa toda a largura de uma janela panorâmica que, cá de cima, domina a totalidade do lago de Lugano. Mas este homem a entrar nos 80 anos, de charuto na boca e três relógios em cada pulso, camisa aberta no peito, é das tais personagens maiores do que a própria vida e a sua energia transborda para além das fronteiras físicas do seu avantajado corpo.
É num contra-luz ensaiado, ao fim de uma tarde esplendorosa, destacando a silhueta de barba grisalha e rigorosamente aparada numa paisagem de bilhete-postal, que Nicolas Haiek concede meia hora do seu tempo, numa longa lista de compromissos que apenas terminará já de madrugada, quando o fogo de artifício assinalar o fim de mais um gigantesco evento Swatch, assinalando um terço de bilião de peças produzidas.

PÚBLICA – A Swatch tem uma história de mais de 20 anos. Quando começou, imaginava que iria vender 333 milhões de relógios?

Nicolas Hayek – Não, não e não! Quando grande parte da indústria relojoeira suíça me foi confiada, para que eu tentasse estabiliza-la, salva-la, comecei a actuar ainda sem me preocupar com a Alta Relojoaria. Nessa altura, em 1980, era preciso conservar as fábricas, com pessoas lá dentro e os seus milhares de empregos. Se elas não produzissem em grande quantidade, iriam fechar. E o nosso objectivo, com a Swatch, era fazer um. Dois, três milhões de peças. O projecto começa a ser pensado em 1982, mas arranca verdadeiramente em 1983. No primeiro ano de actividade produzimos 1,5 milhões e ficámos muito orgulhosos. Muito rapidamente chegámos aos 3 milhões, depois aos cinco. Ficámos então certos de que aquele tinha sido o caminho certo, mas nunca na vida tinha pensado que haveríamos de chegar aos 20 a 25 milhões de relógios por ano e a um volume de negócios da ordem dos mil milhões de francos suíços. Foi a apoteose. Mas, a partir de determinada altura, toda a gente começou a copiar-nos – as marcas de moda passaram a fazer produção em massa em países como a China, relógios que custavam 5 ou 10 francos suíços, passaram a introduzir a Arte neles, tudo coisas que nós tínhamos iniciado. De qualquer modo, nunca na história da relojoaria uma marca vendeu tal número de peças como a Swatch.

PÚBLICA – Como é que se vê a si próprio, no seio da indústria relojoeira mundial?

Nicolas Hayek – Acabou de sair um livro em França dedicado às 50 coisas que nunca teriam existido se não tivesse havido alguém por detrás delas. Leonardo da Vinci, Louis Pasteur, Joan Sebastian Bach, Eiffel, se eles não tivessem existido, o mundo não teria hoje uma série de belas e úteis coisas. E eu, modestamente, se não tivesse existido, não teria havido o conceito Swatch. Nessa obra diz-se que eu alterei a maneira como se passou a olhar para um relógio – de instrumento de medida do tempo a adereço, acessório de moda. Pode-se comprar cinco, seis, sete Swatch, mas há 20 anos comprava-se o chamado “relógio para toda a vida”. O segredo Swatch está na criatividade. Todos nascemos criativos e temos total liberdade de criação até mais ou menos aos seis anos. Depois, começam os condicionalismos sociais, na família, na escola, no emprego, e esquecemos esse potencial de criatividade que está em cada um de nós. A sociedade rouba-nos a fantasia, e eu tê-la-ei devolvido nas peças que fazemos. E não só nos Swatch. Em Alta Relojoaria, por exemplo, estamos a trabalhar com grande entusiasmo uma marca lendária como a Breguet. Dentro de três ou quatro anos, sem exagero, esta marca fará um milhão de francos suíços de volume de negócios. E dentro de oito anos, será a mais rentável – o seu volume de negócios será superior ao do da Rolex e da Omega. O crescimento Swatch também tem sido muito superior à média do sector na Suíça. Somos os maiores, como grupo, mas vamos ser ainda mais.

PÚBLICA – Quando é que a Swatch comemorará os 666 milhões de relógios produzidos?

