domingo, 28 de agosto de 2016

Há dez anos - em Jodhpur e Nova Delhi, nos 75 anos do relógio Jaeger-LeCoultre Reverso e lançamento do Reverso Squadra


Em 2006, por esta altura, estávamos na "cidade azul", Jodhpur, no Rajastão, e em Nova Delhi. A viagem à Índia fez-se a convite da manufactura de alta relojoaria Jaeger-LeCoultre, que aí assinalou, com um grupo de jornalistas vindos de todo o mundo, os 75 anos do seu mais perene e bem sucedido modelo, o Reverso. Local apropriado, pois diz a lenda que foram jogadores de pólo ingleses, no tempo do Raj, que pediram um relógio de pulso capaz de fazer uma partida sem ficar com o vidro do mostrador riscado ou partido - nascia a caixa rotativa do Rerverso, inspirada na Art Déco, e de forma rectangular. Nos projectos iniciais havia essa mesma caixa, com o mesmo príncípio, mas quadrada. A Jaeger-Lecoultre, sob a batuta do seu CEO, Jerôme Lambert (hoje na Montblanc), decidiu comemorar o aniversário do Reverso lançando uma versão quadrada, com uma estética mais desportiva e contemporânea - o Squadra.



Há dez anos, escrevíamos várias reportagensvários meios, sobre a visita à Índia. Reproduzimos aqui alguns dos textos.

As várias faces do jubileu reveladas num lançamento digno de marajás, em Jodhpur e Nova Delhi

O Reverso faz 75 anos

A arte de mostrar e esconder, o rectângulo transformado em quadrado, o relógio-jóia levado à aliança perfeita entre forma e função: o Reverso está de parabéns. A “incrível” Índia, com os seus contrastes de cores, cheiros e ambientes, serviu de palco ao lançamento de novos modelos do grande clássico, que leva 75 anos de vida. Jogou-se pólo, andou-se pela “cidade azul”, onde o tempo parece ter parado. E descobriu-se que Jodhpur esteve na rota dos primórdios da aviação portuguesa.

Fernando Correia de Oliveira

Conta a lenda que foram oficiais britânicos, a servirem na Índia, nos anos 20 do século passado, que estiveram por detrás de um dos relógios mais perenes e famosos do mundo: cansados de riscarem os vidros nos choques que tinham a jogar pólo, pediram à manufactura suíça Jaeger-LeCoultre que lhes resolvesse o problema.

E, em 1931, os engenheiros da prestigiada casa apresentaram o Reverso – um relógio que, mediante um engenhoso esquema de calhas, tanto podia aparecer com mostrador à vista, como com o mostrador escondido e a parte de trás à mostra. Estava criado um verdadeiro ícone do design do século XX, ainda hoje um dos relógios mais reconhecíveis do mundo, e que continua a ser o modelo mais vendido da Jaeger-LeCoultre.

Declinado ao longo de 75 anos nas mais diversas funções e tamanhos, o Reverso cedo se prestou a uma personalização – a face lisa começou por ser gravada com o monograma ou o brasão do dono, também foi sendo decorada com esmalte, ganhou mostrador e permitiu complicações relojoeiras de leitura fácil, porque espalhadas por dois espaços distintos.

Agora, que se comemora o jubileu dos 75 anos do Reverso, nada melhor do que voltar às origens, à Índia. E mais propriamente à terra do pólo por excelência, o Rajastão, ou terra dos Marajás (Maha – grande; Rajá, rei, em hindi).

O anfitrião foi o actual marajá de Jodhpur, Sua Alteza Real Gaj Singhji II de Marwar-Jodhpur, 38º senhor de Rathore, membro do clã de guerreiros Rajputs, que ascendeu ao trono em 1952, com apenas 4 anos. Desde a fundação do moderno Estado da Índia, em 1947, que os marajás deixaram de ter autonomia política nos seus territórios, e desde 1971 que deixaram de ter privilégios de rendas ou cobrança de impostos. Mas este marajá aproveitou o palácio mandado construir pelo seu tio-avô, no início do século, transformando-o num hotel de luxo, e vivendo “apenas” numa das suas alas. O palácio de Umaid Bhawan é considerado o maior edifício privado do mundo, com as suas centenas de quartos.


Assistindo a uma partida de pólo, Jerôme Lambert com Sua Alteza Real Gaj Singhji II de Marwar-Jodhpur, 38º senhor de Rathore, membro do clã de guerreiros Rajputs

Jodhpur, a mais antiga cidade do Rajastão, foi fundada em meados do séc. XVI e é conhecida como a “cidade azul”, porque a maioria das suas casas estão pintadas dessa cor. O palácio do marajá, o Umaid Bhawan e a fortaleza de Mehrangarh (iniciada em 1459 e acrescentada ao longo dos séculos) dominam a cidade, a partir de duas colinas.

Foi neste cenário de luxo, cor e cheiros intensos que a Jaeger-LeCoultre apresentou os quatro novos modelos Reverso – dois para homem, dois para senhora. O Reverso ganhou agora uma linha quadrada, o Squadra, e uma das outras peças, evocando o eclipse, é um achado de engenho e arte. Em Nova Delhi, a Jager-LeCoultre associou-se a uma das mais prestigiadas provas de pólo do país, e o Reverso foi omnipresente.





Com Stéphane Belmont, Director de Marketing e Criação da Jaeger-LeCoultre



Com o jornalista alemão Jan Lehmhaus


Ao centro, Janek Deleskiewicz, Director Artístico da Jaeger-LeCoultre



Com Christian Laurent, mestre relojoeiro da Jaeger-LeCoultre





Falando na ocasião, Jerôme Lambert, Presidente da Jaeger-LeCoultre sublinhou que o desporto, nomeadamente o pólo, “personifica a imagem e a vitalidade do Reverso”.

“Fomos buscar desenhos de há 75 anos, quando o Reverso foi concebido, e que nunca tinham sido utilizados”, revelou. Já nessa altura se contemplou a hipótese de um Reverso quadrado, que só agora vê a luz do dia. “É espantoso como a modernidade de linhas se mantém”, diz Lambert. “Se possível, o relógio tornou-se ainda mais marcadamente masculino. E evoca o esforço de equipa”.

