quarta-feira, 4 de janeiro de 2023
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
Requiem por um Observatório
Requiem por um Observatório
Quem abre a página do Observatório Astronómico de Lisboa na
Internet depara com um Aviso Legal, lacónico e hermético:
O serviço de Hora Legal assim como a Comissão Permanente
da Hora (Dec. Lei nº 279/79, de 9 de Agosto) estão em vias de serem
transferidos para uma outra entidade, face a alterações legislativas e
institucionais que, desde 2019, inviabilizam a sua prossecução nos moldes
definidos no DL 279/79. A configuração final deste serviço e da Comissão,
deverão ser definidos na sequência da aprovação de um Decreto-Lei, em
tramitação pelos Ministérios da Economia e Mar e da Ciência, Tecnologia e
Ensino Superior. Os especialistas da FCUL, sem ligação institucional com o OAL,
e exclusivamente a título de especialistas, procuram satisfazer, na medida das
possibilidades, os pedidos que têm sido veiculados por terceiros.
Descodificando - sabemos que a emissão da Hora Legal,
historicamente responsabilidade do Observatório, vai passar para o Instituto
Português da Qualidade, entidade que, historicamente, é o depositário da
unidade de tempo Segundo Padrão.
O imbróglio começou quando o Observatório deixou de estar
sob a direcção da Faculdade de Ciências de Lisboa e passou para a tutela do
Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Uma decisão tomada quando
houve a fusão da Universidade Clássica com a Técnica, em 2013. O primeiro,
herdou o espólio museológico do observatório, enquanto quadros da Faculdade de
Ciências foram preenchendo o limbo, com a emissão da Hora Legal. Em princípio,
este ano, 2023, essa situação ficará, finalmente, clarificada.
Ou não... para além das entidades envolvidas (Ministérios da
Economia e Mar e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), saltou para a liça
uma outra entidade - o Gabinete Nacional de Segurança que, de tempo, dizemos
nós, deve perceber pouco... De qualquer forma, especialistas da Faculdade de
Ciências têm estado a preparar o texto do Decreto-Lei que vai modificar o
status quo do Tempo no país há quase século e meio.
Enquanto a futura legislação vai e vem, por entre as brumas
da burocracia, Portugal continua a ser um país que trata atavicamente mal o
Tempo - não tem hoje nenhuma entidade emissora oficial (com a estranha situação
de vazio criada com a mudança de tutela do Observatório Astronómico de Lisboa)
e não tem um único relógio público que emita o tempo oficial.
Após 145 anos nesse papel, o Observatório Astronómico da
Ajuda deixa de ser o emissor da Hora Legal. O site que, durante anos, foi o
cartão de visita do OAL, também vai desaparecer. O edifício, esse, está em
adiantado estado de degradação. Um quadro que espelha bem o chamado “tempo
português”.
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
domingo, 1 de janeiro de 2023
Janela para o passado - Estação Sul e Sueste, Lisboa, 1932
Meditações - dia de Ano Novo
Every morning, when I wake again under the pall of the sky, I feel that for me it is New Year’s day.
That’s why I hate these New Year’s that fall like fixed maturities, which turn life and human spirit into a commercial concern with its neat final balance, its outstanding amounts, its budget for the new management. They make us lose the continuity of life and spirit. You end up seriously thinking that between one year and the next there is a break, that a new history is beginning; you make resolutions, and you regret your irresolution, and so on, and so forth. This is generally what’s wrong with dates.
They say that chronology is the backbone of history. Fine. But we also need to accept that there are four or five fundamental dates that every good person keeps lodged in their brain, which have played bad tricks on history. They too are New Years’. The New Year’s of Roman history, or of the Middle Ages, or of the modern age.
And they have become so invasive and fossilising that we sometimes catch ourselves thinking that life in Italy began in 752, and that 1490 or 1492 are like mountains that humanity vaulted over, suddenly finding itself in a new world, coming into a new life. So the date becomes an obstacle, a parapet that stops us from seeing that history continues to unfold along the same fundamental unchanging line, without abrupt stops, like when at the cinema the film rips and there is an interval of dazzling light.
That’s why I hate New Year’s. I want every morning to be a new year’s for me. Every day I want to reckon with myself, and every day I want to renew myself. No day set aside for rest. I choose my pauses myself, when I feel drunk with the intensity of life and I want to plunge into animality to draw from it new vigour.
No spiritual time-serving. I would like every hour of my life to be new, though connected to the ones that have passed. No day of celebration with its mandatory collective rhythms, to share with all the strangers I don’t care about. Because our grandfathers’ grandfathers, and so on, celebrated, we too should feel the urge to celebrate. That is nauseating.
I await socialism for this reason too. Because it will hurl into the trash all of these dates which have no resonance in our spirit and, if it creates others, they will at least be our own, and not the ones we have to accept without reservations from our silly ancestors.
Antonio Gramsci, in Avanti!, edição de Turim, em 1 de Janeiro de 1916












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