Nicolas Hayek – Isso é mesmo pergunta de um mediterrânico. Digo isto como um cumprimento, pois eu sou também um mediterrânico. Houve muita gente que me disse que eu deveria ter feito alguma coisa para assinalar os 20 anos da Swatch, em 2003, que eu já não ligava grande coisa à marca e estava virado para outras do grupo. Eu dizia-lhes que não via muito bem o que fazer com uma história de 20 anos, quando a Breguet, por exemplo, tem 250, a Longines 120, a Omega 100… E não fizemos nada. Até quando decidi comemorar os 333 milhões, não o anunciei, porque os jornalistas iriam perguntar-me todos os dias quantos relógios faltavam ainda… E decidimos fazer este evento, o maior em muitos anos, envolvendo toda a cidade de Lugano, os artistas do Blue Man Group e milhares de convidados vindos de todo o mundo. O próximo marco? Não lhe vou dizer…

PÚBLICO – Esta nova linha, Jelly in Jelly, parece ser o retorno à filosofia Swatch primitiva – a utilização do plástico de forma assumida.

Nicolas Hayek – O tamanho de um relógio é importante quando queremos que ele seja veículo de expressão da Arte, que dê espaço à cor e ao design. Quando lancei a Swatch, desafiei os mais importantes artistas e criativos contemporâneos – de Jean-Michel Jarre a Spike Lee, passando por Pedro Almodôvar ou Vivienne Westwood. Depois, vieram as linhas desportivas, ou com caixa em aço. Na verdade, regressamos nesta linha aos tamanhos maiores e ao plástico. A Jelly in Jelly vem juntar-se a linhas fantásticas que já temos – as pessoas esquecem-se de que a Swatch mantém em produção o relógio de pulso em plástico mais fino do mundo – o Skin. Até hoje, ninguém o conseguiu copiar, porque ele é tecnicamente muito avançado.

PÚBLICA – Toda a indústria relojoeira se debate com um problema – a juventude já não usa tanto o relógio de pulso, dado que tem substitutos para esse objecto no telemóvel, na consola de jogos, no computador. Como pensa ultrapassar a questão?

Nicolas Hayek – Mas isso foi uma das coisas que eu previ! Quando lancei a Swatch tinha claro que não ia fornecer ao mercado um instrumento de medição do tempo. Na Suíça, então, você não dá um passo na rua sem que lhe apareça diante do nariz um relógio público… No Grupo Swatch temos que prever o que se vai passar nos próximos 15 ou 20 anos. Em Alta Relojoaria, não estou a vender um relógio, estou a acenar com uma jóia, em ouro ou platina, cravejada de diamantes, que tem no interior um mecanismo que é outra preciosidade. E que o comprador sabe estar a fazer um investimento, pois daqui a 50 anos essa peça valerá o dobro. Trata-se de um investimento, como se estivesse a comprar um quadro. Na Swatch, houve um momento em que também era um investimento, dada a loucura na procura. Alargámos o conceito do relógio a uma linha de joalharia, que tem tido enorme sucesso.
Quem compra Swatch sabe que não precisa de um instrumento de medição do tempo no pulso. Está a comprar um adereço.

PÚBLICA – Isso entra em contradição com a filosofia da Alta Relojoaria suíça, que nos últimos anos tem procurado novos materiais, aperfeiçoamento do isocronismo dos mecanismos…

Nicolas Hayek – Não, não! A Suíça, quando vende relógios topo de gama, vende o sonho, a arte, a beleza. Como se estivesse a vender Alta-costura. Se “apenas” vendesse relógios, já teria desaparecido, porque os japoneses, os chineses ou os russos fabricam milhões e milhões de peças de quartzo que medem o tempo de forma quase perfeita.

PÚBLICA – Estamos então perante a procura de estatuto quando compramos um relógio mecânico suíço?

Nicolas Hayek – Não falaria de estatuto, embora haja alguns relógios que o dêem a quem os possui. Trata-se antes da cultura europeia – a Arte, combinada com a Tecnologia, e isso é aspiracional, é admirado fora da Europa.