“O principal desafio do nosso trabalho é encontrar o equilíbrio perfeito entre as nossas capacidades e criatividade. Não podemos ter apenas sonhos, temos que saber realizá-lo”, diz o jovem responsável da Jaeger-LeCoultre, que tem apenas 35 anos e que está no cargo há dois. “Um relógio Jaeger-LeCoultre deve ser uma soberba peça de medição do tempo, mas, ao mesmo tempo fiável”.

Jerôme Lambert garante: “Não cedemos às pressões do tempo ou do mercado, não nos assustamos com limites técnicos. Mas os nossos relógios têm que chegar verdadeiramente ao mercado. Uma coisa é fazer um relógio turbilhão, peça única, para impressionar, outra é conseguir entregar 500 peças, fiáveis, num período de poucos anos”.

A Jaeger-LeCoultre é hoje uma das poucas manufacturas em todo o mundo que apenas emprega nos seus relógios movimentos feitos em casa. “Os nossos relógios começam num pedaço de aço, que se vão transformando depois de milhares de horas e horas de trabalho de especialistas relojoeiros e artistas em peças que inspiram emoções”, disse o responsável da manufactura.

Para saber mais sobre Jodhpur: www.maharajajodhpur.com.

As novidades para os 75 anos do Reverso

Reverso à èclipses


O Reverso à éclipses contem um “segredo”, um mostrador em esmalte que aparece ou desaparece mediante um sofisticado sistema de persianas comandado por uma coroa, colocada às 2 horas. O processo foi pela primeira vez testado pela Jaeger-LeCoultre em 1910, mas numa peça muito maior, um relógio de bolso. A Jaeger-LeCoultre é a única manufactura relojoeira que mantém ainda hoje em casa (com dois mestres esmaltadores) o saber de miniaturização e esmaltagem, e o Reverso tem sido declinado ao longo dos seus 75 anos com este savoir-faire muito especial. Mas o éclipse é uma peça muito especial, pois com um simples movimento do dedo, ora se mostra, ora se esconde – tornando um relógio de pulso num pequeno teatro de marionetas – a miniatura, que pode vir em quatro temas: viagens de descoberta, signos do Zodíaco chinês, nus famosos (de Ingres a Renoir, passando por Klimt ou as ilustrações anónimas do Kama-Sutra) e “Grand Feu” (esmaltagem que se consegue acima dos 800 graus). O mostrador interior e o exterior podem ser pintados, respectivamente, com as horas do dia e da noite. No interior, o Reverso à èclipses vem equipado com um movimento extra-plano, o Calibre JLC 849, de corda manual. A caixa pode ser em platina ou em ouro.





Reverso Squadra


Quando os engenheiros da Jaeger-LeCoultre trabalharam pela primeira vez o genial conceito Reverso, nos anos 30 do século passado, fizeram-no em duas formas. A rectangular, depois patenteada, entrou desde logo para a história da relojoaria; mas a quadrada, permaneceu um segredo da manufactura. 75 anos depois, baseando-se nos esquemas originais, surge o Squadra.

Evocando a forma quadrada e a filosofia do desporto de equipa (squadra, em italiano), equipado com movimentos Jaeger-LeCoultre de nova geração, o Reverso Squadra é um dos grandes lançamentos do ano. Os movimentos, todos automáticos, por exemplo, têm o rotor montado em esferas de cerâmica (e não nas habituais em aço), dispensando assim a lubrificação. Com um aspecto fortemente masculino, o Squadra vem em três versões: o Hometime (calibre JLC 977) e o Chronograph GMT (Calibre JLC 754) podem ter caixa em ouro rosa ou em aço, enquanto uma edição limitada do Squadra World Chronograph (Calibre JLC 753, mil peças) vem em caixa de titânio.





Reverso Duetto Duo


Esta nova declinação da linha feminina Duetto vem com a função de segundo fuso horário – o primeiro tempo é dado no mostrador da frente, o segundo no mostrador traseiro, onde está ainda um indicador de dia/noite. Com caixa em ouro rosa, amarelo ou branco, e duas fileiras de diamantes, este relógio-jóia vem equipado com o famoso Calibre JLC 854, um movimento de corda manual com 45 horas de reserva de corda. A caixa é estanque até 30 metros.



Reverso Lady jewellery


Ainda na linha feminina e dos relógios-jóias, o Reverso declina-se agora com caixa decorada com diamantes e interior com movimento manual Calibre JLC 846 ou um movimento de quartzo. A caixa do Reverso Lady jewellery pode vir em outro amarelo e aço; e em aço. As braceletes podem ser em pele ou em ouro e aço; e só aço.



O programa incluiu um jantar de gala na fortaleza de Mehrangarh













O palácio do marajá, o Umaid Bhawan, a maior residência privada do mundo, hoje com parte transformada em hotel. Mas o Marajá e a família continuam a viver numa das alas.














Jerôme Lambert fez várias apresentações ao grupo de jornalistas















Dois portugueses na corte do marajá


Era um fim de tarde húmido e quente, o sol tingia de vermelho o horizonte e dificultava a visão dos jogadores de pólo que, naquele descampado de areia de Jodhpur, no norte do Rajastão indiano, iam gritando entre si, incentivando montadas, sacudindo dos olhos a poeira levantada. O Verão de 1924 estava a começar, as temperaturas já atingiam facilmente os 40 graus ao sol, o vento do deserto de Thur (a Morte) ia recordando a sua vizinhança. De repente, um alvoroço – tinha caído um pequeno avião, ali perto. A partida foi interrompida, e o marajá Sir Pratap Singh, ele mesmo um praticante exímio, liderou as operações de salvamento.

