domingo, 8 de março de 2026

Meditações - Naquela idade em que o tempo não existe

PEDROUÇOS

Quando eu era pequeno não sabia

Que cresceria.

Pelo menos não o sentia.

Naquela idade o tempo não existe.

Cada dia é a mesma mesa

Com o mesmo quintal ao fundo;

E quando se sente tristeza

Está tristeza, mas não se está triste.

Eu era assim

E todas as crianças d'este mundo

Assim foram antes de mim.

O quintal grande estava dividido

Por uma frágil grade, alta, de tiras

Cruzadas, de madeirinhas,

Em horta e em jardim.

Meu coração anda esquecido,

Mas não minha visão. De ela não tires

Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui

Dá-me uma felicidade ainda minha!

Inútil o teu frio curso flui

Para quem das lembranças se acarinha.


Fernando Pessoa, 22-10-1935 in Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa, de Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990

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