PÚBLICA – Então, a globalização não é uma ameaça para a indústria relojoeira suíça?

Nicolas Hayek – Depende de quem dirigir o sector. Se forem imbecis, do tipo directores de agências de publicidade, com as suas estratégias imediatas, ela morrerá. Olhe para trás de mim – isto é a Suíça, inimitável [a baía de Lugano, com um lago de águas pristinas, rodeado de montanhas verde-escuro], com a sua qualidade de vida. A China terá os seus argumentos, mas não pode copiar o que temos aqui.

PÚBLICA – Está, então, optimista.

Nicolas Haiek – Estou a investir biliões! Estamos a construir novas fábricas. Vamos inaugurar um edifício de dezassete andares no bairro de Ginza, em Tóquio, com boutiques das marcas do Grupo Swatch divididas por andares. Estamos a comprar edifícios nos centros históricos em França, na Suíça, na Rússia. Se me encontrar uma boa localização em Lisboa, diga-me!

*Entrevista que Estação Cronográfica fez a a Nicolas Hayek, em Lugano, em 2006, publicada na revista PÚBLICA

domingo, 27 de outubro de 2013

Relógio Patek Philippe Sky Moon - reportagem no Fora de Série Especial Relógios 2013



Patek Philippe Sky Monn - reportagem no Fora de Série Especial Relógios 2013:

Sky Moon Turbilhão Ref. 6002

Escultura no pulso

Fernando Correia de Oliveira, em Genebra

A única indústria que procura “complicações” é a da relojoaria. Quantas mais, melhor. A Patek Philippe, rainha das grandes complicações, prova com o novo Sky Moon que as complicações estéticas também não lhe metem medo. Lugar ao barroco, em tons de ouro branco e esmalte azul.

Se há marcas que não têm nada a provar sobre a sua capacidade técnica, a Patek Philippe é uma delas. Sendo uma das poucas manufacturas independentes, em mãos familiares, num mundo de Alta Relojoaria dominado pelos grandes grupos de luxo, ela produz desde há 175 anos o que muitos consideram ser os melhores relógios do mundo. O preço que eles atingem em leilões, batendo recordes sucessivos, diz muito sobre essa realidade.

Conhecida pelos seus cronógrafos, calendários perpétuos ou repetição minutos, com calibres esteticamente vistos pelos apreciadores como maravilhas da micromecânica, a Patek Philippe acha que o seu papel no campo dos métiers d’art é secundarizado. Isto, apesar de ao longo da sua história ter produzido peças altamente elaboradas do ponto de vista dos materiais, usando técnicas de esmaltagem, gravação ou pintura em miniatura que muito poucos podem apresentar.

Nada melhor do que produzir um relógio de pulso ultracomplicado e, ao mesmo tempo, esteticamente barroco, para demonstrar que os dois pilares – mecânica e arte – continuam bem vivos na casa da família Stern, actual proprietária da Patek Philippe.

Surge então o Sky Moon Turbilhão Ref. 6002, apresentado em Genebra, na sede histórica da marca, a um restricto grupo de jornalistas. Sobranceiro ao lago Lémans, defronte do conhecido jacto de água, um pano de fundo para fazer brilhar a mais recente jóia da coroa.

O Sky Monn Tourbillon Ref. 6002 é, assim, tão complicado por dentro como por fora. Diga-se, desde já, que não é uma série limitada, mas a capacidade de produção de peças deste tipo faz com que sejam poucos a sair da manufactura – ao ritmo de uns dois ou três por ano.

Este modelo vem na sequência do Ref. 5002 Sky Moon Tourbillon, o relógio de pulso mais complicado até hoje feito pela Patek Philippe, com um total de 12 complicações em dois mostradores.

O Sky Moon Tourbillon Ref. 6002 tem caixa gravada em ouro branco maciço e mostrador de esmalte champlevé azul sobre fundo de ouro. Um calendário perpétuo com data retrógrada, repetição minutos e fases de lua. No verso, também sobre esmalte azul champlevé, a representação do céu nocturno no hemisfério norte, com indicação do tempo sideral em mostrador de 24 horas.