Os majores Brito Pais e Sarmento de Beires tinham partido de Vila Nova de Mil Fontes, no litoral alentejano, a 7 de Abril, a bordo do “Pátria”, um avião de bombardeamento nocturno, um Breguet, que tinha servido na I Guerra Mundial e que eles tinham conseguido adquirir por subscrição pública. Os dois pioneiros da aviação lusa propunham-se ligar por via aérea Portugal e Macau. Na escala de Tunes, o mecânico alferes Manuel Gouveia juntou-se à equipa. A escala em Jodhpur estava programada, mas o motor Renault de 300 cv não resistiu até lá, ficando-se a escassas dezenas de quilómetros, no meio do deserto. Na aterragem forçada, o “Pátria” ficou totalmente desfeito. Parecia que a viagem iria ficar por ali. A escala em Jodhpur tinha sido programada, pois o marajá local era conhecido no Ocidente pela paixão que tinha pelos aviões – tinha feito construir um moderno aeroporto, ele próprio pilotava. Nova Delhi ainda nem sequer tinha aeroporto e todo o norte da Índia era servido nessa altura pela escala de Jodhpur, seguindo depois os viajantes por terra.

Contactada Lisboa, Brito Pais e Sarmento de Beires são autorizados a comprar um novo avião. A 7 de Maio, um Havilland Liberty, com motor de 400 cv, comprado em Jodhpur por 4.700 libras, é baptizado com o nome de “Pátria II”. E os dois aventureiros portugueses, que terão entusiasmado com as suas peripécias de voo o marajá de Jodhpur, partem de novo ( mecânico ficou, mais uma vez, em terra) rumo a Macau, onde chegam a 20 de Junho. No total, percorreram 16.380 km, em 115 horas e 45 minutos de voo.

Ainda hoje, no Clube Lusitano de Hong Kong se encontra um painel com partes do “Pátria II”, honrando estes pioneiros da aviação portuguesa.

Regras e conceito básico do pólo


A sua origem perde-se na noite dos tempos, mas há quem diga que foi inventado há 2.500 anos, na Pérsia, e que o rei Dário foi um adepto fervoroso. Conta a lenda que ele terá dado ao jovem Alexandre, o Grande, uma bola, um taco e um conselho: “Vá jogar e deixe a guerra para os adultos”. A resposta de Alexandre terá sido: “Eu sou o taco, e a bola é o mundo que irei dominar”. Depois, já é História com H grande: Alexandre derrotou Dário e conquistou a Pérsia.

Diz-se também que o pólo, tal como hoje é praticado, é uma evolução de um outro passatempo, também praticado a cavalo, mas muito mais bárbaro: as tribos nómadas da Ásia central – mongóis, cazaques, uigures, uzebeques, turquemanos em geral – costumavam jogar com a cabeça do inimigo a fazer de bola… Ainda hoje, a versão mongol do pólo é tradicionalmente jogada com o corpo de um cordeiro, que as duas equipas procuram agarrar e levar até à baliza contrária, sem regras.





Quem diria que este substrato bárbaro daria azo à criação de um dos desportos mais elitistas do mundo. Praticado no norte da Índia desde há muitos séculos, elevado à categoria “elegante” a partir da ocupação do Grande Mogol (Akbar avaliava o mérito dos seus assessores através da habilidade que tinham no pólo), foi no entanto com a ocupação inglesa – e a capa de fair play que os britânicos emprestam a tudo o que praticam – que o pólo passa a ser conhecido e admirado no Ocidente.

Hoje, o pólo tem grande popularidade entre britânicos, indianos, paquistaneses…, mas a grande potência mundial do pólo equestre é a Argentina. Mesmo para um leigo, foi extraordinário assistir à final da Maharaj Sir Pratap Singh Cup deste ano, em Nova Delhi, com cada uma das equipas a ter do seu lado um jogador argentino – Santiago de Estrada e Gaston Moore. Os dois, com hadicaps dos mais elevados do mundo, fizeram a diferença, com passes e disparos espectaculares, corridas vertiginosas, fintas inesperadas, galhardia muito “latina”, para gáudio da assistência, especialmente a feminina…



Apadrinhado tradicionalmente pelos marajás, conhecido como “O Jogo dos Reis”, o pólo a cavalo tem vindo a renascer na Índia (o Pólo Club de Calcutá é o mais antigo, fundado pelos britânicos em 1860), com o Exército a ter um papel essencial na criação das montadas e na formação das equipas.

Em Portugal, a modalidade nunca despertou grande interesse, mas tem havido, na Quinta da Marinha, em Lisboa, tentativas de criar equipas. Como são, então, as regras do pólo? Num jogo muito intenso e perigoso (o filho e herdeiro do marajá de Jodhpur, sofreu há pouco um acidente e esteve em coma vários meses), o primeiro objectivo é assegurar a protecção dos cavalos e, depois, dos jogadores.



Cada equipa é composta de quatro jogadores, cada um com uma missão especial:

O jogador nº 1, o “striker”, é o “oportunista”, e visa essencialmente marcar golos.

O jogador nº 2, o “centre forward”, é o “rapaz das entregas”, procurando sempre fazer avançar a bola para o mais perto possível da baliza contrária.

O jogador nº 3 é o “central half”, ou “play maker”, dado que assume a posição de pivot, distribuindo jogo.

Finalmente, o jogador nº 4, o “full back”, é o “defesa”, pois é nele que reside a última linha de defesa e é onde se iniciam os ataques. Os cavalos próprios para a prática do pólo devem ter um misto de rapidez e paixão, e serem controláveis dentro da intensidade extrema com que as partidas se desenrolam. Os cavalos são treinados desde muito cedo para a modalidade, acompanhados de um regime que lhes aumenta a resistência e tempo de resposta às ordens do cavaleiro.

A principal regra do pólo, e que visa a segurança, é a “linha”. Quando um jogador dispara uma bola, cria uma linha. Essa linha imaginária não pode ser ultrapassada pelo adversário, mas este pode empurrar o oponente.

Tal como no golfe, o pólo pode ser praticado por principiantes a jogarem com veteranos – existe o sistema de handicap, que é dado a cada jogador pela respectiva associação nacional de pólo. No pólo, o handicap é ao contrário do golfe – os grandes jogadores são classificados com 10 e os principiantes com menos 2. O handicap de uma equipa é o somatório dos seus jogadores e é comparado com o da equipa adversária. Ao lado mais fraco é concedido o diferencial em golos no início da partida, e que é visto no tradicional placard.



