Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

O agora e o infinito - crónica de Fernando Alves, sobre o Tempo, Breguet e uma exposição em Arganil...


O agora e o infinito

Há, no cemitério do Père-Lachaise, um busto de Breguet, o grande relojoeiro suíço. É uma homenagem merecida ao físico, ao inventor do turbilhão e do calendário perpétuo. Ele permitiu que trouxessemos no pulso o acerto instantâneo, o agora e o infinito de que fala uma canção de Lenine. A canção não é sobre relógios, embora reclame do relógio um atraso feliz e de indefinido interlocutor uma palavra sussurrada que acalme a pressa e favoreça a lentidão. Breguet não cuidou desse desejo extravagante que reclama o essencial, tratou apenas de criar um mecanismo que pudesse medir e, ao mesmo tempo, impelir o compasso da vida de nós todos, os que procrastinamos e os que aceleramos a batida do coração correndo para parte incerta. Ele conjugou a maior ousadia artesanal e a precisão absoluta dos mecanismos de medição do tempo: o relógio que congeminou contempla o acerto dos anos bissextos e a diferente duração dos meses sem necessidade de intervenção até ao ano de 2100. Breguet morreu há mais de 200 anos e deu-nos este avanço, esta garantia de ainda quase mais um século no acerto das horas e dos dias até ao mais ínfimo suspiro do mundo. Deixámos de o trazer no pulso, guardámos tudo, turbilhão e calendário perpétuo, num ecrã de bolso. É a vida.

Há muitos outros magos da relojoaria glorificados pelos coleccionadores e estudados pelos especialistas. E isto poderia ser apenas um pretexto para regressarmos à obra de Fernando Correia de Oliveira, um grande estudioso da história do tempo e da arte da relojoaria em Portugal.

Muito poderia ele contar-nos, assim fosse mais vezes chamado à montra onde o tempo se dissolve. Nos três minutos mal contados desta crónica, muitas vezes feita em contra-relógio, trato de explicar ao que venho: cuido de chamar a vossa atenção para a exposição "Ser Relojoeiro", que abriu portas esta semana no Núcleo Museológico de Etnografia de Arganil. Os organizadores explicam que se trata de homenagem a uma profissão em vias de desaparecimento. O relojoeiro era uma figura central da comunidade, o mágico que acertava o nosso passo com o tempo, o que nos afinava os dias.

Basta-me saber que a exposição evoca o relojoeiro Manuel Cousinha, o notável impulsionador do relógio da Torre da Paz da Benfeita. Bastaria isso para encontrar utilidade numa deslocação a Arganil. Mas a exposição mergulha fundo num tempo em que os relojoeiros iam de terra em terra a medir o pulso aos nossos mais velhos. Não será coisa, como se diz agora, a propósito de tudo e de nada, imersiva. Mas, tal como ao relojoeiro de canções e multi-instrumentista Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, "é o que me interessa". Em podendo, mergulhemos em desafios como este de Arganil, trauteando a canção que reclama o essencial: o agora e o infinito.

Fernando Alves, hoje, em Sinais, na TSF

sábado, 27 de setembro de 2025

Meditações - o homem de uma época, que reúne e ultrapassa todas as épocas

AMA COMO A ESTRADA COMEÇA

CARTA / PREFÁCIO DE MÁRIO CESARINY PARA EURICO GONÇALVES

«Meu Caro Eurico Gonçalves:

Gostaria que estas linhas, que em primeiro lugar te são dirigidas, pudessem funcionar como apresentação da tua exposição na Galeria S. Mamede – não seria a primeira vez que publicavas uma carta no catálogo de uma mostra tua – e constituíssem uma explicação e uma reparação, ainda que muito sumárias, do silêncio em que, das duas ou três vezes em que foi necessário falar de surrealismo e de surrealistas aqui, tive a tua pintura e a sua exigência moral. Mas permitirás que, para começar, desfaça uma vez mais e último o cadáver esquisito de quantos queriam ver em mim o director ou a nurse do surrealismo em português.

Pode pôr-se em palavras mais bonitas: farol, barca-piloto, lâmpada no relógio. Parece que era esse o voto de alguns que nunca chegarão a saber (nunca quiseram sabê-lo) o que comi de treva muito escura, o que, a propósito de barcas, vi ir a pique, ou o que, a propósito de horas iluminadas, me falta em dias e em relógios de pulso. Depois de escassos meses de registo ortodoxo, coincidentes com a formação e o princípio de desagregação do "Grupo Surrealista de Lisboa" fui para o grande descanso de não ter que assinar pela colectividade ou escrutar o horizonte com vistas ao abate de árvores para os grupos. O que foi encontrado foi-o por acaso, na estrada, onde por acaso também estávamos. Assim, alguma gente que era não passou, outra, que passava, não era, outra, ainda, seria, mas poucochinho, um, enfim, era demais para ser somente nós todos: o António Maria Lisboa, que tu nunca deixaste de exaltar furando o silêncio que ainda hoje impera sobre a sua obra, citando-o em entrevistas, em catálogos, e até em títulos de quadros teus.

Somando resumido: qual era, em 1954, ano do teu aparecimento, com o Dante Júlio, na Galeria de Março, a situação do surrealismo ou de surrealistas aqui? No que à pintura se refere, não temo afirmar que era o pior do mundo. O brado inicial lançado por mim, pelo Alexandre O’ Neill, pelo Moniz Pereira e pelo Domingues dera, nos pintores do "Grupo surrealista de Lisboa", numa pintura completamente retrógrada, toda ela muito mais um mudar de oficina do que invenção de um instrumento novo. A exposição em Janeiro de 49, desse "Grupo surrealista de Lisboa" pertence realmente à erupção perene de um surrealismo de má ocasião ante o qual faltam forças e talvez razões para que se retire o made in surrealismus mas sobejam motivos para que se anote o estado de vácuo insolvente em que rebola toda a academia. Eram de certo escassos os meios de contacto, eram sem dúvida difíceis, em 47 e 48, em Lisboa, os itinerários pessoais em sincronia com as pontas de vanguarda, surrealista ou outra, que ao tempo se gerava. Não havia como hoje um serviço de críticos a telegrafar nem uma Fundação que, embora não possa obrigar a exceder, sempre leva a pessoa a viajar. Mas isto não é mais do que deslocar a questão para o campo da facilidade. Desde 45 que eram pintura surrealista no mundo a obra de Arshile Gorki, de Victor Brauner, de Wifredo Lam, ao mesmo tempo que se procedia (Breton procedia) a uma tomada de ponto que abria de par em par, se é que alguma vez estiveram fechadas, as fronteiras da obra surrealista até um Rauschenberg, a um Dine e à Pop arte (da Op não falemos porque já estava toda em Man Ray e em Duchamp). A partir do exílio norte-americano de Breton foi actividade incessante do criador do movimento surrealista a promoção do surrealismo abstracto, da arte bruta, do informalismo, da pintura létrica, gestual, Zen, concreta, neo-figurativa, neo-dada. E de tudo isto, que era a época, e a vanguarda dela, há um grande sinal menos na obra dos pintores do Grupo Surrealista. Porquê? Pergunta-lhes a eles, devem saber, ou pede ao teu irmão, que é crítico destas coisas. Eu, à época, a única coisa que soube foi afastar-me dali, no que encontrei excelente solidão e excelente companhia. E queres ouvir o que logo aconteceu? Queres ouvir a melhor? A crítica encartada logo se encarregou de proclamar tal pintura como o único surto bravo e excelente do surrealismo aqui. Depois dele, nunca mais outorgou surrealismo a ninguém, fechara a escola por ordem da direcção.