Tem calibre da manufactura, totalmente desenvolvido, decorado e montado in house (RTO 27 QR SID LU CL), de carga manual. Repetição minutos (horas, quartos e minutos, através de dois gongs "catedral"), turbilhão, calendário perpétuo com indicação por janelas e data retrógrada, fases de lua, tempo sideral, progressão angular da lua.

Vem em estojo de madeira e acomoanhado de botões de punho, igualmente de ouro branco, gravados com volutas semelhantes ao relógio.

Com o selo de qualidade PP (Patek Philippe) e cronometria certificada para relógios turbilhão da marca, o relógio impressiona, do alto dos seus 42,8 mm de diâmetro e 17,35 mm de altura em ouro branco, totalmente lavrado. Diz a marca: “É uma escultura no pulso”. Um puzzle com 686 peças, acrescentaríamos nós…

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Memória - O mundo de João Vaz de Carvalho*

Já por várias vezes falámos aqui de João Vaz de Carvalho, pintor e ilustrador de estilo único e identificável logo ao primeiro olhar.

Ele tem, ao longo de décadas, explorado um mundo muito próprio, cheio de reminiscências da infância. Os relógios são presença assídua nos ambientes que cria. Eis alguns exemplos:

O seu universo pictórico é frequentemente povoado por um certo tipo de personagens ou de objectos, que vão saltando de quadro para quadro, em contexto e cor diferentes, mas manifestando quase sempre a sua presença. O relógio é um desses casos – tem uma explicação para isso?

Na minha linguagem pictórica, os diversos objectos e personagens que povoam os quadros são como caracteres de uma escrita coleccionados ao longo do tempo. Grande parte deles vêm de uma época de vivências intensas e ganharam raízes profundas. Hoje, evocam-me as mais diversas emoções. Apropriei-me dessas imagens e utilizo-as como se utilizam as letras de um alfabeto. Relaciono-as, atribuo-lhes um significado e com elas construo novas histórias. Os relógios, alguns relógios, são também letras desse alfabeto. Normalmente despidos da sua função de medir o tempo, eles têm para mim o valor de adereços especiais, com vida própria. São peças de um cenário do passado que gosto de reutilizar.

O tempo de criação costuma ser diferente para os artistas – nesses períodos, como que há um alheamento em relação ao tempo comum. Isso passa-se consigo? Quando está a pintar “esquece-se” do tempo?

No momento da criação não tenho a mínima percepção da passagem do tempo. Recentemente dei conta de que já tinham passado vinte anos desde a minha entrega a tempo inteiro à pintura. Costumo dizer que estive tão absorvido que me esqueci de olhar para o relógio durante todo esse tempo. Talvez tenha a ver com o tempo do prazer. Passa mais depressa do que o tempo da contrariedade.

A sua pintura tem uma vertente mordaz, aparentemente infantil. Como é o tempo nas situações que retrata? Um tempo apressado ou lento? Um tempo adulto ou de criança?

Gosto da palavra mordaz. Creio que nos meus quadros nem tudo é óbvio. Na verdade, a aparência infantil oculta sempre um lado menos evidente. A possibilidade de um sorriso rapidamente se desvanecer para dar lugar a um momento de reflexão, talvez definam bem as coordenadas do meu trabalho. É uma zona de emoções contraditórias e de equilíbrio difícil, menos infantil. O tempo está parado naquele instante. Apesar de existir um movimento permanente de personagens e objectos sugerindo o desenrolar de uma história, de uma acção no tempo, só aquele instante está retratado. Tal como um frame perdido que pertence a um filme de uma história desconhecida. É verdade que houve um tempo de criança que me marcou. Não sei se me marcou especialmente a mim. Mas como é possível não ficar marcado por uma época em que acreditava que tudo o que a imaginação produzia poderia ser real? Acho que, de certa maneira, é desse território de liberdade que todos continuamos à procura. Eu reencontro-o na pintura.