Um campo de pólo constitui a maior área para um desporto organizado – equivale a cinco campos de futebol.

Os remates são feitos com um stick longo e são “near-side” quando feitos do lado esquerdo da montada, ou “off-side”, quando feitos do lado direito. Cada um dos quatro remates básicos pode, pois ser near ou off side.

O “forehand” é quando se atira a bola para a frente ou lateralmente; o “backhand”, quando se atira para trás; o “neck shot” é o disparo para a frente, mas passando por cima do pescoço do cavalo; o “tall shot”, quando se remata por cima do pescoço do cavalo, mas para trás. Os dois últimos são os mais espectaculares.

Há dois árbitros a cavalo e um a pé. Este último, tem a última palavra, em caso de dúvida.

As faltas são punidas, mediante a gravidade, com remates livres a 45, 60 ou 90 metros da linha de golo. As partidas têm 8 partes de 7 minutos cada, e as montadas são substituídas nos intervalos.

A taça Maharaj Sir Pratap Singh tem o nome do tio-avô do actual marajá de Jodhpur. Ele foi um dos maiores jogadores de pólo do seu tempo e instituiu o torneio em 1921, sendo um dos mais importantes da índia.

Viciante, empolgante, o pólo a cavalo – diz quem o pratica – é “a melhor coisa para se fazer, vestido".






Mulher a varrer a rua em Johdpur. Uma Índia de contrastes

O “escritório” do mundo?

Fernando Correia de Oliveira, em Nova Deli e Jodhpur

Se a China é a “fábrica” do mundo, a Índia prepara-se para ser o seu “escritório”, mercê dos milhões em mão-de-obra qualificada, de língua inglesa e barata. Mas a terra de contrastes que a Índia sempre foi agudiza-se. Os ricos acumulam rapidamente dinheiro, mas o sistema de castas continua lá, os muito pobres não desaparecem. Apesar de tudo, admitem as autoridades, mais vale haver cada vez mais ricos do que continuarem a ser todos pobres.

Ver um filme, num avião, provoca estranhas sensações de comunidade: não há som ambiente, cada qual recebe-o directamente nos ouvidos, mas as reacções grupais ocorrem frequentemente, sejam elas de riso ou de susto. Ficamos então a saber que os nossos vizinhos não estão a dormir, ou a ouvir musica, mas a ver o mesmo filme que nós.

Noite serrada, na última metade das sete horas de voo de Frankfurt até Nova Deli os passageiros da Lufthansa são sempre presenteados com um filme indiano (depois de na primeira metade poderem ver um filme ocidental). Legendado em inglês, apresentando o esperado kitch peculiar, com canções e coreografia, ele é um dos últimos êxitos de Bollywood (contracção entre as palavras Bombaim e Hollywood), que com as suas 800 produções anuais já há muito ultrapassou a fábrica dos sonhos americana.

A história é sempre a mesma – de amores desencontrados, de famílias desavindas por casamentos contrariados. A dado passo, um primo rico, de visita à terra natal, lança a seguinte frase para a embevecida família de classe média que deixou há décadas para trás: “Quando me apresentei ao dono da fábrica [inglesa], ele disse-me que não tinha trabalho para mim. Mas eu disse-lhe que não estava ali à procura de emprego. Estava ali para lhe comprar a empresa”. E os passageiros indianos agitam-se em sintonia, aprovam com as cabeças, riem e dão olhadelas cúmplices uns para os outros, de auscultadores nos ouvidos e no meio da semi-escuridão da cabine.

A “Incrível Índia”, para usar a forte campanha promocional do turismo indiano que tem estado a passar pelos principais meios de comunicação mundiais, despertou. O sentimento nacional hindu tem-se fortalecido, com tudo o que de bom e mau isso representa num país que é um mosaico de culturas e religiões. De qualquer modo, o mundo já está a sentir os efeitos do crescimento económico indiano – competição pela procura de energia, deslocalização maciça de serviços do Ocidente para Silicon Valleys indianos, etc..

Anos antes de a Índia se tornar independente, um jornalista perguntou ao Mahatma Gandhi se queria ver o seu país tão “desenvolvido” como a potência colonial, a Grã-Bretanha. A resposta do pai espiritual e político da Índia moderna foi rápida: “Não”. E perante o espanto do interlocutor, explicou: “Se foi preciso à Grã-Bretanha apoderar-se de metade do mundo para chegar onde chegou, de quantos mundos precisaria a Índia?”

Há quem compare a chegada quase em simultâneo, nas últimas duas décadas, da China e da Índia ao palco económico mundial a acontecimentos tão marcantes para a História da Humanidade como a ascensão do Império Romano ou a descoberta do Novo Mundo.

Somados, a China e a Índia têm 40 por cento da população mundial – tanto quanto os 20 países mais populosos seguintes, juntos. A China e a Índia estiveram pela primeira vez, como convidados, numa cimeira dos G-8, em 2005. O passo mais natural será o de estas duas economias terem em breve assento permanente na organização. A China tem assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Índia nunca o conseguiu, mas vai pressionar cada vez mais para que lhe seja reconhecida a importância política à escala global.

A China tem estado a crescer exponencialmente a uma taxa de praticamente 10 por cento ao ano, desde os anos 80 do século passado, conseguindo a proeza de quase quadruplicar o rendimento per capita para os actuais 4.600 dóalres (contra os actuais 2.500 dólares na Índia), mas o Deutsche Bank prevê que a Índia, cuja economia acelerou particularmente na última década, com taxas de crescimento da ordem dos 8 por cento, ultrapasse nos próximos 15 anos a China como mais rápida grande economia em crescimento.

Na Índia, o uso de electricidade per capita é menos de metade do que já hoje ocorre na China, mas a procura excedeu, mesmo assim, a oferta em 12 por cento em 2004.

A China já é o segundo maior emissor mundial de carbono para a atmosfera, atrás dos Estados Unidos, e a Índia vem em quarto lugar. Mas, medindo em termos per capita, as emissões chinesas ainda são um sétimo e as indianas um dezoito avos das americanas.