Tal era, meu caro Eurico Gonçalves, a situação, quando, em 54, quiseste que apresentasse a tua primeira mostra. Diante da sinceridade da posição que assumias, o meu prefácio era mais do que reticente, era de uma prudência de ave de pouco agoiro. "AMA COMO A ESTRADA COMEÇA", dizia-te, e, nisso, a minha quase recusa em corroborar, quase um pedido a que não corroborasses tu. Pois, ó angústia e miséria, a pintura que expunhas não se me afigurava assim tão longe ou tão fora dos cânones que já haviam vitimado os pintores do G.S. de Lisboa. Mais livre e inexperiente, com certeza, mas não eras também mais isso em idade? Poderias salvar-te do mostrengo? Sim? Não? Quem o diria? Talvez Paracelso: "não são os olhos que fazem o homem ver mas sim o homem que faz com que os olhos vejam", pus também no catálogo, por ti, por mim, por eles. Depois, perdi-te o rasto. Não antes, é verdade, depois de ter conhecido os admiráveis poemas que escreveste e ilustraste em quatro cadernos memoráveis que em qualquer país menos agrícola teriam visto a publicação.

Reencontrados, definira-se a liberdade da tua pintura, a autenticidade da sua e tua posição. Li com espanto espantoso que em pleno Agosto de 1968 te afirmavas surrealista. Perguntara-se: "Que influência do surrealismo reconhece na sua obra e no seu modo de agir?" Resposta: "Sou surrealista". Afirmativa realmente única em toda a panorâmica nacional. A bem dizer, um monstro, numa época em que todo o parentesco com o surrealismo (e pululam) é cuidadosamente envidraçado pelos próprios e desinfectado pela crítica. Hoje (1970) a tua pintura afirma de forma entre nós talvez única, a única fidelidade que Breton pedia aos que diziam seu o surreal: um vanguardismo realmente expresso, realmente capaz de absorver e de, se necessário, DESTITUIR toda a vanguarda anterior. Entendo aqui por vanguarda a criação poética tão profundamente gerada na necessidade de transmitir o homem de uma época, que reúne e ultrapassa todas as épocas. Não é negar a épocas, o passado, não seria possível desfazermo-nos delas, é como arremessá-las para o futuro. Gesto que a tua retrospectiva singularmente significa – seta atirada para além do horizonte. Somente, e para honrarmos juntos, aqui e agora, o poeta que não cansaste de querer a sós, peço-te licença para fechar estas linhas iluminando-as com a citação que dele já fizeste num catálogo:

"A Seta já contém o alvo mas só percorre a seta aquele que lhe conhece o alvo. Assim é de olhos fechados que o grande atirador alveja".

(Teu Mário Cesariny)»

(CESARINY, Mário – “Carta / Prefácio” dirigida a Eurico Gonçalves no catálogo da exposição retrospectiva “Eurico, 1950-1970”. Lisboa: Galeria  São Mamede, 1970)

domingo, 29 de setembro de 2024

Há 75 anos - Genebra inaugura o seu primeiro salão de relojoaria


 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

Há 75 anos, era inaugurado em Genebra o Salão “Montres et Bijoux”, coincidindo a sua primeira edição com os 2 mil anos da fundação da cidade por Júlio César, em 58 a.C.

Em 1942, estava-se em plena guerra mundial, e a Suíça, tal como Portugal, manteve-se neutral ao longo do conflito, mas sofreu, claro, as suas consequências. Nomeadamente com a quebra na exportação de relógios. 

Embora isso fosse compensado com a exportação de calibres para a Alemanha, nomeadamente através de Portugal, para servirem de temporizadores às bombas nazis. Mas isso é outra história, que já abordámos, nomeadamente em História do Tempo em Portugal.

“Montres et Bijoux”, que era para ser um evento único, decorreu no Museu de Arte e de História da cidade. Aberto apenas a marcas suíças, foi durando até 1960, quando se abriu a outras nacionalidades. E durou assim até 1982. Pode considerar-se o precursor do Salão Internacional de Alta Relojoaria, hoje Watches & Wonders, que nasceria em 1991.

Desde 1959, e paralelamente ao “Montres et Bijoux”, houve um “Prix de la Ville de Genève de la Montre et de la Joaillerie”, antepassado do actual Grand Prix d’Horlogerie de Genève (GPHG).

Por Portugal, em 1940, inicia-se a publicação de Cronos, Revista Cronométrica, uma “revista mensal ibero-americana dos relojoeiros de Espanha, Portugal e países americanos”. Dirigida por Henrique Pires, e depois por Alcindo A. Augusto, a Cronos publica-se até 1949.

Por essa altura, ocorre no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, uma “Exposição Suíça de Relógios”, iniciativa da indústria relojoeira e demonstrativa da importância que o mercado português sempre teve para aquele país, especialmente no capítulo dos relógios de pulso (relojoaria fina). Segundo relato da Cronos – Revista Cronométrica, além de peças de museu, estiveram patentes o relógio que à altura era o mais pequeno do mundo (14x12 mm) e aquele que era o mais fino (3 mm), os dois no stand da Omega.

domingo, 17 de outubro de 2021

Os 140 anos da Seiko comemorados no restaurante japonês mais exclusivo de Lisboa

A Seiko, manufactura nipónica fundada em 1881 em Tóquio por Kintaro Hattori, está a comemorar 140 anos. A Certora, representante da marca na Península Ibérica, organizou um almoço para seis convidados, no Kanazawa, na zona ribeirinha de Lisboa. Um evento exclusivo de uma marca cada vez mais exclusiva, no restaurante japonês mais exclusivo da cidade - só tem oito lugares, todos ao balcão. Domo Arigato Go Sai Masta Certora!

De seguida, um portefólio do evento, de trás para a frente, desconcertante, como um bom koan zen..., filosofia em que fomos iniciados há muitos, muitos anos pelo mestre Georges Sttobaerts. Começemos pois pelo final, a sobremesa, e avancemos até ao amuse bouche que foi o tiro de partida do excelente menu degustação (para nós, sempre ligeiramente braseado, que somos mais adeptos de tempura...)