Qual a sua relação pessoal, quotidiana, com o tempo? É uma pessoa que organiza o seu tempo, ou perde-se nele?

Todo o meu trabalho é planeado de forma a que o tempo seja totalmente aproveitado. É muito raro gastar um minuto procurando coisas perdidas, e a melhor forma de o evitar é ser organizado. O tempo de pintar, o tempo do trabalho menos criativo, o tempo da família e do lazer, acho que todos eles são complementares. Todos eles são fundamentais para o meu equilíbrio e para conseguir obter resultados na pintura. Com o passar dos anos, aprendi que só consigo pintar durante quatro ou cinco horas por dia. Depois disso a capacidade de concentração é afectada pelo cansaço e não vale a pena continuar, é preferível parar. Todo o outro tempo é aproveitado para fazer outros trabalhos. E há uma série infindável de pequenas tarefas a fazer.

E a sua relação com o relógio? Usa relógio de pulso? Tem relógios de parede em casa? E despertadores?

Deixei de usar relógio de pulso, tenho alergia ao metal em contacto com a pele. Há uns anos, comprei um relógio que sempre desejei ter, entretanto esse problema agravou-se. Nunca mais o usei. Tenho alguns relógios em casa que são para mim mais do que relógios, são objectos que me dão muito prazer. Gosto especialmente de um deles, é um relógio de parede, creio que dos anos cinquenta, da Reguladora, tem um sacristão que toca os sinos da igreja. É muito engraçado. Se eu fizesse relógios faria relógios assim. Tenho também alguns despertadores divertidos dos quais destaco um par de despertadores chineses dos anos 70, cujos mostradores representam o triunfo da revolução chinesa. Num deles, o ponteiro dos segundos é uma mão acenando com o livrinho vermelho, no outro, é uma lanterna vermelha que pisca ao ritmo dos segundos, erguida por uma bela revolucionária chinesa. Não falta uma locomotiva com os dias do calendário e o avião que substitui o ponteiro dos minutos apontando para a modernidade da China. Tudo isto sob o olhar de Mao. Acho muita graça aos relógios que nos mostradores têm coisas inesperadas em movimento. Entre outros, está aquele despertador vermelho, com aspecto de combate e que faz um ruído terrível. Quando despertava deslocava-se pela mesa fora, tal era a sua trepidação. Veio de casa da minha mãe, sempre o vi por lá. Em criança, acordava-me para ir para a escola. Agora é um daqueles que gosto de pintar.

*Entrevista publicada no Anuário dos Relógios & Canetas de 2008





















JOÃO VAZ DE CARVALHO

Fundão, 1958.
De 1981 a 1984 trabalha em Coimbra, no atelier de Vasco Berardo.

Exposições de pintura

1987 Galeria Arte, Coimbra.
Pousada Rainha Santa Isabel, Estremoz.
1988 Galeria Roca, Marinha Grande.
Pousada de Palmela.
Colectiva na Galeria Espiral, Oeiras.
1989 Loja 102, Galeria Altamira, Lisboa.
Colectiva no C. C. Olaias, Lisboa.
1990 Galeria Roca, Marinha Grande.
Galeria Altamira, Lisboa.
Colectiva na Galeria da SRTC, Funchal.
1991 Casa das Artes de Tavira.
1992 Galeria Altamira, Lisboa.
1993 Galeria Arte, Coimbra.
Galeria Roca, Marinha Grande.
1994 Colectiva na Galeria Miron-Trema, Lisboa.
1995 Galeria da Caixa de Crédito Agrícola, Fundão.
Feira de Arte Contemporânea, FIL, Lisboa.
Galeria Altamira, Lisboa.
1996 Feira das Artes, Braga.
Galeria Altamira, Lisboa.
Feira de Arte Contemporânea, Exponor, Porto.
1997 Galeria Edicarte, Funchal.
Feira de Arte Contemporânea, FIL, Lisboa.
Casa Museu Almeida Moreira, Viseu.
1998 Colectiva de Pintura e Escultura, Galeria Miron-Trema, Lisboa.
Galeria Miron-Trema, Lisboa.
1999 Colectiva Papéis, Galeria Miron-Trema, Lisboa.
Colectiva Percursos, Galeria Miron-Trema, Lisboa.
Galeria Miron-Trema, Lisboa.
Feira de Arte Contemporânea, FIL, Lisboa.
2000 Colectiva Papéis, Galeria Trema, Lisboa.
Colectiva Papéis, Galeria da SRTC, Funchal.
Marca Madeira 2000, Funchal.
Galeria Trema, Lisboa.
Feira de Arte Contemporânea, FIL, Lisboa.
2001 Colectiva Erotikós, Galeria Trema, Lisboa.
Galeria Trema, Lisboa.
ARTE LISBOA, FIL, Lisboa.
2002 Galeria Novo Século, Lisboa.
ARTE LISBOA, FIL, Lisboa.
2003 Galeria Novo Século, Lisboa.
ARTE LISBOA, FIL, Lisboa.
2006 Bedeteca de Lisboa.
2007 Galeria Trema, Lisboa.