Mahatma Gandhi é capaz de ter razão: claro que indianos e chineses têm direito aos níveis de bem-estar ocidentais, mas o que acontecerá ao mundo quando cada família chinesa ou indiana tiver, por exemplo, dois carros? Muito simplesmente, o mundo, tal como o conhecemos, acaba.

Chegados ao aeroporto de Nova Deli, pelas duas da madrugada, a primeira sensação é a de que a Índia, apesar de tudo, vai ter ainda muito que andar: desorganização na fiscalização de vistos, equipamentos obsoletos, luz fraca, cheiro a esgoto, total anarquia nos transportes que possam levar ao centro da cidade.

A estrada que liga ao aeroporto – esburacada, estreita – é a única grande obra pública que vemos a ser feita, talvez daqui a uns anos no seu lugar esteja uma auto-estrada. Mas, para quem tem acompanhado o crescimento económico chinês, espanta não ver gruas na linha de horizonte de Deli, quando em Beijing elas contam-se às centenas. Não há anúncios, a noite indiana parece-se com a noite chinesa de há 20 anos…

O hotel onde estamos instalados tem transporte próprio. É uma das poucas unidades de luxo da capital indiana.

A Índia é considerada a maior democracia do mundo. Tem eleições mais ou menos livres, mas acima de tudo, tem uma imprensa livre. As manchetes dos jornais estão cheias com o último escândalo – quatro anos após o incidente, um tribunal de Deli absolveu, por falta de provas, todos os implicados na morte de uma antigo modelo. A rapariga, que servia num bar da moda em Deli, recusou-se a servir mais bebida a um filho de um deputado. Este, perante dezenas de testemunhas, puxou da pistola e descarregou-a sobre ela. Depois, ele e o grupo de amigos, conseguiu fugir, não sem antes terem limpo a cena do crime. Não apareceram testemunhas no julgamento, o assassino está “retirado” de Deli, mas mantém actividade pública de negócios num estado mais ao sul. O mau é o sistema judicial indiano ser totalmente corrompido e não independente, o bom é a imprensa poder denunciar isso.

Quanto à chamada democracia social, e para além dos estereótipos, a Índia ainda vai ter muito que caminhar em termos de dignidade humana. A ditadura chinesa, sem imprensa ou eleições livres, consegue, mesmo assim, e no meio do liberalismo selvagem das últimas décadas, manter um certo controlo sobre a pobreza extrema.

De manhã, partimos cedo para Jodhpur, no Rajastão. À porta do hotel, sozinha, sentada no banco de trás de uma limusina, Sónia Gandhi, a italiana viúva de Rajiv Gandhi, que tem andado a aprender hindi e que lidera o histórico Partido do Congresso. Os filhos, um rapaz e uma rapariga, já são deputados e deverão assegurar a dinastia Gandhi nos próximos tempos políticos.

Já em Nova Deli percebemos que o país está em tensão permanente – o caminho para o aeroporto tem barreiras e postos militares, os carros são vistoriados à procura de bombas nos chassis quando entram nos pátios dos hotéis. Chegados a Jodhpur, aterramos no aeroporto militar e somos avisados que estamos “a apenas 260 quilómetros” da fronteira com o Paquistão, o eterno inimigo. Multiplicam-se os postos militares, equipados com armas anti-aéreas, helicópteros andam num constante vai-vem.

A chamada Revolução Verde, que massificou o uso de fertilizantes, irrigação e sementes de qualidade, permitiu à Índia ser auto-suficiente em alimentos, mas isso não tornou todos os indianos garantidamente bem alimentados: cerca de 221 milhões – um em cada cinco – estão mal nutridos. Essas pessoas ou não têm dinheiro para comprar comida suficiente ou não têm terra suficiente para a produzir.

Nas ruas de Jodhpur, com esgotos a céu aberto, cães abandonados andam em matilhas, as vacas comem erva que populares lhes vão deixando, indiferentes às tangentes que, nos cruzamentos caóticos, a mais variada e colorida frota de veículos motorizados lhes vão fazendo.


Vista geral de Jodhpur, a Cidade Azul



Pedintes, na sua totalidade mulheres, com os filhos ao colo, abordam os turistas a pé de carro. Num cruzamento, ante o desviar do olhar do grupo de estrangeiros, protegidos pelos vidros fechados, uma mãe vai batendo com a mão. Depois, atira a cabeça do filho, repetidamente. Os estrangeiros, ocidentais e asiáticos, não dizem nada e o silêncio dura o resto da viagem. O grupo está instalado no palácio do marajá de Jodhpur, o maior edifício privado do mundo. O marajá, há muito desapossado do poder político, a viver agora “apenas” numa das alas, mantém uma influência informal na região, e membros da sua família são bem sucedidos empresários.








Perante os dois casos de sucesso económico – China e Índia, as opiniões dividem-se quanto ao futuro. Michael Mandelbaum, da John Hopkins University, de Washington, dizia recentemente ao International Herald Tribune: “Existe muita turbulência à superfície da democracia indiana, mas há um grande consenso lá bem no fundo do sistema político; na China, passa-se o contrário. Está estável à superfície, mas não lá no fundo. Poderá haver um grande terramoto que destrua tudo na China. Isso não ireá decerto acontecer na Índia”.

Para alguns especialistas, a China impõe a estabilidade de cima para baixo, enquanto a estratégia indiana, de permitir que, lentamente, cada vez mais pessoas acedam a estádios cada vez maiores de bem-estar, poderá criar raízes de estabilidade, a partir de baixo para cima.

Só em 1991 a Índia começou o processo de liberalização do seu mercado interno, enquanto a China tem mais de uma década de avanço, pois o processo reformador começou em 1979. Mas, mesmo quando era muito pobre, a China mantinha um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, era tida em conta pela comunidade internacional. A China é uma Grande Potência, a Índia poderá vir a ser uma Grande (e, finalmente, verdadeira) Democracia.

Agora que é cada vez mais rica, será que a Índia ganhará o estatuto de respeitabilidade internacional que sempre lhe tem escapado, sem se saber muito bem porquê?



