Est. June 12th 2009 / Desde 12 de Junho de 2009

A daily stopover, where Time is written. A blog of Todo o Tempo do Mundo © / All a World on Time © universe. Apeadeiro onde o Tempo se escreve, diariamente. Um blog do universo Todo o Tempo do Mundo © All a World on Time ©)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Anuário Relógios & Canetas 2021 - Editorial - Segundos mortos


Editorial

Segundos mortos

Quando nos perguntam o que fazemos, respondemos - sou jornalista e investigo o Tempo. Invariavelmente perguntam-nos se amanhã vai chover...

A língua portuguesa não dispõe dos equivalentes, por exemplo, aos termos ingleses “time” ou “weather”. E quando em português há apenas “relógio”, para franceses há especificamente “horloges” (para relógios de grande porte) e “montres” (para os de bolso ou de pulso); e, para os ingleses, respectivamente “clocks” e “watches”. Isso demonstra a relativa pobreza do idioma luso face à realidade temporal (não a de raios e coriscos, mas a do eterno devir).

E, mesmo assim, Portugal tem uma tradição secular de gosto pelos medidores do tempo. Sempre houve grandes coleccionadores nacionais, embora discretos. E a importação de relógios sempre foi significativa, ainda mais se comparada com o número de habitantes e o seu rendimento baixo, face ao resto da Europa.

A realidade temporal é um mundo muito especial. Cheio de vocábulos curiosos, acessíveis apenas a um conjunto restrito de eleitos (veja o Glossário no fim desta edição). Gostamos que um relógio “bata” as horas. Procuramos as “complicações” e, quando elas são “grandes complicações” ficamos ainda mais maravilhados. Os ponteiros “descentrados” ganham outro valor. Amamos os calibres “esqueletos” e estamos dispostos a dar bom dinheiro por eles. Só horas não chegam, precisam de ser “saltantes”, “misteriosas” ou até “retrógradas” para chamarem a nossa atenção. Quanto aos segundos, o que apreciamos mesmo é vê-los “mortos” (“dead seconds” em inglês, com o ponteiro a fazer paragens claras a cada segundo, avançando de repente para o seguinte).

O sector da Relojoaria tem estas especificidades de linguagem, que o Anuário tem procurado explicar ao longo de quase um quarto de século, contribuindo para a cultura relojoeira do país. Somos independentes e assim queremos continuar.

Em tempos de pandemia, o Tempo parece suspenso. Nunca a expressão “segundos mortos” teve tanto significado. Mas a vida triunfará, mais cedo ou mais tarde. E horas, minutos e segundos voltarão ao seu compasso habitual.

Sem comentários: