O Papel de Chocolate
A minha mãe guardava tudo. No fundo das gavetas, entre lençóis com cheiro a alfazema e fotografias a ficarem amarelas, apareciam coisas sem valor nenhum para o mundo, mas que eram o mundo inteiro para ela.
Lembro-me de encontrar, muito depois, um papel de chocolate. Um papel de prata, amachucado e cuidadosamente alisado com a unha, guardado como se fosse uma joia da coroa. Não era um papel qualquer: era a prova de um instante, o resto de um carinho, a memória de um dia em que alguém lhe deu uma doçura e ela, em vez de a esquecer, decidiu conservar o brilho.
Há uma dignidade imensa nos velhos que guardam papéis de chocolate. É a forma que eles têm de dizer ao tempo que não levará tudo; que, enquanto aquele brilho ali estiver, aquele momento ainda não morreu.
Antonio Lobo Antunes
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