Um mil-folhas cultural e religioso

Organização política – República Federal, democracia parlamentar, dividida em 20 Estados.

Superfície: 3 287 260 km2 (seis vezes a França, mais de 35 vezes Portugal)

População: 1,1 mil milhões de habitantes (mais do dobro da população da União Europeia alargada a 25 membros, mais de 100 vezes a população de Portugal)

Cidades: Mais de 30 com mais de um milhão de habitantes, Nova Deli e Bombaim (Mumbai) têm mais de 13 milhões, Bangalore, Madras e Calcutá mais de 5 milhões. Mas a Índia continua a ser um país fundamentalmente rural: 801 milhões vivem nos campos, 308 milhões nas cidades. A Índia é um dos países mais jovens do mundo: um terço da população tinha menos de 15 anos em 2000. Em 2020, a idade média no país será de 29 anos, comparada com 37 anos na China e nos Estados Unidos, 45 anos na Europa ocidental e 48 anos no Japão. Com uma taxa de crescimento de 14,7 por cento ao ano, a população indiana ultrapassará em 2034 a da China, tornando-se assim a Índia o país mais populoso do mundo.

Religião: A esmagadora maioria da população é hindu. O Islão, que é praticado por cerca de 140 milhões de pessoas (13,4 por cento da população), é a segunda religião do país, segundo maioritária apenas num estado, o de Jammu e Caxemira, no norte. Há 24 milhões de cristãos, representando um pouco mais de 2 por cento da população e vivendo sobretudo no sul. Os 19 milhões de sikhs (uma religião autóctone, dissidência do hindu, a meio caminho entre esta religião e o Islão) estão concentrados no Punjab (noroeste), onde são a maioria. Há ainda 8 milhões de budistas e 4 milhões de jainistas. Há também minorias judaicas, animistas e parsis (zoroastrianos).

Língua: Desde a aprovação em 1950 da Constituição indiana, o hindi e o inglês são as duas línguas oficiais, mas falam-se 415 línguas diferentes, agrupadas em vários grupos, de que os principais são o indo-europeu (norte) e o dravidiano (sul).

A diáspora: Há 20 milhões de indianos fora do seu país. Myanmar (antiga Birmânia), com quase 3 milhões, é a principal comunidade, seguida da dos Estados Unidos (1,9 milhões), Malásia (1,7 milhões), Arábia Saudita (1,5 milhões), Reino Unido (1,2 milhões) e África do Sul (1 milhão). Estas comunidades são geralmente prósperas e têm um peso proporcionalmente muito maior nos países de acolhimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, os cidadãos de ascendência indiana representam apenas 0,5 por cento da população americana, mas mais de 5 por cento dos cientistas, engenheiros e peritos em computadores.

Pobreza: Mais de 315 milhões de indianos vivem ainda num estado de pobreza total, com rendimentos diários inferiores a um dólar por dia. As elites políticas e económicas indianas admitem que a estratégia não é, com o crescimento económico exponencial, combater directamente a pobreza, mas antes, numa primeira fase, acumular riqueza. Mesmo assim, os pobres constituíam metade da população nos anos 80 do século passado e hoje já são menos de um terço, diminuindo ao ritmo de 1 por cento ao ano. O Governo do primeiro-ministro Manmoham Singh lançou recentemente um programa que garante para as zonas rurais mais pobres pelo menos 100 dias de trabalho remunerado para cada chefe de família, uma espécie de”rendimento mínimo garantido”.




Castas: O termo dalit, que significa oprimido, designa os “intocáveis” no discurso oficial mas também, desde há décadas, na linguagem corrente. Anteriormente, para se designarem os elementos que estavam abaixo do sistema de castas, utilizava-se a palavra achoot – “impuro”, em hindi – ou outras palavras do rico repertório da exclusão. Mas este termo, muito estigmatizado, foi caindo progressivamente em desuso. O mahatma Gandhi, que sempre combateu o estatuto dos intocáveis, introduziu o termo harijan (filho de deus) no início dos anos 30 do século passado. Mas esta expressão – vista como condescendente pelos próprios interessados – não traduz a opressão que, ainda hoje, sofrem quotidianamente cerca de 16 por cento dos indianos, apesar de o sistema de castas ter sido abolido oficialmente com a Constituição de 1950. Há, hoje em dia, um orgulho dalit, uma literatura dalit, eleitos dalit, até mesmo um antigo Presidente da União (1997-2002), Kocheril Raman, era intocável. A situação tem melhorado lentamente, com 12 milhões de intocáveis a serem hoje abrangidos pela escolaridade, quatro vezes mais do que há 25 anos. E a discriminação positiva, em vigor há décadas, tem garantido empregos públicos e ascensão social para membros de castas mais baixas ou para os intocáveis. A palavra hindi para casta é jati, que deriva do verbo nascer. Ainda hoje, o nascimento determina o que se come, o que se veste, com quem se casa, em quem se vota. A sociedade está dividida em quatro classes – sacerdotes, guerreiros, camponeses e servos, e dentro de cada uma delas há milhares de castas. Alinham geralmente pelas profissões, aparecem com frequência nos nomes de família, indicam o grau de “pureza”. Casar fora da casta é anátema. E escapar à sua casta, aquela que o karma (destino) lhe destinou, é impossível, a menos que cesse o ciclo de reincarnações.

Mulheres: Os abortos selectivos, maciçamente praticados, não se restringem às zonas pobres e rurais. Em Nova Deli, por exemplo, números oficiais davam recentemente, nos bairros mais ricos da capital 845 raparigas para cada mil rapazes. A desvalorização da mulher tem raízes muito profundas, que a riqueza e a modernidade parecem ter, contraditoriamente, apurado – os ricos conseguem mais facilmente uma ecografia, um aborto…. Quanto a casamento, a idade legal é desde 1978, de 18 anos para as mulheres e de 21 anos para os homens. Mas, ainda hoje, segundo números oficiais, 56 por cento das raparigas das zonas rurais casam-se antes dos 18. E os casamentos, nessas regiões, não costumam sequer ser registados. Uma grande quantidade de casamentos continua a ser arranjada pelas famílias. Os pais tentam um bom partido – da mesma casta, da mesma religião, da mesma região, se possível. O negócio das agências matrimoniais, com os seus serviços informatizados, é dos mais prósperos, adaptando-se a essas exigências de oferta e procura.

