segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Memória - primórdios da portabilidade do tempo*

A “privatização” do tempo e a sua verdadeira “portabilidade” só ocorrem quando, no início do século XVI, um relojoeiro alemão, da Floresta Negra, Peter Henlein, introduz uma forma revolucionária de força motriz no mecanismo – a corda enrolada em espiral. Até então, os relógios eram todos de grande tamanho, metidos em gaiolas de ferro, e extraíam a força para trabalhar através de pesos suspensos por cordas – quanto mais comprida a corda, maior a autonomia. Tratava-se de relógios suspensos em torres de igrejas, mosteiros, castelos, que “batiam” as horas, pois estavam geralmente ligados a sinos.

Com a miniaturização das máquinas do tempo permitida pela inovação de Enlein, uma classe burguesa europeia ascendente passa a orgulhar-se dos seus relógios “portáteis”, fosse eles de mesa, os chamados “Ovos de Nuremberga”, dada a sua forma e a origem de fabrico, ou de carruagem. Mas, tal como os de torre, apenas possuíam o ponteiro das horas, tal era a imprecisão dos mecanismos. O acto de “dar à corda” passava a ser agora executado através de uma chave, que permitia o enrolar de novo da mola. De qualquer modo, os relógios assumem-se a partir de então como objectos que conferiam estatuto a quem os possuía.

Os relógios de bolso, a partir de dada altura munidos de coroa (invenção simultânea da Bovet e da Patek Philippe, em 1839), em substituição da chave de corda, são primeiro encomendas de reis e imperadores, passam a ser objectos de culto de industriais e comerciantes, são chão profícuo para uma aliança que, desde logo, se firma entre duas artes – a Relojoaria e a Joalharia. As caixas dessas máquinas do tempo prestam-se a decorações cuidadas, a serem a paleta de joalheiros.

Um dos mais famosos relógios de bolso de sempre foi feito para uma mulher, a rainha de França, Marie-Antoinette. Um seu cortesão encomendou-o em 1783 ao mais famoso relojoeiro de sempre, Abraham-Louis Breguet. Aliava o máximo da complicação mecânica – calendário perpétuo, cronógrafo, indicação de reserva de corda, etc. – a uma esplendorosa riqueza em ouro, esmalte e pedras preciosas na caixa. O relógio só ficou pronto em 1802, dez anos após a morte da rainha. Depois de várias atribulações desapareceu, num assalto a um museu de Jerusalém, onde se encontrava, em 1983, para nunca mais ser visto, o que ajudou para lhe aumentar a fama.

A Breguet, actualmente detida pelo maior grupo relojoeiro do mundo, o Swatch Group, fez recentemente uma réplica do famoso “Marie-Antoinette”, objecto que é mesmo a personagem principal de um romance, A Grande Complicação, de Allen Kurzweil, publicado em 2003, em Londres.
Quando surgiu o primeiro relógio de pulso? Quem foi o seu “inventor”? E quem o utilizou pela primeira vez? Um homem ou uma mulher? São perguntas que não têm uma resposta fácil, e as mais variadas versões correm sobre tão fascinante assunto.

Há quem diga que foi um homem, o matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662), quem iniciou o conceito, ao usar uma fita para atar ao pulso o seu relógio de bolso. Isto para poder, durante as experiências que fazia, medir mais facilmente os tempos. Mas há registos de que, em 1517, a rainha Isabel I, de Inglaterra, recebeu de presente “um relógio para usar no pulso, e que batia horas”.

Ao certo, sabe-se que em 1810, a rainha de Nápoles, Caroline Murat, irmã do imperador Napoleão I, recebe aquele que é comprovadamente o primeiro relógio de pulso, de novo um Breguet, embora ainda se veja que é uma adaptação de um relógio de bolso, ou mais propriamente, de uma “pendulette”, o relógio que as senhoras colocavam ao peito. Mais uma vez, a Swatch foi aos arquivos e produziu no ano passado a réplica do Rainha de Nápoles, um relógio que surpreende pelas suas linhas sóbrias e modernas, sem deixar de ser, como qualquer relógio feminino até então, acima de tudo, uma jóia, um adereço.

