segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Meditações - quando as noites começam a crescer
Now winter nights enlarge
The number of their hours;
And clouds their storms discharge
Upon the airy towers.
Let now the chimneys blaze
And cups o’erflow with wine,
Let well-turned words amaze
With harmony divine.
Now yellow waxen lights
Shall wait on honey love
While youthful revels, masques, and courtly sights
Sleep’s leaden spells remove.
This time doth well dispense
With lovers’ long discourse;
Much speech hath some defense,
Though beauty no remorse.
All do not all things well;
Some measures comely tread,
Some knotted riddles tell,
Some poems smoothly read.
The summer hath his joys,
And winter his delights;
Though love and all his pleasures are but toys,
They shorten tedious nights.
Thomas Campion
The number of their hours;
And clouds their storms discharge
Upon the airy towers.
Let now the chimneys blaze
And cups o’erflow with wine,
Let well-turned words amaze
With harmony divine.
Now yellow waxen lights
Shall wait on honey love
While youthful revels, masques, and courtly sights
Sleep’s leaden spells remove.
This time doth well dispense
With lovers’ long discourse;
Much speech hath some defense,
Though beauty no remorse.
All do not all things well;
Some measures comely tread,
Some knotted riddles tell,
Some poems smoothly read.
The summer hath his joys,
And winter his delights;
Though love and all his pleasures are but toys,
They shorten tedious nights.
Thomas Campion
domingo, 28 de dezembro de 2014
Anuário Relógios & Canetas 2015 - parcerias vão continuar
Relógios, estadias em hoteis e spas, refeições em restaurantes de luxo, carros, livros.... parcerias que o Anuário Relógios & Canetas desenvolveu em 2014 e que prosseguirá. A edição 2015 do mais antigo título especializado em Portugal já está à venda.
Há um ano... Anuário Relógios & Canetas 2015 recorda 2014
Há um ano... lançamento do Anuário Relógios & Canetas 2014, na Boutique Montblanc, em Lisboa. Em destaque na edição 2015 do Anuário, que já se encontra à venda.
Meditações - noite de Inverno
A winter's night with the snow about:
'Twas silent within and cold without:
Both father and mother to bed were gone:
The son sat yet by the fire alone.
He gazed on the fire, and dreamed again
Of one that was now no more among men :
As still he sat and never aware
How close was the spirit beside his chair.
Nay, sad were his thoughts, for he wept and said
Ah, woe for the dead! ah, woe for the dead!
How heavy the earth lies now on her breast,
The lips that I kissed, and the hand I pressed.
The spirit he saw not, he could not hear
The comforting words she spake in his ear:
His heart in the grave with her mouldering clay
No welcome gave — and she fled away.
Robert Bridges
'Twas silent within and cold without:
Both father and mother to bed were gone:
The son sat yet by the fire alone.
He gazed on the fire, and dreamed again
Of one that was now no more among men :
As still he sat and never aware
How close was the spirit beside his chair.
Nay, sad were his thoughts, for he wept and said
Ah, woe for the dead! ah, woe for the dead!
How heavy the earth lies now on her breast,
The lips that I kissed, and the hand I pressed.
The spirit he saw not, he could not hear
The comforting words she spake in his ear:
His heart in the grave with her mouldering clay
No welcome gave — and she fled away.
Robert Bridges
sábado, 27 de dezembro de 2014
O mais surpreendente relógio de todos os tempos...
Breve da Revista Flama, em 1958, dado conta d'O mais surpreendente relógio de todos os tempos, feito por Jens Olsen e colocado no Palácio da Justiça, em Copenhaga (arquivo Fernando Correia de Oliveira).
O Relógio Mundial ou Verdensur foi construído em meados do século XX. Além de horas, minutos e segundos, indica as posições relativas do sol, da lua e das estrelas. Vários mostradores indicam o tempo nas diferentes zonas horárias.
Composto pos mais de 14.000 peças, prevê os eclipes solares e lunares, dá a equação do tempo.
Totalmente mecânico, o Verdensur tem inúmeras rodas dentadas - a mais rápida dá uma volta cada 10 segundos, a mais lenta, cada 25.753 anos.
Olsen, um serralheiro dinamarquês, que concebeu todo o relógio, morreu em 1945, dez anos antes de ele estar pronto.