Explica-nos o próprio Kanazawa:

Com um menu kaiseki único, que respeita os rigorosos conceitos nipónicos, e apenas oito lugares ao balcão, o Kanazawa apresenta-se como o restaurante japonês mais exclusivo de Lisboa. Paulo Morais, o chef português mais especializado em cozinha oriental, é o chef e proprietário do restaurante. A cozinha Kaiseki, equivalente ao ‘fine dining’ ocidental, exprime, através de um menu de degustação, a estação e o lugar onde se encontra, sendo as técnicas de confecção e a apresentação dos pratos absolutamente rigorosas. Os clientes são sempre recebidos pelo chef que, à sua frente, lhes prepara o menu escolhido, enquanto explica cada prato pormenorizadamente, de modo a que consigam entender o que estão a comer, de onde vem e o porquê de ser servido assim. A apresentação do prato é meticulosamente pensada, mais uma vez respeitando o conceito japonês: a loiça escolhida, o empratamento elegante, a atenção ao detalhe, reflectindo a arte minimalista nipónica.

Paulo Morais explica os vários elementos que irão servir para o sushi



Em cima, os representantes da Certora, à direita, com alguns dos convidados


Em cima, os restantes convidados. Em baixo, o fondue japonês












Miguel Rodrigues, da Certora, dá as boas-vindas ao grupo de convidados e explica a estratégia da marca, que pretende ser cada vez mais exclusiva, reduzindo pontos de venda e avançando para a divulgação da sua marca autónoma topo de gama, Grand Seiko.






Em baixo, algumas das edições especiais, limitadas, comemorativas dos 140 anos da Seiko





Com apenas 21 anos, Kintaro Hattori abriu uma loja de venda e reparação de relógios, no centro de Tóquio. Onze anos depois, em 1892, fundou a fábrica Seikosha. A Seiko foi a introdutora do relógio de pulso de quartzo, o Astron, no final de 1969 (ver aqui, aquiaqui). Portugal, que influenciou a cozinha tradicional japonesa, introduzindo nela o polme, e que daria lugar à técnica tempura (palavra que vem do português - tempero), também foi resposnável pela introdução no país da relojoaria mecânica (ver aqui). A tecnologia híbrida Spring Drive (calibres automáticos que geram electricidade e, com ela, alimentam o orgão regulador de quartzo), a alimentação de calibres de quartzo por energia solar ou os relógios conectados com acerto da hora por GPS são alguns dos avanços tecnológicos introduzidos pela Seiko ao longo dos seus 140 anos de existência. Seguindo o mote de Kintaro Hattori - "Sempre um passo à frente dos restantes".

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Relógios & Canetas online Setembro - Editorial - Futuro com demasiado passado

Editorial Setembro

Futuro com demasiado passado

Em 2015, a Suíça exportou 28.137.527 relógios e mecanismos de relógios. Esses mais de 28 milhões de unidades já estavam a diminuir anteriormente, mas a queda tem-se acentuado de então para cá. Em 2020, ano afectado pela pandemia, a redução face a 2015 foi para menos de metade (13.780.199 unidades), embora em valor a redução tenha sido apenas de 21,5 mil milhões para 16,9 mil milhões de francos. Ou seja, o preço unitário do relógio subiu.

Para 2021, e no primeiro semestre, a redução em volume face ao ano “normal” de 2019 é de 10 milhões para 6,9 milhões de unidades (-30,4%), com a comparação em valor a confirmar a subida cada vez mais acentuada (+0,8%).

As novas regras do Swiss Made (imposição de 60 por cento de valor acrescentado suíço) terão matado o segmento de relógios abaixo dos 300 francos à saída da fábrica (muitas marcas de moda, que investiram em fábricas no país, para respeitar o Swiss Made, estão a sofrer muito, e algumas já desistiram dessa chancela).

O relógio conectado, que entra directamente na concorrência a esse segmento, e que é liderado por gigantes do gadget electrónico, também ajudou a esta debacle, para a qual a indústria helvética não parece encontrar resposta (é inadmissível o seu atraso tecnológico nos smartwatches, fazendo recordar a sua impreparação, há 50 anos, quando surgiu o relógio de quartzo).

Como nos dizia recentemente João Santos, antigo CEO do maior grupo relojoeiro português, hoje COO do WYgroup:

“Teremos em breve um mercado bifurcado com um país produtor de ‘obras de arte’ mais caras e mais inacessíveis, e um bloco de outros - a Oriente - que irão produzir produtos de consumo corrente com funcionalidades de utilização para o dia a dia. A batalha pelo pulso está perdida pela indústria suíça, ficam agora as obras-primas que terão a prazo o impacto de uma visita ao Louvre. Belas, mas para poucos e entendidos. Fica apenas por definir a mais preocupante das tendências. Se a nova geração, já de si não utilizadora de relógio, o vai procurar mais tarde como símbolo de sucesso ou por nostalgia, ou se pura e simplesmente o vai ignorar e olhar para ele da mesma forma como vai olhar para um carro a diesel”.

Acompanhe aqui ou aqui as novidades. Milhares de relógios mostrados na maior plataforma do seu género em língua portuguesa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A Elle Portugal acabou - recordando um texto escrito para os seus 20 anos

 

Editadas no mercado português há três décadas pela RBA, as revistas Elle e Elle Decoração vão ser descontinuadas. As “profundas transformações no mercado das revistas femininas, aceleradas pela pandemia da covid-19” são as razões apontadas pela RBA Portugal num comunicado onde a editora informa que irá descontinuar a licença de publicação dos títulos, incluindo também a presença online da marca, pelo que “o número duplo de Março/Abril (n.º 388), já nas bancas, é o último”.

“Foram 32 anos a acompanhar de perto mudanças culturais e sociais e a contribuir para a consciencialização das questões femininas – da moda e beleza aos direitos cívicos passando pela maternidade, sustentabilidade e inclusividade”, sublinha a editora no mesmo comunicado. O encerramento dos títulos, avança a agência Lusa citando fonte ligada ao processo, deverá afectar sete profissionais.

Colaborámos várias vezes com a Elle, sobretudo durante a Direcção de Fátima Cotta.

Em Julho de 2008, por ocasião dos 20 anos da Elle em Portugal, escrevíamos:

20 anos de tradição, audácia e lição de sobrevivência

A revolução na relojoaria, à conquista da mulher

Fernando Correia de Oliveira*

O que mudou nos últimos 20 anos na Relojoaria? Tudo. A entrada no mercado de grandes grupos de investimento ligados ao sector do luxo, comprando manufacturas históricas; a ofensiva das marcas de moda, com a sua linguagem comunicacional, fazendo cada vez relógios mais “relojoeiros”; a resposta das manufacturas relojoeiras, fazendo cada vez mais relógios respondendo à moda; o desenvolvimento de novos materiais; a impregnação de estilos de joalharia em peças mecânicas, o equipar de jóias com movimentos mecânicos sofisticados; o renascimento do relógio mecânico, mas também a sobrevivência maciça do quartzo; a fusão disto tudo, aliado a um público consumidor cada vez mais informado; e a batalha pelo público feminino, cada vez mais forte e independente do ponto de vista económico, cada vez mais influente na compra de relógios para si ou para “eles”.

Carlos Rosillo, Presidente da Bell & Ross, é um observador privilegiado destas mudanças. Em Paris, perto da Place Vandôme, epítome do luxo mundial, almoçámos recentemente com o responsável por uma marca jovem, com apenas 16 anos, mas que cedo ganhou forte identidade num meio onde isso é muito difícil de conseguir.