A Patek Philippe reivindica a primazia quanto ao primeiro relógio de pulso feito com uma forma de raiz e não adaptado dos de bolso. Tratava-se de um modelo masculino, que apareceu em 1868.
Estava-se à beira do século XX, mas mantinha-se a ordem iniciada com a introdução do relógio pessoal no quotidiano. Essa ordem social, vinda desde o século XVI, estava “ancorada na racionalidade e na divisão do tempo da produção (do homem) e o da reprodução (da mulher)”, como explicam as académicas brasileiras Deis Siqueira e Lourdes Bandeira num ensaio publicado em 2003 – “A construção feminina do tempo”.

Com este novo sentido de tempo, que substituiu o da ruralidade, “configuram-se novos espaços: o da produção, construído como domínio do homem e o da reprodução, marcado como domínio das mulheres”, explicam as especialistas. “Aos homens cabia a auto-afirmação da razão científica aliada à dominação, que revela a ‘civilização’. Às mulheres, os desejos e as paixões, as fragilidades, o domínio da irracionalidade.

O tempo da racionalidade é identificado com os homens, e o tempo menor, dos afazeres, dos afectos, dos cuidados, como tempo das mulheres. A representação social hegemónica do tempo é exterior – o da fábrica, da rua, o tempo masculino, enquanto o tempo feminino interioriza o tempo da casa, dos filhos, dos cuidados, dos afectos”, defendem.

Nesse sentido, uma das explicações dadas para o aparecimento mais generalizado dos primeiros relógios de pulso, no século XIX, tenha sido entre as mulheres e, principalmente, entre as mães que amamentariam. “Como solução para a curiosidade dos bebés que tinham ao colo, e que queriam mexer constantemente nas suas ‘pendulettes’, elas passaram a usar o relógio preso por uma fita, no pulso”, diz Caroline Childers, na sua obra Designers of Time, de 1999. De qualquer modo, as enfermeiras, por motivos de higiene, nunca deixariam de usar “pendulettes” na sua actividade profissional.

Na transição dos séculos XIX para o XX, o relógio de pulso era uma coisa decididamente feminina, vista mais como uma peça decorativa do que como um instrumento para ver as horas. Alguns homens mais “atrevidos” ousavam experimentar o novo adereço, que a Rolex, fundada em 1905, queria impor na versão masculina. Mas, até aos anos 30 do século passado, ainda havia muito homem que proclamava a sua masculinidade ostentando um pesado relógio de bolso, proclamando que “vestiria antes uma saia do que passaria a usar essa modernice atada ao pulso”.

A Cartier produzia em 1888 o seu primeiro modelo de relógio de pulso feminino, com diamantes e bracelete em ouro, mas a maior parte das pessoas está ainda hoje convencida de que o primeiro relógio de pulso do famoso joalheiro parisiense foi feito por encomenda do brasileiro Alberto Santos-Dumont, em 1904. Amigo de Louis Cartier, cosmopolita e dandy, Santos-Dumont falou-lhe da dificuldade em ler o tempo no relógio de bolso, quando pilotava o seu avião. Daqui surgiu, primeiramente, um modelo único, desenhado por Cartier expressamente para o amigo e, depois, a linha Santos, que ainda hoje permanece como um dos valores seguros da casa da Place Vendôme.

Já antes, a Omega tinha, em 1902, produzido um relógio de pulso adaptado no seu formato a partir de um relógio de bolso (a alheta de protecção da corda ganhou uma “irmã” no lado oposto da caixa, passando uma fita pelas duas e chegando-se assim à pulseira. Ainda hoje, a Bovet tem como “assinatura” relógios de pulso que têm a coroa, não às 03h00, mas às 12h00, como no início da metamorfose).

Um relógio de bolso continuava a ser sinal de estatuto social, ao alcance de poucos, pois o seu preço representava anos de salário de um operário. Sabe-se que, esporadicamente, os oficiais, em combate, atavam os seus relógios de bolso ao pulso, com cordas e atacadores, para puderem estar a consultar em permanência as horas, indicação crucial para a sincronia de operações distantes entre si. Mas era ainda o tempo dos “oficiais e cavalheiros”, que usavam os seus próprios relógios em teatro de guerra.