Os cálculos para este relógio astronómico e calendário perpétuo foram feitos até 1928, sendo a partir de então supervisionados por um astronónomo, o Professor Elis Strömgren. O desenho do relógio foi feito entre 1934 e 1936 e a sua construção ocorreu entre 1943 e 1955.
O Verdensur começou a trabalhar a 15 de Dezembro de 1955 e tem corda para uma semana.
(fotos Wikipedia)
Anuário Relógios & Canetas 2015 com reportagens em França, Áustria e Suíça, com os relógios Richard Mille, Patek Philippe e Porsche Design
Reportagens em França, Áustria e Suíça, com os relógios Richard Mille, Patek Philippe e Porsche Design, em destaque no Ano Relojoeiro do Anuário Relógios & Canetas 2015, que já se encontra à venda.
Meditações - Natal estragado
O NATAL
O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano triste – dessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um voltará mais...
O que nos estragou o Natal, não foram decerto as preocupações políticas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebelião do Transval em que os Boers debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a África do Sul numa guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionário da Liga Agrária – seriam inquietações suficientes para tirar o sabor tradicional ao, plum-pudding do Natal. As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e senão apresentam, sob a forma flamejante de obuses rebentando, inuma cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota.
Não; o que estragou o Natal, foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmos de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!
Para compreender bem o encanto da neve deste famoso Natal inglês, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias, que o têm popularizado.
O assunto não varia na paisagem repetida: é sempre a mesma entrada dum parque, de aparência feudal, por vésperas do Natal, antes da meia-noite; o céu pesado de neve suspensa parece uma, gaza suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve caída, uma neve branca, fofa, alta, que faz nos campos um grande silêncio. Junto à grade do parque, uma mulher e duas crianças, atabafadas nos seus farrapos, com lampiões na mão, vão cantando as loas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o maciço castelo, com as janelas flamejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.
E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.
Felizes aqueles para quem essas portas difíceis se abrem! Logo ao entrar na antecâmara os tectos, as ombreiras, os espaldares das cadeiras, os troféus de caça, aparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho céltico; e pelas paredes, em letras douradas, ondeiam os dísticos tradicionais – Merry Christmas! Merry Christmas! alegre natal! alegre natal! e o mesmo grito se repete nos shake-hands que se dão ao hóspede.
Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros, e de prata as barbas brancas.
Tudo está enfeitado como numa Páscoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flores de Inverno, as flores da neve, e todas as pratas da casa cintilam sobre os aparadores, numa solenidade patriarcal. Dos grandes lustres balança-se o ramo simbólico do mistletoe, o ramo do amor doméstico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surpreender tem direito a beijá-las num grande abraço! Também, que voltas sábias, que estratégia complicada, para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o mistletoe um grito, um beijo, dois abraços que prendem uma cinta fugitiva...
E o piano não se cala nestas noites! É alguma velha canção inglesa, em que se fala de torneios e cavaleiros, ou uma dança da Escócia, que se baila, com o gentil cerimonial do passado.
E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amável Santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade deixar a cabana de algodão que ele habita no país da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bebés o seu natal!
Também, como eles o adoram, o bom Claus! E apenas ele chegar, como correrão todos, em triunfo, a puxá-lo para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas mãos regeladas, e oferecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente - que ele bebe dum trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...
Mas destas personagens que aparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas – o papá Natal.
Esse, porém, só pode ser admirado em toda a sua glória, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da mesa – que lhe põe em torno, com os cristais e os pratos, um amável brilho da auréola caseira. Bem-vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!
O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem-fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés.
Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.
E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarcal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e ali está, bonacheirão e venerável, com a importância de um Deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria doméstica.
E no entanto fora, na neve, as pobres crianças cantam as loas: e com vigor as cantam! É que elas sabem que não serão esquecidas: e que daqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de coisas boas, peças de carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os ver esvaziados no regaço dos pobres.
Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga a bater numa terra tépida de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário. O lume não tem poesia íntima; não há loas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insípido; não se colhe o mistletoe. Não há mesmo a alegria de abrir a janela, e pôr no rebordo, dentro duma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardais e para os outros passarinhos, que tanta fome sofrem pelas neves. Enfim não há Natal! Foi o que sucedeu este ano...
Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto, e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indiferente que nos castelos as damas bocejassem.
Nem eu sei realmente como, a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo - que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços - para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada, ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!
Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que teríamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.