“O que é mágico e formidável no sector relojoeiro é que ele não é demasiado grande, mas tem uma força enorme, uma visibilidade colossal”, diz. “Isso não se passa em mais nenhum sector com as mesmas dimensões em termos económicos”.

Para o consumidor, cada vez mais “marca” é o grande factor de decisão na hora da compra. Enquanto em sectores como o da informática ou da alimentação o conceito de “produto branco” ganha terreno (até pela crise económica que se atravessa), no sector de luxo já não se compra “um relógio de ouro” ou apenas “um anel”. A marca é tudo. “Há tantas escolhas possíveis, hoje em dia, que se não se escolher bem a estratégia a seguir, não se é uma marca, morre-se”, diz Rosillo, que tem como aliado poderoso nos mares super-competitivos do luxo um nome de peso como é a Chanel, que tem participação no capital da Bell & Ross.

A relojoaria é uma indústria muito marcada pelo passado, pela tradição, mas desde há cerca de duas décadas que surgiu a chamada relojoaria moderna. “Como na pintura, no início do século XX, houve uma ruptura”, faz notar Rosillo. “Veja o exemplo da gastronomia, outro sector muito tradicional, que começou a mexer mais ou menos pela mesma altura”.

Tal como na gastronomia, partiu-se da tradição, como base, que se domina bem, mas integrando elementos da modernidade que não estão directamente ligados à relojoaria. Isso passou-se com os materiais, com a concepção, com as funcionalidades. Um relógio, hoje em dia, não tem forçosamente que ser redondo, com três ponteiros e em aço ou ouro. “Houve uma explosão de criatividade, que num sector tão tradicional como a relojoaria se traduziu numa espécie de revolução”, explica Rosillo.

Um relógio continua a transmitir a sensação de domínio do tempo, de reconhecimento social, de concentração de valor, continua a ser um objecto muito cultural. Mas hoje, com o potencial que há de inovação, o sector está muito fragmentado. Sem falar das marcas puramente de moda, o verdadeiro desafio para as marcas relojoeiras é prosseguir o seu caminho, sem desbaratar o ADN histórico, muitas vezes secular.

Segundo Rosillo, “prolongar esse caminho num ambiente globalizado, mas com gostos muito diferentes, é muito difícil, pois há países onde o luxo é acima de tudo não ostentatório e outros onde se passa exactamente o contrário”. Em termos de ergonomia e de tamanho, o mercado também é muito vasto. E, depois, há ainda o paradoxo tradição-modernidade, uma linha de tensão que se nota cada vez mais sobretudo nas velhas manufacturas, obrigadas a mudar sem descaracterizar.

No meio do palco global, uma marca pode ser pequena, se ainda por cima aspira a um nicho, mas não pode permitir-se não ser internacional. Tem que estar nas grandes meças do consumo, na rede dos melhores pontos de venda mundiais.

O paradigma da globalização é, claro a Swatch. Um fenómeno estudado nas faculdades de Economia e Gestão de todo o mundo e que é considerado “o pontapé de saída” da tal revolução no sector relojoeiro. Tudo se pode contar de uma maneira simples: a ofensiva do quartzo, em relógios baratos e fiáveis, vindos do Japão, estava a tornar moribunda a indústria europeia (suíça, sobretudo). Pelo preço, a batalha estaria perdida. Os bancos helvéticos, donos inesperados de manufacturas históricas devido a créditos malparados, desafiaram um investidor, Nicolas Hayek, a tomar conta do problema. E, há um quarto de século, nascia o conceito Swatch – a primeira aliança entre relojoaria e moda, entre design moderno e ritmos de consumo urbanos e globais. Com o capital conseguido através da Swatch, Hayek foi modernizando as velhas fábricas, comprando marcas atrás de marcas, tornando-se em apenas década e meia no dono do maior grupo relojoeiro do mundo, com um portfolio que vai da Alta Relojoaria aos relógios para crianças.

O problema, no sector, hoje em dia, parece ser o de conquistar a juventude para o objecto relógio, cada vez menos usado como medidor de tempo, dada a parafernália de gadgets – telemóvel, computador, leitor de música… – que dão adicionalmente essa função.

Falámos recente com Nicolas Hayek, em Lugano, na Suíça italiana, onde ele organizou mais um evento Swatch. O relógio desapareceu como simples medidor de tempo? “ Mas isso foi uma das coisas que eu previ!”, responde esta figura incontornável da relojoaria mundial, que acaba de fazer 80 anos. “Quando lancei o Swatch tinha claro que não ia fornecer ao mercado um instrumento de medição do tempo, mas antes um adereço puro de moda, um sinal de estilo de vida. Já em Alta Relojoaria, não estou a vender um relógio nem um adereço, estou a acenar com uma jóia, em ouro ou platina, cravejada de diamantes, que tem no interior um mecanismo que é outra preciosidade. Trata-se de um investimento, como se estivesse a comprar um quadro.”

Jerôme Lambert, quando chegou à Jaeger-Le Coultre, no final dos anos 90 do século passado, tornava-se no mais novo Presidente de uma manufactura relojoeira suíça. E que manufactura. A “Grande Maison”, nome como é tradicionalmente conhecida na região do Valée de Joux, comemora em 2008 os seus 175 anos. Com grande pujança. A marca, que faz parte do universo Richemond, o maior grupo de Alta Relojoaria do Mundo, fabrica apenas relógios com os seus próprios calibres, coisa rara numa indústria onde a maior parte dos “motores” é adquirida à mesma fonte, o Swatch Group. Hoje com 39 anos, Lambert reconhece que a marca tem ainda muito que avançar no mercado feminino, onde as potencialidades são enormes. “A Jaeger-LeCoultre é vista como uma das grandes marcas relojoeiras puras, com calibres do melhor que se fabrica, mas com caixas quase exclusivamente masculinas”, diz-nos ele em Miami, onde acaba de lançar novos modelos da mítica linha Reverso. “Mas as coisas estão a mudar, investimos muito nos últimos anos nos modelos femininos, e a nossa designer principal até é uma mulher, Magali Metrailer, coisa única na indústria”.

Philippe-Leopold Metzeger, Presidente da Piaget, uma das manufacturas mais tradicionais, e talvez aquela que melhor consegue fazer a aliança entre relógio e jóia, fala-nos em Genebra, onde acaba de inaugurar o Museu da marca, em plena Rue du Rhone, o coração do luxo genebrino. “O desafio, hoje em dia, para uma casa como a Piaget é sermos criativos sem deixar de ser clássicos; contemporâneos sem descaracterizar uma personalidade muito própria, desde sempre ligada aos segmentos mais exclusivos do luxo”, diz. A Piaget, fundada em 1874 e adquirida em 1988 pelo Grupo Richemond, faz hoje também parte do portfolio do maior grupo de Alta Relojoaria do mundo. “Fazer sempre mais do que o necessário”, mote do fundador, Georges Edouard Piaget, continua a ser o segredo dos mestres das “jóias animadas”.