Sabe-se que a Girard-Perregaux equipou por volta de 1880 a Marinha Imperial Alemã com relógios de bolso adaptáveis ao pulso, quando em combate. Uma coisa é certa – foi mesmo a guerra, bem masculina, que provocou o uso maciço de relógios de pulso. No conflito anglo-boer (1899-1902), os oficiais britânicos destacados para a defesa da colónia da África do Sul tinham uma superioridade técnica em relação ao adversário – relógios mais fiáveis e exactos, que usavam no pulso, a forma mais prática de coordenar e sincronizar acções sem ter que tirar repetidamente do bolso uma “cebola” que, como o nome indica, tinha que ser aberta nas suas várias camadas antes de mostrar a que horas se estava…

O passo decisivo na massificação do uso do relógio de pulso e no crepúsculo do relógio de bolso é dado com o desembarque das tropas norte-americanas em teatro europeu, durante a I Guerra Mundial (1914-1918). Desta vez, já não eram apenas os oficiais, também os soldados vinham equipados com relógios de pulso, às centenas de milhares, oferecidos pelo Estado, aquando da mobilização, tornados mais baratos por métodos de produção em série que um certo sr. Ford (antigo relojoeiro) tinha aplicado aos automóveis… (um russo exilado, um tal Roskopf, tinha antes proletarizado o relógio de bolso, revolucionando os movimentos, ao poupar em metade das peças. Injustamente, em Portugal, “marca Roskopf” é, ainda hoje, sinónimo de má qualidade).

A partir da entrada da mulher no mercado de trabalho – também por essa altura, e também inicialmente nos Estados Unidos, substituindo nas linhas de produção os homens que tinham partido para a frente de combate – altera-se também a sociologia do tempo. Deis Siqueira e Lourdes Bandeira defendem no estudo citado que, “ganhando” o tempo até agora masculino, da fábrica, da rua, a mulher não se libertou do seu tempo original, privado, do lar, da família.

Vivendo até hoje uma angustiante falta de tempo. “A identidade feminina passou a incorporar o referencial da profissão e as mulheres passaram a actuar, a serem identificadas socialmente e a auto-identificarem-se como profissionais, além de continuarem a ser mães e esposas”, dizem. “A partir daí, o tempo do relógio é curto para desempenhar a multiplicidade de funções e papéis. É curto, sobretudo, pela intensidade do tempo da produção, que tem que se sincronizar com o tempo da reprodução”.

Funções que vinham dos relógios de bolso, como o alarme, o cronógrafo, a indicação de segundo fuso horário, o movimento automático, foram passando para os relógios de pulso, mas é em 1966 que se dá uma revolução semelhante à ocorrida quando Peter Henlein inventou a corda helicoidal – a Girard-Perregaux desenvolve o relógio a pilhas, com cristal de quartzo, depois de algumas experiências de outras marcas com relógios eléctricos.

As várias manufacturas suíças entram na corrida iniciada pela GP, mas é o Japão, com relógios muito baratos, que ganha e, nos anos 70 do século passado, parecia que o mundo da relojoaria iria ser nipónico e que os relógios mecânicos iriam desaparecer de todo.

Os movimentos de quartzo, além de permitirem o abaixamento espectacular dos preços, também davam mais liberdade nas formas, libertando espaço para a criatividade dos designers. É a época dos relógios ultra-finos, dos recordes de miniaturização, dos mostradores e caixas inteiramente em pedras preciosas.

A liberdade de criação e o abaixamento do preço trazidos pelo quartzo ajudaram principalmente o relógio feminino a tornar-se ainda mais num acessório de moda e cada vez menos num instrumento de medição do tempo.
Hoje, grandes grupos da indústria do luxo afinam as suas práticas à escala global com estratégias essencialmente escoradas num nome, numa marca de prestígio. Se essa marca tem raízes joalheiras, passa também a fazer acessórios, marroquinaria, relógios. Se vende há um século material de escrita, aproveita a fidelização de milhões de clientes ao longo de gerações, e passa também a fazer perfumes, relógios.