Emprego: a mão-de-obra indiana cresce ao ritmo de 2,5 por cento ao ano, mas o mercado de emprego aumenta apenas ao ritmo de 2,3 por cento, sendo por isso difícil aos 7 milhões de novos activos encontrar trabalho. Oficialmente, há 6 milhões de desempregados, mas este número reflecte apenas uma parte da realidade, já que a grande maioria das pessoas trabalham por conta própria na economia paralela. Apenas uma pequena minoria – cerca de 10 por cento da população activa – beneficia de um estatuto social reconhecido, com protecção social. Centenas de milhões de trabalhadores do sector informal (economia paralela) não têm qualquer protecção social e estão impedidos de se sindicalizarem.

Empresários: Desconhecidos do mundo ainda há uma dezena de anos, os homens de negócios indianos têm surpreendido nos mais diversos sectores. A OPA lançada no início deste ano pelo líder mundial do aço, Lakhshmi Mittal, sobre a multinacional europeia Arcelor veio apenas chamar a atenção para “capitães da indústria” com pulso. Mittal, que vive em Londres, detém a terceira maior fortuna do planeta. P. R. S. Oberoi, líder do grupo hoteleiro Oberoi, ocupa já o terceiro lugar a nível mundial no sector de hotelaria de luxo. Vijay Mallya, patrrão do UB Group, está também em terceiro lugar mundial em bebidas espirituosas. Malvinder Singh, que dirige o laboratório familiar Ranbaxy, está em quinto lugar na produção mundial de genéricos (desenvolve actualmente as suas próprias moléculas, a um custo cinco vezes mais barato que no Ocidente).

Serviços: Contrariamente ao modelo chinês, não é a indústria que tem feito avançar a economia indiana. Graças a uma mão-de-obra qualificada, anglófona e 70 por cento mais barata que no Ocidente, o sector dos serviços já contribui para 52 por cento do PIB e está a crescer 20 por cento ao ano. Se a China é a “fábrica do mundo”, a Índia está a tornar-se no seu “escritório”.

Serviços informáticos: Das escolas de elite indianas saem todos os anos 300 mil engenheiros, com um nível profissional do mais elevado que há no mundo. Um milhão de indianos jovens, qualificados, a ganharem um quinto dos seus congéneres americanos ou europeus, trabalham para multinacionais ocidentais, prestando todo o tipo de serviço informático, desde o mais sofisticado desenho de software até à análise financeira, passando pelo processamento de facturas, gestão de redes, ou pelos menos exigentes serviços de help-desk, back office ou call center. E onde, por vezes, o inglês não é muito perfeito… prestando-se a confusões. Com receitas de 18 mil milhões de euros em 2005, concentrado em Bangalore, o sector informático dos serviços indiano criou 1,3 milhões de empregos na última década e está a provocar a deslocalização em massa e o out-sourcing de serviços na Europa e nos Estados Unidos, provocando o desemprego da mão-de-obra qualificada ocidental. A próxima etapa será a conquista dos mercados de estudo de opinião… O termo “ser bangalorizado” já é usado nos Estados Unidos quando alguém se refere a ter perdido o emprego para um “concorrente” indiano.

Serviços de Saúde: Os hospitais estatais indianos debatem-se com crónica falta de médicos (só em Nova Deli, há falta de 600, incluindo 200 especialistas. Mas o quadro para estrangeiros é diferente. Em 2005, cerca de 150 mil estrangeiros procuraram os hospitais indianos para intervenções cirúrgicas. Não há tempo de espera, a estadia é barata, a qualidade é topo de gama (os médicos dominam o inglês e tiraram os cursos no estrangeiro). “Não podemos falhar, o sucesso tem que ser a 100 por cento, porque um falhanço seria um desastre a passar de boca em boca”, admitem os médicos indianos. Este ano, o número de doentes estrangeiros a fugirem das listas de espera e dos preços ocidentais e a entregarem-se a especialistas em Nova Deli deverá duplicar. A Índia deverá também ser a “clínica” do mundo rico.

Testes de medicamentos: A Índia poderá tornar-se, muito rapidamente, no campo de experimentação mundial de novos medicamentos. Desde logo, tem uma vasta população doente – 32 milhões de diabéticos, por exemplo. E que é, como se diz tecnicamente, “virgem de tratamento”, ou seja, nunca tomou medicamentos para as suas doenças. Isso é uma grande vantagem para as multinacionais farmacêuticas, pois baixa o risco de interacções entre drogas e evita o processo complicado de “limpar” um paciente quando este muda de um medicamento para outro. Os médicos indianos, mal pagos, são aliciados para angariar doentes para os programas de pesquisa, já que, para além de dinheiro, podem obter férias no Hawai ou na Europa. Quanto aos doentes, com centenas de milhões a viverem em extrema pobreza, há longas filas de candidatos para o que quer que seja que se lhes exija. A Índia torna-se também, assim, num gigantesco “ratinho de laboratório” do mundo.

Classe média: Cerca de um quinto dos lares indianos (quase 200 milhões de pessoas) já tem um rendimento anual de 3 mil a 20 mil dólares. Isto num país onde a alimentação e o vestuário custam sete a oito vezes menos que em Portugal. Os templos do consumo “à americana”, os centros comerciais, nascem como cogumelos depois das chuvas: havia três há cinco anos, hoje são 300.

Muito ricos: Há já 1,2 milhões de agregados familiares com um elevado poder de compra, superior ao médio europeu. Segundo estudos da McKinsey, o mercado indiano do luxo vale hoje 500 milhões de euros e cresce à taxa de 20 por cento ao ano. As grandes marcas de luxo já estão presentes, com boutiques monomarca, em Nova Deli ou Calcutá.

