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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Já há pouco ouro, pouca prata, na Rua do Ouro e na Rua da Prata


Horácio Zagalo, da Ourivesaria Granada, na Rua Augusta, 155 - um histórico do sector, obrigado a fechar portas

(Primeiro de três artigos com contribuições para a história do Comércio na zona Baixa / Chiado. Veja também aqui e aqui)

A Ourivesaria, Joalharia e Relojoaria Granada vai fechar portas. Fundada em 1975 por Artur Cunha, que vinha de Luanda, passava em 1987, por morte do proprietário, para Horácio Zagalo, que agora está a proceder à liquidação total das existências.


"Na realidade, somos obrigados a fechar por causa de uma lei que este Governo aprovou e que dá a possibilidade ao senhorio de rescindir o contrato, pagando apenas um ano de rendas como indemnização", explica-nos Horácio Zagalo. "Quer dizer - da defesa total do inquilino, passou-se para a defesa totalitária do senhorio".

Tem-se assistido, nos últimos cinco anos, ao encerramento de muito do pequeno comércio tradicional na Baixa, com especial incidência para as lojas de ourivesaria, joalharia e relojoaria. Não é por acaso que há uma Rua do Ouro ou uma Rua da Prata, bebendo das raízes medievais e renascentistas da urbe, quando estes misteres ali assentavam tradicionalmente arraiais. Hoje, a prata e o ouro estão a fugir da Baixa. E os relógios, esses, vão atrás.

"Não estou contra o aumento de rendas, o que é absolutamente legitimo, o que não devia acontecer por lei era o aumento desmesurado que existe e que está a levar ao encerramento de muitas lojas", diz Horácio Zagalo. "Por outro lado, esta nova lei do arrendamento permite ao senhorio a rescisão do contrato de arrendamento, no caso de obras profundas a executar no prédio e, só na Rua dos Fanqueiros, é um quarteirão inteiro de lojistas que foram intimados a sair, e abandonar o seu local de trabalho de longos anos".


"A minha actividade comercial tem sido muito diversa", recorda Horácio Zagalo. "Comecei a trabalhar com 12 anos de idade, num armazém de tecidos na Rua da Prata. Dois anos depois passei para uma casa de câmbios na Rua Augusta, e daqui para outra na Rua do Ouro, onde me mantive até à nacionalização e extinção deste tipo de comercio em 1975, tendo atingido nesta actividade o topo da carreira.

"Fui integrado por decreto-lei, num banco, mas a minha carreira profissional foi anulada pelo mesmo decreto-lei, e tive que começar de novo. Paralelamente a esta actividade, formei uma sociedade de máquinas de diversão, uma empresa de importação e exportação, dedicada a produtos alimentares, fui consultor de uma empresa de venda de propriedades, tomei as quotas de dois restaurantes, e fundei uma empresa de comércio de ouro, prata e antiguidades na Baixa de Lisboa. Em 1987 tomei a actual Ourivesaria Granada Ldª. e, entretanto, fundei uma nova casa de câmbios", diz o comerciante.


"Quanto à actividade comercial de ourivesaria, sendo um tipo de comércio especial e não necessário, há diversos factores que vão levar ao encerramento de muitas centenas de lojas no país", vaticina Horácio Zagalo. "Isso é devido a vários factores, como o valor muito alto da matéria prima; dificuldades económicas levam a fracas vendas; a apetência da juventude para outros bens; a falta de capacidade financeira dos compradores da terceira idade; o elevado custo das rendas de casa".



Estação Cronográfica conheceu Horácio Zagalo há uns 13 anos, quando estava a investigar o sector da Relojoaria, Ourivesaria e Relojoaria para o livro História do Tempo em Portugal. Ele ajudou-nos nas pesquisas que efectuámos nos arquivos da Associação dos Comerciantes de Ourivesaria e Relojoaria do Sul.

Recorda ele: "A minha actividade no campo do Associativismo começou cedo, num pequeno clube desportivo de Lisboa. Depois fui Presidente da Associação Portuguesa de Diversões e Vice Presidente da União de Associações de Diversão e Espectáculos. Quando tinha a casa de câmbios fui Presidente e Vice Presidente da Direcção da respectiva associação e representante das casas de câmbios no GAFI ( grupo estudo branqueamento de capitais).

"Na Associação dos Comerciantes de Ourivesaria e Relojoaria do Sul, exerci diversos cargos desde presidente da Assembleia Geral até Presidente da Direcção, entre outros cargos. Fui ao mesmo tempo durante 18 anos o representante da Associação no Conselho Técnico de Ourivesaria. Paralelamente ainda, fui director da União das Associações do Comércio e Serviços. Também fui fundador da Associação de Proprietários Viver Tróia, onde exerci diversos cargos, e actualmente sou Presidente da Direcção".









Como vê Horácio Zagalo o actual estado do comércio na Baixa de Lisboa?

"Com muita tristeza, dada a degradação e transformação que está a acontecer, com a substituição sistemática das tradicionais lojas de renome, por lojas de comerciantes indianos e chineses.

"Por outro lado, o abandono que grandes empresas privadas e organismos públicos têm protagonizado nos últimos anos nesta zona agrava a situação. Eles estão a ser substituídos por "hostels", cujo custo por noite é baixo, o que origina a frequência de turistas de fraco poder de compra. Isso em nada contribui para a revitalização da zona.

"Só poderia haver aqui uma inversão se, em vez da avalanche de abertura de "hostels", fossem criadas condições para habitação permanente, pois uma cidade sem habitantes é um deserto, e é isso que se verifica a partir da 20h00.

"Foi realizado um bom trabalho na Praça do Comércio, e quem a visita à noite pode verificar que fervilha de vida, mas as redondezas estão mortas. Seria bom que alguém estudasse o fenómeno da vida que se verifica no Chiado e na Avenida da Liberdade, e porque é que o que se assiste nas ruas centrais - já para não falar das secundárias - da baixa pombalina, é tão diferente.


O aviso na fachada do prédio da Rua Augusta. Além da Granada, outros estabelecimentos receberam ordem de despejo


Estação Cronográfica andou esta manhã pelas principais ruas da Baixa - Ouro, Prata, Augusta, Rossio, Praça da Figueira... e tomou nota de dezenas de lojas fechadas ou prestes a fechar. A nova lei do arrendamento irá apressar um processo de decadência. E, também, de renovação? Os optimistas dizem que sim. Que haverá gente jovem, com ideias inovadoras, a estabelecer-se na zona, com pequenos negócios urbanos, de qualidade. Os pessimistas dizem que, com os preços das novas rendas, os jovens não poderão aí chegar. E que o único comércio que continua a florescer é o da restauração, dos hotéis low-cost e... das lojas "típicas", com artigos de fancaria fabricados na Ásia, sejam eles galos de Barcelos ou camisolas do Ronaldo. Veja também aqui.













aqui falámos da histórica Maury, que também fecha portas. O eixo do luxo está agora na Avenida da Liberdade, e a quadrícula da Baixa alastra-se em esplanadas com comida internacional, sem pontos de venda de qualidade

































Um comércio tradicional envelhecido, parado no tempo. Nostalgia do agrado dos turistas, que vêm muitas vezes Lisboa e os lisboetas como "reserva índia", mas decadência difícil de disfarçar





3 comentários:

Ângelo Tabet disse...

Uma pena. Todas a imagens são muito tristes. Espero, do fundo do coração, que dias melhores cheguem rapidamente.

ié-ié disse...

Bom trabalho, sim senhor! Parabéns!

LPA

Estação Cronográfica disse...

obrigado, LPA