Se a tradição era apenas relojoeira, de manufactura, com pergaminhos na micro-mecânica, a marca não se pode permitir a ausência no sector do relógio-jóia, avança mesmo com linhas de joalharia. Por outras palavras, todos fazem de tudo, num sector do luxo que cresce bem acima do ritmo da economia mundial e que tem três ou quatro paraísos virgens por explorar – Brasil, Índia, Rússia, China. É preciso montar mais um “tijolo” (bric) na parede do sucesso…, aproveitar a onde revivalista que deu novo fôlego ao relógio mecânico, aquele que tem mais valor acrescentado e se valoriza seguramente com o tempo.

Três grandes universos jogam esta batalha com armas poderosas:

Há o maior grupo de luxo do mundo, o francês LVMH que, além de marcas muito fortes nos vinhos e nos champanhes, detém o maleiro Louis Vuitton ou a casa de moda Christian Dior. Ambas as marcas estão a produzir também relógios, com considerável sucesso, especialmente entre o público feminino.

Mas o grupo detém ainda as manufacturas relojoeiras TAG-Heuer (de linhas mais masculinas e desportivas, embora crescendo nos modelos de senhora) e Zenith (esta última a sofrer uma autêntica revolução, com o seu presidente, Tierry Nataf, a levar a velha e respeitada casa a fazer hoje dos mais interessantes modelos, mecânicos, de relógios para senhora, com linhas e cores ousadas).

Há depois o maior grupo relojoeiro do mundo, o Grupo Swatch, do suíço-libanês Nikolas Hayek.
Baseado no sucesso do seu conceito Swatch, quando a indústria helvética da relojoaria mecânica estava moribunda, Hayek foi conseguindo, a partir dos anos 80 do século passado, capital para fazer a sua galáxia de marcas, que vão da Breguet à Omega, passando pelas Blancpain, Jaquet Droz, Longines ou Tissot. Todas elas estão a entrar na área da joalharia, com boutiques monomarca em países como o Japão.

Finalmente, o terceiro pilar deste jogo – o maior grupo relojoeiro de luxo, o sul-africano Richemont, cujo dinheiro de investimento provém da indústria tabaqueira. O port-folio deste grupo é impressionante, vai desde o porta-estandarte joalheiro que é a Cartier à manufactura “pura e dura” de relojoaria que continua a ser a Jaeger-LeCoultre, mas passa pela histórica Vacheron Constantin (a mais antiga manufactura relojoeira do mundo, com 251 anos de trabalho ininterrupto) ou pelas alemãs A. Lange & Sohne e Montblanc, pela britânica Dunhill ou pela Van Cleef & Arpels, “dividida” entre Paris e Nova Iorque.

Acrescente-se aquela que é considerada a “rainha” das marcas de relógios-jóia, a Piaget (só faz peças em metais preciosos, com ou sem pedras). Desse universo fazem ainda parte a italiana Panerai ou as suíças IWC e Baume & Mercier. Mais uma vez, os negócios alastram das áreas tradicionais, procurando todas as marcas fazer linhas de jóias, adereços, perfumes.

Nos independentes, Rolex e Patek Philippe batem-se pelo topo no reconhecimento mundial de Alta Relojoaria, mas muitas das suas peças são relógios-jóias para um público feminino algo mais conservador. Têm como concorrentes relojoeiros tradicionais, como a Audemars Piguet ou a Girard-Perregaux, muito respeitadas pelas suas inovações técnicas e que, nos últimos tempos, se têm voltado também para a mulher e para o relógio-jóia.

Bulgari, Chopard, Corum, Hermès, Harry Winston, Mauboussin, assentes num património histórico impressionante, são casas ligadas à Alta Joalharia ou aos adereços de luxo e que, nos últimos anos, têm concorrido com as manufacturas tradicionais no mercado dos relógios topo de gama.

Frank Muller, F. P. Journe, DeWitt ou Richard Mille são alguns dos nomes novos neste palco que procura dar exclusividade, sonho, reconhecimento. Muitas vezes a pulso, muitas vezes por impulso.

*Publicado na Máxima, no final de 2006

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