O relógio-jóia é, especialmente nos mercados ocidentais, um segmento puramente feminino, que tem ganho importância crescente nas duas últimas décadas. Mas não é apenas neste segmento elevado que as coisas estão a mexer. Nestes mercados consolidados, conquistado e explorado o segmento masculino, é no feminino que ainda há muita coisa a fazer e todas as marcas, sejam elas joalheiras, relojoeiras, tradicionais ou de moda, estão a investir muito nisso.

A Audemars-Piguet, por exemplo, uma das poucas grandes manufacturas que permanece independente (a par da Rolex ou da Patek Philippe), e que se orgulha de ainda estar nas mãos das famílias fundadoras, conseguiu na última década lançar modelos femininos com design moderno, aliando o aspecto exterior “jóia” ao miolo puramente relojoeiro e com calibres altamente complicados. Nos corredores do último Salão Internacional de Alta Relojoaria, o clube privado do luxo relojoeiro, que concentra anualmente em Genebra muito do que de melhor e mais exclusivo se faz, o Presidente da Audemars-Piguet, Georges-Henri Meyland, afiança-nos que a manufactura quer elevar de 20 para 30 por cento, nos próximos cinco anos, as vendas em relógios femininos.

Já Fawaz Gruosi, fundador há apenas 15 anos da marca de Grisogono, fez tremer as grandes marcas joalheiras, primeiro, relojoeiras depois, mercê da sua audácia estética e comunicacional. Casado com Caroline Gruosi-Scheufele (a família Scheufele é dona da Chopard, que por sua vez detém 49 por cento da de Gruosi), Fawaz tem usado como estratégia privilegiada de comunicação festas mundanas que já se tornaram célebres, sejam elas no Mónaco, em Hong Kong ou Palm Beach. Os concorrentes passaram a imitá-lo, mas o ambiente de Grisogono continua a ser o reino do barroco e de uma certa beautiful people que não se encontra em mais lado nenhum. Fawaz abriu em 1993 a sua boutique joalheira na Rue du Rohne, um dos espaços mais belos desta Meca do luxo. Lançou em 1996 a moda do diamante negro, apresentou em 2000 a sua primeira colecção de relógios. Que marcaram desde logo pela aliança entre o arrojo estético e a inovação mecânica ao mais alto nível. Estivemos na gala dos 15 anos da de Gruosi, em Genebra, três dias de permanente festa e onde o castelo de Fawaz, à beira do lago Le Mans, serviu de base para mais de 200 convidados internacionais. “A mulher é tudo, é o desafio supremo, e os relógios e jóias que desenho para ela são hinos à sua beleza, à alegria de viver, ao prazer puro”, diz-nos este mago do barroco contemporâneo.

A Raymond Weil orgulha-se de ser uma marca independente, familiar, com o fundador ainda vivo e com a gestão a transitar da primeira para a terceira geração. Oliver Bernheim, actual Presidente da empresa, é genro do sr. Raymond, e os seus dois filhos já têm cargos de responsabilidade numa marca com um prestígio forte em Portugal, um dos primeiros mercados onde se lançou. “Em meados dos anos 90, vendíamos 35 mil relógios por ano em Portugal, criámos um mercado de relojoaria de luxo que não existia no país”, diz Olivier Bernheim, para quem o mercado português continua a ser “histórico”. E onde, como observador privilegiado, tem assistido a “uma violenta polarização da rede de pontos de venda, especialmente nos últimos cinco anos, onde há uns poucos muito bons, ao nível do melhor que se encontra no mundo, e uma maioria que terá que se modernizar, sob pena se perecer, especialmente num momento de crise como o que se está a atravessar”.

Falámos com Olivier numa das suas frequentes passagens por Lisboa. O que mudou nos últimos 20 anos? “Tudo, absolutamente tudo”, atira, sem hesitar. “Há 20 anos, quando o meu sogro fundou a Raymond Weil, havia como concorrentes apenas a Rolex, Cartier, Omega, Fabre-Leuba, Longines, Ebel. Todas as outras marcas estavam adormecidas ou não existiam”.

Para ele, “todo o dinamismo que se vê hoje na relojoaria surgiu nos últimos 20 anos. Até então, os relógios eram apresentados pela sua beleza e, subsidiariamente, tinham uma marca. Hoje, temos as marcas, que declinam modelos, é uma filosofia completamente diferente. Havia poucas empresas que fabricavam relógios, havia muitos relógios belos que, por acaso, até tinham marca”.

Há 20 anos não havia a bipolarização que há hoje em dia entre relógio de moda e relógios “relojoeiros”, mas antes entre peças de gama alta, média e baixa. Era o preço, e não o estilo, que dividia o sector. “O relógio feminino dominava o mercado, pelo seu lado joalharia, bijou; o relógio de homem era apenas de quartzo, havia muito poucos mecânicos”, recorda.

Depois, o mercado feminino de relojoaria diminuiu ao longo dos anos devido ao surgimento de uma enorme quantidade de acessórios para senhora, que entraram em directa concorrência com o objecto relógio. Isso enquanto o relógio de homem cresceu no mecânico, tornou-se naquilo que era o automóvel, símbolo, estatuto. “E com o andar da carruagem, com velocidades limitadas, combustível cada vez mais caro, questões ecológicas, o relógio tenderá a ganhar cada vez mais ao carro em termos de objecto de culto…”, atira Olivier Bernheim, que vê também problemas futuros no sector relojoeiro-joalheiro, devido ao aumento do preço das matérias-primas como o ouro. Quanto à Raymond Weil, reconhece: “Investimos, como a maioria das casas relojoeiras tradicionais, muito nos últimos anos no relógio de homem, vamos investir fortemente no relógio de senhora, onde está agora o mercado mais apetecido”.

No capítulo do relógio desportivo, a TAG-Heuer é líder mundial. Inserida no universo LVMH, o maior grupo de luxo do mundo, tem conseguido manter essa liderança, aliando uma estratégia de comunicação muito própria a um desenvolvimento tecnológico de ponta, seja ele nos movimentos mecânicos ou nos de quartzo. A política de “embaixadores” é a trave mestra comunicacional da marca, e as mulheres (desportistas) ganham cada vez mais peso na imagem TAG-Heuer. “Independentemente de o relógio ser mecânico ou de quartzo, o cliente tem que ser bem tratado, ter um serviço pós-venda impecável, saber da fiabilidade do produto que acabou de adquirir”, diz-nos o seu Presidente, Jean-Christophe Babin. Anfitrião recente do novo Museu da marca, em La Chaux-de-Fonds, no coração relojoeiro suíço, Babin veste bem o espírito da casa: ostenta uns óculos TAG (as iniciais significam Tecnologia de Avant-Gard), produto lançado há pouco mais de um ano com grande êxito, explorando a imagem forte da marca, que agora se aventura também no mundo dos telemóveis topo de gama.

