Com o tempo, o nosso corpo parece revoltar-se a ponto de nos parecer fugir e, rebelde, de se tornar ingerível. À medida que eles crescem, os filhos deixam de ser tão nossos e com aquilo com que nos desiludem, nós e eles parecemos ingeríveis. O amor não é tantas vezes como tanto queríamos e ele próprio parece ir-se gerindo, sem chama e sem paixão, e, nesse vai-se andando, torna-se ingerível. Às vezes, cresce em nós a sensação de que não somos donos de quase nada. Muito menos do tempo. O que nos traz a sensação de estarmos vivos. Sem grande governo. Que é uma forma de irmos morrendo devagar.
Acho que foi por isso que, como toda a gente, evitei, de todas as maneiras, tocar nas formas como perdia tempo. O tempo corria. Eu, apesar de tudo, corria atrás do tempo. De tempos a tempos, o tempo e eu travávamos algum conhecimento. E, ao contrário de tudo o que ia imaginando, debaixo dessa forma desconjuntada de viver o tempo, foi preciso perder-me nele para reparar que “começamos” a viver quando descobrimos que, afinal, não temos o tempo todo. Às vezes, fugimos de olhar para o tempo que perdemos porque temos medo que isso faça com que morramos mais depressa.
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