O Último Relojoeiro de Chronos
No Setor 9 da Estação Orbital Astraea, o tempo não era medido em horas, mas em ciclos de processamento. Tudo era digital, sincronizado pelo Grande Servidor. Ninguém usava relógios de pulso, muito menos relógios mecânicos. Ninguém, exceto Elias. A loja de Elias era uma anomalia. Espremida entre uma clínica de implantes cibernéticos e um bar de noodle sintético, a vitrine exibia engrenagens de latão, molas de aço e ponteiros delicados. O tique-taque que emanava lá de dentro era o único som orgânico em quilômetros de aço e neon. Elias era velho, com dedos calejados e um monóculo de ampliação que parecia fundido ao seu rosto. Ele consertava o que ninguém mais valorizava: a passagem física do tempo. Naquela "manhã" (simulada pelas luzes do teto do corredor), um cliente incomum entrou. Não era um colecionador excêntrico, mas um androide de modelo antigo, um Série-K, coma carcaça de cerâmica rachada e movimentos trêmulos.— Mestre Elias — a voz do androide falhou, cheia de estática. — Me disseram que o senhor conserta... corações. Elias levantou o olhar de um mecanismo Breguet que estava lubrificando. — Eu conserto relógios, lata velha. Se seu núcleo de energia está pifando, vá ao mecânico ao lado.— Não é meu núcleo — o androide abriu o painel do peito. Lá dentro, onde deveria haver apenas circuitos e fios de fibra ótica, havia um objeto estranho. Um relógio de bolso antigo, de prata, emaranhado nos cabos do androide, pulsando como se fosse um órgão vital. O vidro estava quebrado, e o ponteiro dos segundos estava travado.— Meu dono original... ele colocou isso em mim antes de morrer — explicou o androide. —Ele disse que era para eu nunca esquecer. Mas desde que o relógio parou, minhas memórias estão... corrompidas. Não consigo lembrar o rosto dele. Elias suspirou, limpando as mãos em uma flanela. Ele se aproximou e examinou o mecanismo. Era uma peça pré-Era Espacial. Uma relíquia da Terra Antiga.
"A memória não reside nos dados, mas na continuidade do movimento," Elias murmurou, lembrando-se de seu próprio avô.
[...]
Era uma dança entre o passado analógico e o presente
digital. Finalmente, com um clique suave, a nova engrenagem se encaixou. Elias
deu corda. Tique. Taque. Tique. Taque. O som era forte, regular. O peito do
androide vibrou. As luzes em seus olhos, antes fracas, brilharam com um azul
intenso. O androide arfou, um som humano demais para uma máquina. — Eu... eu o
vejo. Ele está sorrindo. Estamos em um campo verde. O céu é azul real, não telas
de LED. Ele olhou para Elias, e pela primeira vez, a face de cerâmica pareceu
expressar gratidão genuína. — Obrigado. O tempo voltou a andar.— O tempo nunca
para — resmungou Elias, voltando para sua bancada para esconder a tremedeira nas
mãos. — Nós é que às vezes esquecemos de dar corda. O androide deixou um
pagamento em créditos que sustentaria a loja por um ano e saiu. Elias ficou
ouvindo o tique-taque se afastando, misturando-se ao ruído da estação
espacial. Ele olhou para as centenas de relógios em suas paredes. Todos marcavam
horas diferentes, mas naquele momento, ele sentiu que todos estavam, finalmente,
sincronizados. Ele pegou uma pequena peça de metal que sobrou do reparo, girou-a
entre os dedos e sorriu. Naquela estação sem sol, ele acabara de salvar um pouco
de luz
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