Mesmo para gente pouco atenta ao mundo da relojoaria, o nome de Franck Muller não passa despercebido. Este aluno brilhante de relojoaria, mestre relojoeiro revolucionário, criador da sua própria marca (hoje pertencente a um grupo de um investidor arménio), foi dos primeiros a fazer despertar para a relojoaria uma nova vaga de consumidores, ávidos de adquirir estatuto e símbolo de sucesso. Mercê de linhas arrojadas para a época, facilmente identificáveis, esteticamente perfeitas, com movimentos mecânicos ultra-complicados, os relógios Franck Muller têm já um lugar de referência na história da relojoaria contemporânea.

Franck passou recentemente por Lisboa, onde lançou mais um modelo exclusivo para o mercado português, ávido de edições especiais. Almoçámos com ele num dos pátios interiores da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, em cujas oficinas foi feito o estojo de madeira da edição limitada dos relógios Proud of Portugal.

“Nos últimos 20 anos, acima de tudo, mudou a tecnologia”, diz aquele que se projecta como Mestre de Complicações. “Quando estudei e depois me lancei como fabricante, ainda era tudo feito à mão, hoje em dia o processo micro-mecânico avançou muito, podendo fazer-se com linhas de produção totalmente robotizadas coisas inimagináveis em tamanho, fiabilidade, precisão”.

“Como somos uma marca nova, desde logo começámos a pensar os relógios femininos de forma separada, não seguindo a tendência geral que era fazer relógios masculinos apenas mais pequenos, a que se acrescentavam diamantes…”, diz Franck Muller. “E a mulher manda, manda sempre, seja nas compras para ela ou para ele. Qual é o homem que se atreve a comprar, mesmo para ele, sem saber se isso é também do gosto da companheira?”, pergunta com ironia.

Quanto ao futuro, onde o grande inimigo é as novas gerações preferirem o telemóvel último modelo ao relógio, Franck Muller tem uma visão: a fusão suprema, em que no pulso, deles ou delas, haverá um instrumento que seja ao mesmo tempo relógio (que também diga as horas, falando), telefone, máquina fotográfica, scanner, medidor de tensão arterial… “A tecnologia já existe toda, falta conseguir criar um modelo que fuja do gadget barato e seja assumidamente um objecto de desejo e de luxo”.

Futuro da “guerra” Estética versus Técnica

Falámos também com quem acompanha mais directamente o mercado português – importadores, retalhistas, históricos há dezenas de anos no sector, mas também representantes de uma nova geração, num negócio que continua a ser muito de família e onde a tradição e a relação pessoal com o cliente pesa cada vez mais. Num futuro onde a dicotomia Estética versus Técnica poderá estar a esbater-se. Ou não…

Nas últimas duas décadas, o conceito de relógio feminino (pequeno, versão reduzida e adaptada do modelo masculino) mudou bastante, mas como será o futuro?

António Luís Moura, que vem de uma família dominante na importação de relógios no século XX português, e que está no sector há quase 40 anos, diz que se vivem “tempos de exclusividade, em que cada pessoa quer uma peça adaptada à sua própria personalidade”, e onde o relógio feminino “é um campo com enorme potencial de crescimento, à medida que os fabricantes forem sendo capazes de ir pensando ‘out of the box’ e criando novos designs, novos conceitos para uma nova mulher consumidora, independente”. Simoneta Gómez-Acebo, Directora de Relações Públicas e Imprensa da Cartier Ibéria, baseada em Madrid, é mais concisa: “o relógio feminino continuará a evoluir na medida em que o mundo também vai evoluindo”. Já Marta Torres, sexta geração de uma dinastia que começou a sua actividade no ramo em 1910, a partir de Torres Vedras, e que acaba de tomar responsabilidades de direcção na empresa familiar, a Torres Distribuição, líder nacional na importação de Alta Relojoaria, diz-nos que “o segmento que mais tem evoluído mundialmente é precisamente o do relógio feminino, pois as marcas procuram responder ao gosto específico da mulher, desenvolvendo linhas inteiramente dedicadas a ela” e que “a utilização de novos materiais, como peles de cobra piton ou de raia, o denim, a cerâmica, permitem adaptar o relógio ao gosto contemporâneo, preservando-o como objecto de desejo”. Marta Torres salienta uma tendência recente: a entrada do relógio mecânico no sector feminino, com os calibres à vista, incluindo turbilhões. Cristina Kolinski, da importadora Tempus Internacional e da cadeia de retalho Boutiques dos Relógios (líderes nos respectivos segmentos de mercado), acha que os últimos anos têm visto “os relógios femininos a serem desenhados e desenvolvidos de raiz, a pensar nos gostos e nas características femininas, deixando de ser modelos adaptados apenas das versões masculinas”. Paulo Santos, outro caso de sucesso de uma nova geração com raízes familiares no sector (da cadeia de lojas Manuel dos Santos), pensa que os pulsos femininos “democratizaram-se”, pois as mulheres passaram a usar o relógio como um “acessório” de moda, conjugando-o com a roupa, estilo ou até com a disposição do momento. “Em vez do tradicional relógio para sempre, normalmente em tamanho reduzido ou mini, é possível encontrar uma forma muito diferente de ‘vestir’ o pulso, variando entre o extra-large mais desportivo e o tradicional mini, mais festivo, com todas as marcas a fazerem um esforço de criatividade dedicado em exclusivo à mulher”.

O relógio-jóia continua a ser mais valorizado pelas pedras e metais preciosos empregues do que pelo mecanismo que tenha no seu interior, e isso passa-se particularmente no relógio feminino. Poderá haver uma "cultura relojoeira" feminina?

António Luís Moura acha que isso depende mais dos fabricantes do da mulher consumidora. “Compete a estes definirem conceitos e estratégias que sejam atraentes para a mulher”, diz. “À medida que as mulheres forem investindo mais dinheiro na compra de bons relógios, irão começar a exigir a intemporalidade das peças, e isso quer dizer, na maioria dos casos, não estarem dependentes de uma pilha”. Simoneta Gómez-Acebo acha que o relógio-jóia continuará a ser rei como peça aspiracional no universo feminino, mas reconhece que, nos últimos tempos, as mulheres começam a interessar-se igualmente por aquilo que está dentro, pelo funcionamento do relógio e pelas suas particularidades técnicas (mecânicas). Marta Torres admite que o relógio-jóia continua a ser uma peça de eleição, muitas vezes exemplar único, feito por encomenda, factor de comunicação de imagem de luxo e exclusividade de algumas marcas, mas sublinha que grandes manufacturas, com calibres mecânicos complexos, como a Jaeger-LeCoultre, conseguem introduzi-los em jóias, dando assim o melhor de dois mundos em peças de eleição. “Existe sem dúvida uma cultura relojoeira feminina, que não está necessariamente desligada do sentido técnico de manufactura relojoeira”, defende. Posição idêntica tem Cristina Kolinski, pois “apesar de ainda serem em menor número, há já muitas mulheres que não escolhem somente os relógios pela marca ou design, mas sim pelas suas características tecnológicas, procurando saber se o relógio é ou não automático, se tem função cronógrafo, etc.” Paulo Santos acha que a mulher estará sempre mais focada no aspecto estético e o homem mais no aspecto técnico, isto à semelhança do que acontece em outros sectores, como o automóvel. “Elas demonstram mais curiosidade técnica quando estão a comprar para oferecer ao homem, mas quando compram para si ou para oferecer a outra mulher, a preocupação é mais com a estética”. E remata com alguma ironia: “Diria que podemos vender um relógio menos feliz esteticamente a um homem, porque ele está fascinado pelo movimento, e isso (a meu ver bem) é quase impossível ocorrer com uma mulher”.