Neste momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando anualmente, do trabalho duro que eles fazem, quatrocentos contos de réis de renda! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscasse a visitar o seu ducado de Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no crânio.
E o resultado? Daqui a vinte anos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a sofrer a fome e o frio – e o filho do duque de Leicester, duque ele mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por ano.
Não é possível mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde se prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu.
Aqui estamos sobre este globo há doze mil anos a girar fastidiosamente em torno do Sol, e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingénuo de província é que ainda considera progresso a invenção ociosa desses bonecos pueris que se chamam máquinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam sistemas sociais.
Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo numa cambalhota secular.
O tipo secular e doméstico de uma aldeia Ária do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nós, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social. Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais ideias superiores num só dia do que nós inventámos num século; os nossos exércitos fazem rir, comparados às legiões de Germânicos; não há nada equiparável à administração romana; o boulevard é uma viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma Aspásia temos; nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes: - e o servo, o escravo, essa miséria da antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno.
De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai – o macaco; excepto em duas coisas temerosas – o sofrimento moral e o sofrimento social.
Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio. Mas afogá-la toda, sem repetir a fatal indulgência que o levou a poupar Noé; se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos...
Eça de Queirós
O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano triste – dessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um voltará mais...
O que nos estragou o Natal, não foram decerto as preocupações políticas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebelião do Transval em que os Boers debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a África do Sul numa guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionário da Liga Agrária – seriam inquietações suficientes para tirar o sabor tradicional ao, plum-pudding do Natal. As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e senão apresentam, sob a forma flamejante de obuses rebentando, inuma cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota.
Não; o que estragou o Natal, foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmos de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!
Para compreender bem o encanto da neve deste famoso Natal inglês, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias, que o têm popularizado.
O assunto não varia na paisagem repetida: é sempre a mesma entrada dum parque, de aparência feudal, por vésperas do Natal, antes da meia-noite; o céu pesado de neve suspensa parece uma, gaza suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve caída, uma neve branca, fofa, alta, que faz nos campos um grande silêncio. Junto à grade do parque, uma mulher e duas crianças, atabafadas nos seus farrapos, com lampiões na mão, vão cantando as loas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o maciço castelo, com as janelas flamejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.
E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.
Felizes aqueles para quem essas portas difíceis se abrem! Logo ao entrar na antecâmara os tectos, as ombreiras, os espaldares das cadeiras, os troféus de caça, aparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho céltico; e pelas paredes, em letras douradas, ondeiam os dísticos tradicionais – Merry Christmas! Merry Christmas! alegre natal! alegre natal! e o mesmo grito se repete nos shake-hands que se dão ao hóspede.
Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros, e de prata as barbas brancas.
Tudo está enfeitado como numa Páscoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flores de Inverno, as flores da neve, e todas as pratas da casa cintilam sobre os aparadores, numa solenidade patriarcal. Dos grandes lustres balança-se o ramo simbólico do mistletoe, o ramo do amor doméstico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surpreender tem direito a beijá-las num grande abraço! Também, que voltas sábias, que estratégia complicada, para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o mistletoe um grito, um beijo, dois abraços que prendem uma cinta fugitiva...
E o piano não se cala nestas noites! É alguma velha canção inglesa, em que se fala de torneios e cavaleiros, ou uma dança da Escócia, que se baila, com o gentil cerimonial do passado.
E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amável Santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade deixar a cabana de algodão que ele habita no país da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bebés o seu natal!
Também, como eles o adoram, o bom Claus! E apenas ele chegar, como correrão todos, em triunfo, a puxá-lo para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas mãos regeladas, e oferecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente - que ele bebe dum trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...
Mas destas personagens que aparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas – o papá Natal.
Esse, porém, só pode ser admirado em toda a sua glória, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da mesa – que lhe põe em torno, com os cristais e os pratos, um amável brilho da auréola caseira. Bem-vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!
O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem-fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés.
Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.
E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarcal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e ali está, bonacheirão e venerável, com a importância de um Deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria doméstica.
E no entanto fora, na neve, as pobres crianças cantam as loas: e com vigor as cantam! É que elas sabem que não serão esquecidas: e que daqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de coisas boas, peças de carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os ver esvaziados no regaço dos pobres.
Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga a bater numa terra tépida de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário. O lume não tem poesia íntima; não há loas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insípido; não se colhe o mistletoe. Não há mesmo a alegria de abrir a janela, e pôr no rebordo, dentro duma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardais e para os outros passarinhos, que tanta fome sofrem pelas neves. Enfim não há Natal! Foi o que sucedeu este ano...
Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto, e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indiferente que nos castelos as damas bocejassem.
Nem eu sei realmente como, a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo - que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços - para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada, ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!
Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que teríamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.
Neste momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando anualmente, do trabalho duro que eles fazem, quatrocentos contos de réis de renda! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscasse a visitar o seu ducado de Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no crânio.
E o resultado? Daqui a vinte anos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a sofrer a fome e o frio – e o filho do duque de Leicester, duque ele mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por ano.
Não é possível mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde se prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu.
Aqui estamos sobre este globo há doze mil anos a girar fastidiosamente em torno do Sol, e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingénuo de província é que ainda considera progresso a invenção ociosa desses bonecos pueris que se chamam máquinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam sistemas sociais.
Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo numa cambalhota secular.
O tipo secular e doméstico de uma aldeia Ária do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nós, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social. Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais ideias superiores num só dia do que nós inventámos num século; os nossos exércitos fazem rir, comparados às legiões de Germânicos; não há nada equiparável à administração romana; o boulevard é uma viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma Aspásia temos; nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes: - e o servo, o escravo, essa miséria da antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno.
De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai – o macaco; excepto em duas coisas temerosas – o sofrimento moral e o sofrimento social.
Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio. Mas afogá-la toda, sem repetir a fatal indulgência que o levou a poupar Noé; se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos...
Eça de Queirós
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Actor Virgílio Castelo em entrevista ao Anuário Relógios & Canetas 2015
O actor Virgílio Castelo, embaixador Montblanc, em entrevista ao Anuário Relógios & Canetas 2015, que já se encontra em banca.
Anuário Relógios & Canetas 2015 dá um Chronoswiss automático
O Anuário Relógios & Canetas 2015 já está nas bancas. Com um passatempo que dá um relógio automático Chronoswiss.
Meditações - A Estrela do Natal
A Estrela do Natal
Boris Pasternak, in O Doutor Jivago, tradução de David Mourão-Ferreira
Era Inverno. Soprava
Da estepe um grande vento,
E no fundo da gruta, no flanco da colina,
Tinha frio a criança.
A gruta estava repleta
Dos animais domésticos,
E em torno flutuava um tépido vapor.
Das mantas sacudindo o feno das enxergas
E grãos de milho.
Do alto do rochedo os pastores olhavam,
Ensonados olhavam.
Ao longe, na planície, e coberto de neve,
Um cemitério e túmulos, e grades,
E os erguidos varais de uma carreta.
Por cima, o céu, carregado de estrelas.
E perto deles, mais tímida que uma lanterna
Num pátio pobre,
A estrela nunca dantes vista
Dominava o caminho que leva a Belém.
Luzia como se fosse feno em chamas,
Como um fogo de palha,
No mundo apavorado
Pela aparição da estrela nova.
No céu avermelhava-se a aurora,
A aurora profética,
E dirigiam-se os três astrólogos
Ao chamamento desses fogos ignotos.
Os camelos da escolta levavam presentes,
Eenfeitados, carregados, os burros, em curtos passos,
Vinham de escantilhão pela colina abaixo.
Uma estranha miragem atravancava o horizonte,
E era o futuro, e eram os sonhos de todos os séculos,
Os pensamentos e os sonhos de um mundo novo,
Os sonhos das crianças, toda a arte dos nossos museus,
As farsas dos duendes, a obra dos mágicos,
As árvores de Natal, os sonhos das crianças,
A chama trémula das velas, os cabelos dos anjos,
… E mais asperamente soprava da estepe o grande vento…
Todos os pomos de ouro, todas as bolas de ouro.
Amieiros cercavam com os ramos o tanque,
Mas do alto do rochedo via-se o brilho da água,
Entre os ninhos dos pássaros e os ramos das árvores,
E os pastores viam, para lá do tanque,
Passarem os camelos e os burros carregados.
E exclamavam, aconchegando-se nas mantas:
“Vamos com esta gente adorar o milagre”.
Batiam os pés e empurravam-se através da neve.
Vestígios de pés nus ao presépio levavam,
Vestígios que brilhavam com um fulgor de mica.
Agitavam-se os cães em torno das pegadas
Como diante do fogo que salta de um tição.