Projectos

1999 H2O, azulejos para a Revigrés.
2000 19 telas para o Hotel Villa Rica.
2002 Gastromanias, azulejos para a Revigrés.
2005 João Vaz de Carvalho, chávenas de café para a SPAL.

Exposições de Ilustração

1998 Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, Lisboa.
2001 Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, Lisboa.
2002 Ilustração Portuguesa, Lisboa.
2003 Ilustração Infantil, CNBDI, Amadora.
Ilustrarte - Bienal Internacional de Ilustração para a Infância,
AMAC, Barreiro.
2004 Prémio Stuart/ El Corte Inglés de Desenho de Imprensa, Lisboa.
Ilustração Portuguesa, Lisboa.
2005 World Press Cartoon ,Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra.
Ervilhas para Verdadeiras Princesas, bicentenário do nascimento de
Hans Christian Andersen, AMAC, Barreiro.
Ilustrarte, Bienal Internacional de Ilustração para a Infância,
AMAC, Barreiro
Prémio Stuart/ El Corte Inglés de Desenho de Imprensa, Lisboa.
2006 4ª Mostra de Ilustradores, Feira do Livro, Porto.
Animalaminute, Farol de Sonhos, Biblioteca Municipal de Cascais.
28 Histórias para rir, AMAC, Barreiro.
2007 28 Histórias para rir, Galeria Municipal, Abrantes.
Internationale Jugendbibliothek, An Imaginary Library, Munique;
III World Press Cartoon, Centro Olga Cadaval, Sintra; Prémio
Stuart/ El Corte Inglés de Desenho de Imprensa, Lisboa.

Livros infantis:

1997 7 Histórias de Animais da Quinta, Isabel Lamas, Impala.
1997 7 Histórias de Animais do Jardim, Isabel Lamas, Impala.
199¬7 Pela Casa Fora, José Jorge Letria, Livros Horizonte.
1998 Era Uma Vez... E Outra... E Outra..., Isabel Lamas, Impala.
2006 28 Histórias para rir, Ursula Wölfel, Kalandraka.
2007 El dia en que la mamá se le puso cara de tetera, OQO Editora.

Como ilustrador, tem colaborado em várias publicações, nomeadamente na realização de capas para livros para diversas editoras. Mantém, desde 1988, uma colaboração regular com a imprensa, tendo ilustrado para grande parte dos títulos nacionais, tais como: Marie Claire, Máxima, Cosmopolitan, Activa, Exame, Gentleman, Pais e Filhos, Rua Sésamo, Caras Decoração, Crescer, Casa Cláudia, Adolescentes, Homem/Relógios de Pulso, Noesis, Diário de Notícias/ Notícias Magazine, Expresso/Actual, Jornal de Letras, etc.
Em 1989 vence o 1º Prémio do Cartaz do Dia Mundial do Ambiente, promovido pelo Ministério do Ambiente.
Em 2005 vence o 1º Prémio da Ilustrarte 2005, ao qual concorreram 920 ilustradores de todo o mundo.