As estratégias de moda invadiram a linguagem comunicacional do sector relojoeiro, e as grandes marcas de moda fazem todas relógios sob o seu nome. A mulher tem procurado mais, na decisão final de compra, o estatuto dado pela marca do que o dado pela tradição relojoeira?

Simoneta Gómez-Acebo acha que o sector tem estado atento e, ao aperceber-se de que a mulher se interessa cada vez mais pelos aspectos técnicos, dirige parte da sua comunicação nesse sentido. “A mulher tem cada vez mais exigências na hora da escolha – não se fica só pela aparência, quer saber como funciona”, diz a representante da Cartier. António Luís Moura acha que a questão não é de sexos: “A marca é, hoje em dia, um factor fundamental na escolha de um relógio, seja pela mulher ou pelo homem e, por regra, as grandes casas relojoeiras do passado são actualmente também grandes marcas”. Cristina Kolinski reconhece que “o mercado feminino continua a preferir ter mais relógios em quantidade a um preço razoável do que uma peça de Alta Relojoaria” e que, muitas vezes, “a marca sobrepõe-se à qualidade intrínseca de um relógio”, mas “essa tendência está, a pouco e pouco, a mudar”. Marta Torres dá uma visão mais alargada da questão: “Existe hoje em dia uma tendência de diversificação de produto nas grandes casas de moda internacionais, pois, para além do vestuário, têm vindo a desenvolver uma vasta oferta de acessórios (perfumes, cosméticos, óculos, jóias, relógios, etc.), obedecendo todos a standards máximos de qualidade (no caso dos relógios, os casos Versace ou Chanel, por exemplo, procuram a legitimidade relojoeira suíça)”. Paulo Santos diz que há já uma minoria de clientes da Manuel dos Santos “que procura o estatuto da marca, conjugado com a tradição relojoeira, mas o público feminino compra sobretudo marcas de moda, depois marcas joalheiras, e no final da lista aparecem as marcas com tradição relojoeira”.

Haverá ainda um "relógio feminino" hoje em dia, quando se sabe a tendência de aumento dos tamanhos das caixas e do êxito que têm tido relógios masculinos comprados de e para mulheres?

Marta Torres recorda Yves-Saint Laurent, recentemente falecido. “Ele foi mestre na arte de tornar feminino até o mais emblemático ícone do vestuário masculino, o smoking, e isso não tornou as mulheres menos femininas”, diz, para lembrar que “os gostos femininos evoluíram, dos relógios pequenos e discretos (os diamantes apenas eram usados em ocasiões especiais) para tamanhos de caixas maiores, com materiais, formas e cores mais ousados, aproximando-se dos gostos masculinos”. Esse gosto pelos relógios cada vez maiores levou a que a mulher tivesse adoptado alguns modelos criados inicialmente para homem, “mas continua sem dúvida a haver uma cultura muito feminina na relojoaria contemporânea”. António Luís Moura vai mais longe: “Haverá cada vez mais ‘um relógio feminino’, e isso não está dependente do tamanho da caixa, mas antes do design e da comunicação da marca”. Simoneta Gómez-Acebo recorda que a incorporação da mulher no mundo laboral, originalmente masculino, fez com que ela adoptasse códigos identificados com o homem. “Dantes, tinha-se apenas um relógio ‘bom’ e hoje são cada vez mais as mulheres que têm varas peças, que lhes permitem variar em estilo, jogando com formas e tamanhos”. Cristina Kolinski acha que “o tamanho da caixa não é relevante para que um relógio seja feminino ou não, apesar da tendência ser o aumento do tamanho, pois o que faz a diferença são os pequenos detalhes: material do mostrador, indexes, braceletes, mistura de materiais…”. Paulo Santos pensa que, apesar das tendências comuns, “continua a existir o relógio feminino puro”. 

A compra por impulso, muito própria do universo feminino, tem atingido principalmente o relógio barato, que se compra numa dada estação, por ter a cor da moda, e é encarado como mais um adereço. Como aumentar a apetência pelo relógio mais caro, visto como investimento, satisfação pessoal, estatuto, valor seguro?

Cristina Kolinski defende: “No mercado feminino, é preciso comunicar intensivamente que o relógio não é só um acessório, devendo ser considerado antes como uma jóia, competindo com colares, anéis, bricos, etc.… Um investimento que, tal como se vê no mercado masculino, deve ser encarado como valor material e sentimental, que mais tarde se deixará de herança aos filhos, passando a ser o relógio também uma jóia de família”. António Luís Moura diz que “a compra por impulso ocorre tanto nos relógios baratos como nos Topo de Gama” e que “a apetência por relógios mais valiosos tem aumentado, tanto por parte de homens como de mulheres, bastando comparar o que se passa hoje com o que existia há 10 ou 15 anos com marcas como Chanel, Chaumet, Cartier, Audemars Piguet, Patek Philippe e outras”. Marta Torres faz-se porta-voz de uma geração: “Desde pequenas que gostamos de acessórios, usamos pulseiras e brincos de fantasia, mais tarde são os relógios de plástico de marcas mais ou menos conhecidas, começamos a desenvolver o nosso próprio sentido estético. Os gostos evoluem, o conhecimento aumenta e valores como luxo, tradição, inovação, exclusividade e excelência ganham sentido pleno, com os relógios das grandes manufacturas a serem objecto dos nossos sonhos”. Paulo Santos faz o contraponto: “A realidade económica também está presente no consumo… sendo que, naturalmente, o universo feminino é mais sensível à moda – e isso torna mais previsível que, em termos de relojoaria, as compras se situem mais na gama baixa ou média”. Para se aumentar a apetência por um determinado produto, “é necessário fazer chegar ao consumidor certos conhecimentos e informação, com a imprensa, sobretudo a escrita, a ter um papel importante na defesa e pedagogia da história, do conceito, da tradição ou da exclusividade”. Simoneta Gómez-Acebo tem a última palavra: “Ao fim e ao cabo, os valores seguros dão confiança e segurança à pessoa que os usa”. 

*Jornalista, investigador do Tempo, da Relojoaria e da evolução das Mentalidades

sábado, 24 de outubro de 2020

Relojoaria Queiroz, a mais antiga de Braga, fundada em 1903 (do Núcleo do Tempo do Ephemera)

Do Núcleo do Tempo do Arquivo Ephemera - Nota de Crédito de 15 de Janeiro de 1957, emitida pela Relojoaria Maurício Queiroz, Lda, na rua D. Frei Caetano Brandão, 4, Braga.

Aquando da elaboração de História do Tempo em Portugal -Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades emPortugal (2003), falámos com o então responsável por este espaço, um dos mais antigos no seu género na cidade.