E esta noite fria assemelhava-se às noites dos contos:
Iam e vinham sombras invisíveis,
Do meio do caminho para os taludes cobertos de neve.
Os cães estavam inquietos; voltavam-se amiúde,
Medrosos, e às pernas dos donos se acolhiam.
Neste mesmo caminho, e pelo mesmo campo,
Caminhavam anjos no meio da multidão,
Emissários ocultos aos olhos dos mortais,
Mas cujos passos através da neve vestígios desenhavam.
Junto de um grande rochedo, a multidão parou.
Aclarava a madrugada e viam-se alguns cedros.
A Virgem perguntou de onde vinha tanta gente.
“- Somos os pastores e os anjos do céu
E aqui vimos prestar nossa homenagem”.
“-O curral é pequeno. Têm de esperar à porta”.
No confuso nevoeiro, cinzento como cinza,
Porqueiros, vaqueiros, pastores, os pés batiam,
E peões e cavaleiros proferiam pragas entre eles.
Ao pé de uma árvore escavada que servia de bebedoiro,
Os camelos gemiam, escoucinhavam os burros.
Aproximava-se a manhã. E no céu a luz
Começou a expulsar
A última poeira cinzenta das estrelas,
E Maria descobriu os magos no meio da turba.
Foram eles os primeiros a entrar no presépio.
A criança dormia, resplandecente, na manjedoira,
E por único trajo, a guardá-la do frio, apenas tinha
O bafo que vinha das ventas do boi, dos beiços do burro.
De pé, os visitantes, na noite do curral,
Docemente trocavam tímidas palavras.
E, na sombra, um pastor, tocando o braço de um dos magos,
Apontou-lhe, à entrada, a estrela nova,
A estrela de Natal que ficara
A contemplar Nossa Senhora.
Boris Pasternak, in O Doutor Jivago, tradução de David Mourão-Ferreira
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Anuário Relógios & Canetas 2015 em reportagem em Genebra, Ibach e Zurique, com os relógios Frédérique Constant, Victorinox e Omega
Reportagens em Genebra, Ibach e Zurique, respectivamente com Frédérique Constant, Victorinox e Omega, em destaque no Ano Relojoeiro do Anuário Relógios & Canetas 2015, já nas bancas.
Tem exactamente um mês para participar no passatempo - relógio I.N.O.X. da Victorinox pode ser seu
Este relógio pode ser seu. Basta enviar até 25 de Janeiro de 2015 para o email anuariorelogioscanetas@gmail.com fotografias demonstrativas de resistência/força. Não há limite de fotos por participante. O resultado do passatempo será anunciado a 30 de Janeiro de 2015 na página do Anuário relógios & Canetas no Facebook.
Meditações - Numa estrebaria...
AO NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR
Tânia formosura
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Chove, venta, e neva,
Congela-se o rio.
Meu Senhor ao frio
Com' os filhos d'Eva !
Pelo que releva
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Nasce a nova luz ;
Nasce a flor das flores ;
Amor dos amores,
No berço, e na cruz
MARIA, e JESUS.
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Deshumana gente,
Que não agasalha
A quem só na palha
Ficará contente.
Ai ! quão pobremente
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Fermoso Menino,
Meu Senhor eterno.
Por tempo de inverno
Pobre peregrino ;
O amor divino
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA ?
Por terras estranhas,
A vossa pousada
Tem o tempo armada
De têas de aranhas ?
Nasce das entranhas
JESUS, e MARIA
Numa estrebaria ?
Frei Agostinho da Cruz
Tânia formosura
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Chove, venta, e neva,
Congela-se o rio.
Meu Senhor ao frio
Com' os filhos d'Eva !
Pelo que releva
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Nasce a nova luz ;
Nasce a flor das flores ;
Amor dos amores,
No berço, e na cruz
MARIA, e JESUS.
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Deshumana gente,
Que não agasalha
A quem só na palha
Ficará contente.
Ai ! quão pobremente
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA?
Fermoso Menino,
Meu Senhor eterno.
Por tempo de inverno
Pobre peregrino ;
O amor divino
Numa estrebaria
JESUS, e MARIA ?
Por terras estranhas,
A vossa pousada
Tem o tempo armada
De têas de aranhas ?
Nasce das entranhas
JESUS, e MARIA
Numa estrebaria ?
Frei Agostinho da Cruz
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
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