Bolsa e Bollywood: Rebaptizada Mumbai, a antiga possessão portuguesa e depois britânica de Bombaim, onde 60 por cento dos seus 18 milhões de habitantes ainda vivem em bairros da lata, tem a 10ª bolsa mundial. É também a sede da gigantesca indústria cinematográfica indiana, a chamada “Bollywood”.

Automóveis: A venda de automóveis mais que duplicou nos últimos cinco anos, mas apenas oito em cada mil indianos possuem carro. Segundo um estudo da McKinsey, o país será o quinto maior mercado mundial de automóveis em 2015.

Motorizadas: Vendem-se anualmente 5 milhões, fazendo do país o segundo maior mercado mundial, a seguir à China.

Telemóveis: Mais de 3 milhões de novas assinaturas por mês, devendo os actuais 100 milhões de utilizadores duplicarem para 200 milhões até ao final de 2007. A Nokia espera que a Índia se torne no segundo maior mercado mundial em volume de vendas de telemóveis até 2010, logo atrás da China. Tanto a Nokia como outros fabricantes estão a construir unidades de produção no país, para aparelhos de gama média e baixa. Juntando telefones móveis e fixos, a Índia ultrapassou mesmo a China – em Janeiro deste ano, contra “apenas” 5 milhões de novos subscritores chineses, houve 5,3 milhões de indianos. Segundo as autoridades, haverá entre 4,5 a 5,5 milhões de novas ligações telefónicas na Índia a cada mês que passa. A esse ritmo, serão atingidas as 250 milhões de ligações antes da data prevista, 2007. Decorre um programa financiado pelo Governo, “One India”, que pretende, já a partir deste mês, baixar o preço de qualquer chamada, dentro da Índia, para uma rupia.

Viagens: Nos últimos dois anos, as viagens de avião para o estrangeiro aumentaram 40 por cento, estando hoje perto dos 7 milhões de voos anuais.

Energia: A Índia e a China, as duas grandes economias de crescimento mais rápido, estão a competir por matérias-primas à escala global, fazendo aumentar exponencialmente a procura… e os preços, afectando com isso o Ocidente. Metade da energia usada pelos indianos é proveniente do carvão e mais de um terço do petróleo (70 por cento dele importado). Apenas 6,5 por cento vem do gás natural, 6,3 por cento de recursos hidro-eléctricos, 1,7 por cento do nuclear e 0,2 por cento de fontes renováveis. Por volta de 2015, a oferta mundial de petróleo atingirá o seu máximo e, a partir daí, começará a diminuir. Com os modelos de desenvolvimento actuais, a índia e a China competirão arduamente com os países desenvolvidos para conseguir barris que cheguem…

Para saber mais:

“Inde un autoportrait”, in Courier International, hors-série, mars-avril-mai 2006

“Special Focus: China and India”, in The Worldwatch Institute State of the World, 2006

Grandes datas:

Séc. III a. C. – O imperador Ashoka, fundador do império dos Maurya, é o primeiro a dar uma unidade política ao que é hoje a Índia.

Séc. XVI – Akbar (1542 – 1606), o Grande Mogol, tem o seu império estendido praticamente pelo mesmo território dos Maurya. Os ocidentais chegam à zona, liderados pelos portugueses, e intrometem-se nos circuitos comerciais da zona, que eram dominados pelos muçulmanos.

Séc. XIX – A colonização britânica do sub-continente indiano atinge o auge com a rainha Vitória (1819 – 1901). É o tempo do “Raj”, que só acabará em 1947.

Séc. XX – A Índia torna-se independente a 15 de Agosto de 1947 e a Constituição aprovada entretanto cria a 26 de Janeiro de 1950 a União Indiana. Ao mesmo tempo, forma-se o Paquistão, um Estado cuja existência tem como única razão a religião – o islamismo. A questão de Caxemira, onde os muçulmanos são maioritários, continua por resolver. Os dois gigantes regionais, ambas potências nucleares, estão desde então em conflito mais ou menos aberto. Os incidentes inter-religiosos são constantes, com perseguições, massacres, atentados.

Mahatma Gandhi


Na entrada do mausoléu ao pai da Índia moderna, em Nova Deli, está gravada em pedra uma frase de Gandhi, o seu “talismã”:

Recorda a face do mais pobre, do mais infeliz que tenhas encontrado e interroga-te – será que o passo que estás a pensar dar irá ser de alguma utilidade para ele? Será que lhe restaurará o controlo sobre a sua própria vida, sobre o seu destino? Por outras palavras, será que ele leva ao swaraj ou auto-governo para os milhões de compatriotas nossos esfomeados e espiritualmente desprovidos? Assim encontrarás respostas para as tuas dúvidas e o teu “eu” dissolver-se-á.



Parque, no centro de Nova Delhi, onde se encontra o Mausoléu de Gandhi




Aquele a quem Winston Churchill descrevia com desprezo como “um fakir meio nu” e a quem os indianos tratavam carinhosamente como “Bapu” (paizinho) ou Mahatma (grande alma), é a principal figura política e espiritual da Índia moderna. Nascido Mohandas Kaqramchand Gandhi, em 1869, numa família rica do Gujarat, vai estudar para Londres, onde se torna advogado. Exerce em Bombaim e emigra rapidamente para a África do Sul, onde se confronta pela primeira vez com as injustiças sociais e funda o primeiro ashram. Regressado à índia durante a I Guerra Mundial, lidera o Partido do Congresso numa linha nacionalista que irá levar à independência. Dirige movimentos maciços de desobediência civil e resistência pacífica contra o poder colonial britânico. Teorizador da não-violência activa, consegue o seu objectivo, mas opõe-se à partição do continente por linhas religiosas. É assassinado por um extremista hindu, em 30 de Janeiro de 1948.

Quase 60 anos após a sua morte, as classes dirigentes – políticas, económicas, intelectuais – da índia, não parecem estar muito preocupadas em recordar “a face do mais pobre”. Defendem-se, dizendo que os efeitos do crescimento económico, embora não tenham ainda chegado a todos, irão um dia chegar. E que sempre é melhor haver cada vez mais ricos do que só haver pobres…  

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