Em Relógios & Relojoeiros - Quem é Quem no Tempo em Portugal (2006) incluimos entradas sobre este tema:

OURIVESARIA QUEIROZ Estabelecimento inaugurado em 1903 – o mais antigo do género na cidade de Braga. Fundada por José Augusto Pinto de Queiroz, um operário têxtil que se dedicaria à relojoaria e que passaria, à sua morte, em 1933, aos três filhos – José, João e Maurício.

A casa, que esteve primeiro no Campo da Vinha e que se mudou depois para o local onde ainda hoje se encontra, a Rua D. Frei Caetano Brandão, é dirigida pelo actual proprietário, Paulino Ribeiro de Araújo.

Paulino Ribeiro de Araújo, em 2002, no seu estabelecimento  (fotografias arquivo Fernando Correia de Oliveira)

 

Em Relógios & Relojoeiros - Quem É Quem no Tempo em Portugal, escrevemos:

ARAÚJO, Paulino Ribeiro de

Relojoeiro reparador, continuava em 2004, aos 81 anos, à frente da Relojoaria Queiroz, um estabelecimento fundado em 1903 – o mais antigo do género na cidade de Braga. A Relojoaria Queiroz foi fundada por José Augusto Pinto de Queiroz, um operário têxtil que se dedicaria à relojoaria e que passaria, à sua morte, em 1933, aos três filhos – José, João e Maurício – a casa que esteve primeiro no Campo da Vinha e que se mudou depois para o local onde ainda hoje se encontra, a Rua D. Frei Caetano Brandão.

Foi na Relojoaria Queiroz que o pai de Paulino o conseguiu “encaixar”, após ele ter feito a quarta classe, nas Oficinas de São José. “Os padres queriam que eu fosse para o seminário, mas eu não…”, dizia em entrevista, no início de 2004, o mais velho relojoeiro português em actividade. “O meu pai, que era polícia, mas que sempre se interessou por relógios e que frequentava a casa, pediu para que me dessem emprego. Fiquei até hoje”.

O seu grande mestre na arte da relojoaria foi José Augusto Pinto de Queiroz. “Ele tinha aprendido com o pai, eu aprendi com ele, e eu ensinei ao meus filhos”, diz. A Relojoaria Queiroz, que continua hoje a dedicar-se à venda, reparação e restauro de relojoaria fina, média e grossa, tem sido uma autêntica escola, por onde passaram gerações de relojoeiros. “Nos anos 40, 50 e 60 fizemos relógios de torre e de pé alto com mecanismos feitos por nós. E chegámos a vender relógios de pulso com a nossa marca, com movimentos comprados na Suíça”, diz.

Maurício Queiroz dá entretanto sociedade a Paulino e a outro relojoeiro da casa, Vítor Augusto da Costa Lima. Maurício falece em 1973.

Hoje, a Relojoaria Queiroz é pertença de uma sociedade familiar, composta por Paulino, a mulher e os seus sete filhos, quatro deles relojoeiros e a trabalharem na casa. “Isto já chegou a ter 13 relojoeiros, tal era o movimento de venda, reparação e restauro”. Para comemorar os 100 anos, lançaram um relógio de pulso, em 2003, edição limitada, com a marca Ourivesaria Queiroz e movimento ETA.

Entretanto, com o falecimento de Paulino, o negócio continuou sob a direcção dos quatro filhos. Um deles também já faleceu, mantendo-se os restantes três à frente da Relojoaria Queiroz (ver filme aqui)





Publicidade de 1940 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

 

                                   Publicidade de 1967 (arquivo Fernando Correia de Oliveira)

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Em busca dos "afluendors" - Editorial de Setembro do Relógios & Canetas online


Em busca dos “afluendors”

Jornalistas especializados, vinda de todo o mundo, acotovelando-se em redor de uma mesa. Trocando relógios, colocando-os no pulso, tirando rajadas de “wristshots”, colocados de imediato nas redes sociais. Cenas que tão cedo não se repetirão. Talvez mesmo nunca mais… O mundo mudou, o contacto físico próximo entre pessoas, a partilha de objectos, as viagens de avião para encontros mundiais, feiras, salões… Tudo poderá ter sido remetido para o Caixote de Lixo da História.

François-Henry Bennahmias, CEO da Audemars-Piguet, iconoclasta até agora com êxito, foi o primeiro a anunciar que a marca deixaria de estar na rede de retalho clássica, passando a ser apenas acessível nas suas boutiques. E abandonou a estratégia de presença em salões e feiras do sector. Em entrevista recente, Bennahmias vai mais longe e antevê a total “desmaterialização” do retalho – não são precisas quatro paredes para vender um relógio. Mas, só um click no computador, não chega.

“Quando falamos de luxo, queremos ser atingidos por emoções. Que podem ser perante um relógio, uma obra de arte, sapatos, um saco, qualquer coisa. As emoções são entre pessoas. O computador não te dará a emoção”, diz. “O que agora procuramos é melhorar o que podemos fazer no futuro para provocar respostas emotivas. Mas não se julgue que queremos estar permanentemente em cima do nosso cliente. O luxo é como a dança. Se te aproximas demasiado, acabas por pisar os pés do outro. Temos que reaprender a noção de interagir com os clientes”.

Em Neuchâtel, Thomas Baillod iniciava há um ano uma experiência disruptiva em termos de acessibilidade da sua marca - BA111OD – que só é possível adquirir a partir de um anterior comprador que recomende um novo.

Baillod avança com um conceito por si inventado, o do “afluendor” (Ambassador + inFLUENcer + venDOR). E com a fusão do físico com o digital ("phy-gitale") em termos de vendas. Trata-se de um ecossistema que envolve uma marca relojoeira e a sua distribuição através de uma comunidade de "Afluendors" ligados através de uma aplicação, e onde todos os intervenientes no processo de venda são recompensados, incluindo os cientes finais. “BA111OD não é uma marca, é um conceito”, diz.

O histórico Jean-Claude Biver antevê o futuro do sector: “Vamos assistir a uma concentração em quatro frentes: os fornecedores de peças, que vão sofrer muito, fechar, fundir-se ou ser comprados; idem para as marcas e o retalho; finalmente, os consumidores, em tempos de crise, vão procurar comprar coisas que sejam valores seguros, vão fortalecer ainda mais os agora mais fortes”.

Quanto às feiras e salões, Biver decreta a sua inutilidade: “Os salões já não servem para nada. Cada marca tem hoje filiais em todos os países. Está em contacto permanente com os seus clientes. Não precisas de ir a um salão anual, onde estejam todos os outros, quando já estás presente todo o ano no terreno”.



Estes e outros milhares de objectos de luxo mostrados e explicados aquiaqui ou aqui, no Relógios & Canetas online, a mais importante plataforma do seu género em língua portuguesa.


Imagens do Salão de Alta Relojoaria de Genebra de 2019: neste tempo AC (ante covid) era "tudo ao molho"... No novo tempo DC (pos covid), estas cenas nunca mais se repetirão...